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Futebol/Bastidores - ( - Atualizado )

CEO do Manchester City crê que Corinthians se equipara a europeus

Helder Júnior São Paulo (SP)

O empresário catalão Ferran Soriano morou no Brasil entre o final da década de 1990 e o início dos anos 2000. Atuava no País no setor de telecomunicações na mesma época em que o Corinthians conquistava o seu primeiro título mundial. A partir de então, retornou a Europa e tornou-se dirigente esportivo – foi vice-presidente financeiro do Barcelona e atualmente é CEO do Manchester City, além de chefiar o recém-lançado New York City FC –, enquanto o clube brasileiro caiu e subiu de divisão antes de voltar a se consagrar com mais um troféu da Fifa.

Não foi tão à distância, contudo, que Ferran Soriano acompanhou as transformações do Corinthians nos últimos anos. Descendente de espanhóis, o então presidente Andrés Sanchez queria se inspirar em alguns exemplos administrativos que o empresário catalão havia implantado no Barcelona para resgatar o clube brasileiro da Série B em 2008. O diretor de finanças Raul Corrêa da Silva diz ter tirado dinheiro do próprio bolso para viajar à Espanha e conversar com Soriano, com quem trocou uniformes personalizados.

Divulgação
CEO do City, Ferran Soriano tem observado o crescimento do Corinthians nos últimos anos
Para Ferran Soriano, que hoje se orgulha de comandar o rico Manchester City na maior liga nacional do mundo (“de longe”, nas suas palavras), o Corinthians provou ter aprendido algumas de suas lições ao conquistar o Mundial de Clubes diante de um adversário inglês, o Chelsea. Questionado pela Gazeta Esportiva se o time brasileiro já é capaz de fazer frente aos europeus não apenas dentro de campo, o empresário não hesitou em afirmar com um português fluente: “Acho que sim, e esse é o grande desafio”.

Especialista em finanças, o CEO do City apontou justamente o poderio econômico do Corinthians como trunfo para a tão sonhada internacionalização definitiva da marca. “A receita do Corinthians hoje é a mesma de Ajax, da Holanda, e de Galatasaray e Fenerbahce, os dois maiores clubes turcos. É até maior do que a de 15 dos 20 clubes do Campeonato Espanhol. Ou seja, o Corinthians já pode fazer bons investimentos nos melhores jogadores ou mantê-los por mais tempo antes de vendê-los para o futebol europeu”, analisou Soriano.

De fato, o Corinthians gastou cerca de R$ 40 milhões para tirar o atacante Alexandre Pato (ainda com mercado no futebol europeu) do Milan nesta temporada. Vendeu o volante Paulinho para o inglês Tottenham no mesmo ano, porém só depois de recusar uma proposta oficial da Internazionale. “Os clubes brasileiros devem manter os jogadores até o momento certo – isto é, quando os seus salários e preços de mercado possam ser pagos sem arriscar a viabilidade financeira das instituições”, comentou o CEO do City, antes de fazer novos elogios à gestão esportiva de equipes do Brasil.

“Nos últimos anos, houve uma mudança positiva para os clubes brasileiros. Em 1990, alguns times venderam por pouco dinheiro seus jogadores a times de campeonatos menores da Europa, como Ronaldo Nazário e Romário (ambos foram para o PSV, da Holanda), que os repassaram depois. A figura começou a mudar com a venda do Pato para o Milan, já por uma quantia bem maior, e chegou agora ao nível máximo com a saída do Neymar para o Barcelona. Os negócios principais passaram a ser feitos no Brasil, por brasileiros”, avaliou.

No Corinthians, no entanto, as maiores receitas não provêm mais das transações de atletas. O clube se beneficiou da negociação individual de direitos de transmissão televisiva dos jogos de futebol no Brasil e aumentou consideravelmente os seus rendimentos. Com esse cenário, Ferran Soriano é um daqueles que acreditam em uma polarização de forças entre os times com as maiores torcidas no País – teoria já levantada pelo ex-presidente corintiano Andrés Sanchez.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Estrela da gestão de Mário Gobbi, Alexandre Pato foi a maior contratação da história do futebol brasileiro
“O futebol brasileiro deverá escolher o seu modelo com cuidado. Na Inglaterra, os quase € 2 bilhões de direitos de transmissão são repartidos entre os clubes também por meritocracia, com o atual campeão ganhando € 120 milhões e o último colocado, € 80 milhões. Na Espanha, a diferença é bem maior. Barcelona e Real Madrid receberão cerca de € 140 milhões agora, enquanto o último colocado terá direito a € 12 milhões. Pode-se argumentar que essa situação é injusta, mas a demanda e o tamanho das torcidas são as justificativas. O Brasil terá de escolher o seu modelo de reparte mais justo, fazendo um campeonato competitivo. É algo que deve ser estudado e discutido com profundidade”, orientou Soriano.

Os pontos de vista do CEO do Manchester City sobre esses e outros dilemas financeiros foram expostos no livro “A bola não entra por acaso”, relançado no Brasil recentemente pela Editora Lafonte. A obra não foi parar na cabeceira apenas de dirigentes do Corinthians. José Carlos Brunoro, anunciado como CEO do rival Palmeiras na gestão de Paulo Nobre, foi mais um brasileiro a prometer se espelhar na filosofia do catalão para também fazer ressurgir um time que foi parar na Série B.

Quando o assunto é o Palmeiras, no entanto, Ferran Soriano desconversa da mesma forma como faz diante de temas administrativos que vão além das finanças – ele também não se aprofundou, por exemplo, sobre o atacante argentino Tevez, vendido pelo City à Juventus depois de protagonizar algumas polêmicas na Inglaterra. O catalão crê que o modelo utilizado para o Barcelona conquistar dois títulos europeus e três espanhóis após um jejum que perdurava desde 1999 não seja o único viável para os dirigentes brasileiros.

Divulgação
Livro de Ferran Soriano, com alguns segredos de seu sucesso no Barcelona, foi relançado no Brasil
“O que foi feito no Barcelona pode servir como inspiração, mas do mesmo jeito que você pode estudar o desenvolvimento do futebol de base do Ajax dos anos 1980 e 1990 ou a recuperação espetacular do Borussia Dortmund, passando da falência à final da Champions League. Cada clube deve encontrar o seu próprio caminho. É preciso entender o que os outros fizeram apenas para poder inovar e encontrar a sua própria estratégia”, ensinou Ferran Soriano.

Com tantos conselhos, o CEO do City seria um bom candidato a voltar ao Brasil – não mais no ramo de telecomunicações, mas como responsável por fazer a bola deixar de entrar por acaso em times do País. “Tenho bons amigos no Brasil, para onde viajo bastante”, indicou Ferran Soriano, antes de avisar que continuará observando o Corinthians e outras equipes à distância. “Estou concentrado no City e no novo New York City FC. Não penso em outra coisa! Mas acho que o futebol brasileiro tem um futuro brilhante e vai atrair mais talentos também na gestão de clubes.”

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