Futebol/Reportagem - ( - Atualizado )

Fã de futebol, papa ‘divide’ espera por novo estádio com corintianos

Bruno Ceccon São Paulo (SP)

O Corinthians deve a ligação com seu padroeiro ao terreno do Parque São Jorge, mas há tempos que as dimensões do estádio não condizem com o porte do clube. Em Buenos Aires, ainda que os 45 mil lugares do Nuevo Gasómetro sejam suficientes para receber a torcida do San Lorenzo, a agremiação busca retornar à antiga sede desde que foi coagida a vendê-la pela ditadura. Durante sua passagem pelo Brasil, o papa Francisco, torcedor fanático do time argentino, pode ‘dividir’ a espera por uma nova arena com a Fiel.

Desde que sucedeu Joseph Ratzinger como papa, Jorge Mario Bergoglio vem se esforçando para construir uma imagem de despojamento e humildade diante da população mundial. A preocupação é visível em detalhes do cotidiano do novo pontífice, que dispensou o palacete papal para viver na Casa de Santa Marta (espécie de hospedaria do Vaticano), costuma se referir a si próprio como “bispo de Roma” e prefere circular sem a proteção de vidros blindados.

Por nova arena, San Lorenzo pede apoio a Francisco
Fé de 102 anos do Corinthians vai além do catolicismo

Uma das poucas riquezas do franciscano que deu visibilidade mundial ao time de seu coração é um pedaço das arquibancadas do velho Gasómetro. Com capacidade para receber 75 mil pessoas, a casa do San Lorenzo era o principal estádio argentino. Em 1979, no entanto, o clube foi coagido a vender sua sede pelo governo militar e, desde então, luta para retomar a área, atualmente ocupada por um supermercado da rede Carrefour.

“Certamente, o papa acompanha a nossa luta para voltar a Boedo (bairro que abrigava o Gasómetro). Alguns dos fanáticos que tivemos a sorte de viver naquele tempo possuímos partes das arquibancadas como recordação, a exemplo do papa. Há torcedores que guardam até mesmo pedaços do gramado”, contou Adolfo Resnik, principal articulador do movimento que se aproxima de conseguir a sonhada “Volta a Boedo”.

AFP
Em sua primeira viagem internacional como papa, Francisco encontra a presidente Dilma Roussef no Brasil
No ponto culminante de um processo com maciço apoio popular nos últimos anos, o San Lorenzo viu a aprovação da Lei de Restituição Histórica pelo Parlamento de Buenos Aires. Com a meta de erguer um novo estádio na antiga sede até 2016, os torcedores se mobilizam para reunir os R$ 38 milhões necessários para indenizar o Carrefour em troca da devolução de parte dos terrenos comprados pela empresa em uma negociação nebulosa realizada no começo dos anos 1980.

Em São Paulo, o caminho trilhado pelo Corinthians rumo ao sonhado estádio também foi tortuoso. Após uma série de planos ‘infalíveis’ e projetos mirabolantes, a futura arena do clube toma forma para receber o primeiro jogo da Copa do Mundo de 2014. Enquanto a Fiel pode testemunhar o 'milagre' através das janelas do metrô diariamente nas imediações da estação Itaquera, os rivais, de narizes torcidos, criticam os incentivos fiscais concedidos ao empreendimento.

A convite da Gazeta Esportiva, Darvin Puerta, diácono responsável pela capela localizada nas dependências do Parque São Jorge, conheceu as obras do futuro estádio do Corinthians um dia antes da visita do sumo pontífice a Aparecida do Norte. Em uma manhã fria, os operários saudaram a chegada do capelão, neto de uma argentina, com gritos de “olha o papa!” e “Francisco!”. O sinaleiro Robson Lourenço, mais conhecido como Robinho, aproveitou para ter sua medalha do santo guerreiro benzida.

“O estádio está muito bonito. A construção é grandiosa, abençoada por Deus”, disse Darvin, vestido solenemente, ao lado do gramado da arena com 82% das obras concluídas. “As coisas acontecem no tempo certo e acho que chegou o momento de o Corinthians ter o seu estádio. É algo que a torcida merece. O espaço que o clube concede à Igreja é significativo e isso é uma coisa que não conheço em outras agremiações. Pode existir, mas eu não conheço”, completou.

Na condição de diácono, clérigo imediatamente inferior ao padre, Darvin tem permissão para se casar (é pai de três filhos) e autonomia para exercer quase todas as funções de seu superior, com exceção de alguns ritos, como dar a unção dos enfermos e ouvir confissões. O capelão, no Corinthians desde 2008, já bebeu água na famosa biquinha do Parque São Jorge, mas nem por isso virou torcedor do clube, como diz uma das várias lendas da agremiação.

“Hoje, eu me defino da seguinte forma: sou palmeirense por tradição de família. Não acompanho tanto futebol e, atualmente, vejo mais as coisas do Corinthians do que as do próprio Palmeiras. Trabalhando como capelão há alguns anos, a gente aprende a gostar do Corinthians, do clube e das pessoas, porque nos tratam com respeito e dão abertura para fazermos um trabalho de evangelização muito grande. Não tem como não admirar o Corinthians”, afirmou.

Fernando Dantas/Gazeta Press
Darvin Puerta, diácono da capela do Corinthians, benze medalha de São Jorge do operário Róbson Lourenço
As celebrações na capela do Parque São Jorge acontecem às 9 horas e às 10h30 de todos os domingos (a primeira cerimônia é aberta para não sócios). Chamado de Darvin em homenagem ao naturalista britânico, o diácono estima realizar aproximadamente 10 batizados por mês e costuma receber muitos pequenos Jorges. Ele conta ter encontrado vários Jorges Henriques, homônimos do atacante negociado com o Internacional após fazer sucesso no Corinthians, e até um Basílio, como tributo ao herói do Paulista de 1977.

Acostumado a ler pedidos inusitados por títulos e proteção a jogadores na caixa de orações da capela, Darvin Puerta, de acordo com as normas da religião, é obrigado a vestir uma estola verde durante as celebrações em parte do ano. A simples associação ao arquirrival pela cor do acessório chegou a causar resistência entre os fieis corintianos, algo resolvido com explicações detalhadas sobre as leis da Igreja. Ainda assim, o diácono não esconde de ninguém sua origem palmeirense.

“Quando cheguei ao clube, teve uma certa resistência por causa da estola verde. Surgiram críticas, algumas pessoas queriam que eu tirasse. Mas depois entenderam e atualmente não tenho mais esse problema. Nunca houve nada que me atrapalhasse em função de torcer por outro time. Digo até que é uma chance boa que Deus nos ofereceu para mostrarmos que é necessário haver um clima de união e confraternização entre as torcidas de futebol”, disse Darvin, que já atuou até na sede dos Gaviões da Fiel.

Fernando Dantas/Gazeta Press
Darvin costuma receber o presidente Mário Gobbi na capela e teve visita de Tite após o título da Libertadores
Em 2008, temporada em que o Corinthians disputou a Série B do Campeonato Brasileiro, a imagem de São Jorge acabou despedaçada durante a procissão anual promovida pelo clube em homenagem ao guerreiro. O incidente foi visto por alguns como sinal de mau agouro, sensação rapidamente dissipada, já que o time não apenas retornou à elite como nas temporadas seguintes conquistou todos os títulos possíveis, do Paulistão ao Mundial. Coincidentemente, Darvin Puerta assumiu a capela naquele período.

“Eu estive no Corinthians um ano antes da quebra da imagem e retornei definitivamente pouco depois do incidente. Na época, a equipe estava em uma situação difícil, na Segunda Divisão. Não quero ligar a melhora à religião. O Deus é o mesmo para todos os times e pessoas, mas evidentemente na capela se pede muito pelo time e pelos jogadores. Costumo brincar que minha volta ao clube coincidiu com as mudanças no Corinthians, mas é claro que a explicação na verdade é o trabalho sério da diretoria”, disse.

Se a torcida do Corinthians aumenta no ritmo em que o time do religioso Tite conquista títulos, o catolicismo no Brasil vem perdendo terreno diante do crescimento expressivo dos evangélicos nos últimos anos. Inspirado pelo padre Lorenzo Bartolomé Massa, que fundou o San Lorenzo ao lado de um punhado de garotos em 1908, o papa Francisco tem a oportunidade de contribuir com o fortalecimento de sua religião durante a Jornada Mundial da Juventude, iniciada na última terça-feira, no Rio de Janeiro.

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