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Fã de música e literatura, uruguaio defende aborto e maconha legais

Bruno Ceccon e William Correia São Paulo (SP)

Sebastián Eguren fala sobre música, literatura e política com a mesma desenvoltura que comenta esquemas táticos e a cobertura dos laterais. Admirador de José Mujica, presidente do Uruguai, ele defende a legalização do aborto e da maconha, duas medidas encampadas pelo chefe de Estado, ainda que não concorde com o consumo de drogas, como faz questão de enfatizar.

O raciocínio do volante para defender a legalização da maconha é semelhante ao usado por Mujica. Na medida em que a droga jamais foi erradicada e é costumeiramente consumida à margem da lei, é mais vantajoso (ou menos danoso) legalizá-la e criar uma legislação específica para o tema – o presidente uruguaio propõe que a venda seja realizada pelo Estado.

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“Não concordo com o consumo de maconha, tabaco e álcool, mas, quando as coisas são fiscalizadas e consumidas legalmente, é favorável a todos. O fato de que o presidente apoie a causa não significa que esteja fazendo apologia. As pessoas consomem maconha e, legalizando-a, o Estado poderá ser ressarcido. O consumo ficaria mais restrito e não haveria um negócio sujo por baixo dos panos. Não me parece ruim”, disse.

Já a legalização do aborto, argumentou Eguren, poderia poupar a vida de várias mulheres. “O aborto sempre fez parte do dia a dia, e muitas garotas morrem. Legalizando, a mulher pode escolher, ela tem que ser parte desse assunto. Esse tipo de coisa deve ser feito dentro da legalidade e cuidando da saúde de quem quer fazer”, declarou.

Divulgação
Técnico Óscar Tabárez e capitão Lugano posaram ao lado do presidente José Mujica, que pensa como Eguren
José Mujica, no poder desde 2010, encampa as duas medidas. Em meados dos anos 1960, como integrante dos Tupamaros – movimento de guerrilha uruguaio -, ele foi baleado e passou aproximadamente 14 anos preso. Libertado com a volta da democracia em 1985, retomou a carreira e política e, mesmo eleito presidente, manteve hábitos simples, como dirigir um fusca 1987 e morar em um sítio nos arredores de Montevidéu.

“Tenho muitos pontos em comum com seu pensamento e maneira de ser. O mais admirável é que o presidente Mujica teve um passado que poderia fazê-lo governar com rancor, mas ele dirige o país pensando no futuro. Além disso, gosta de governar pelo exemplo. O Uruguai está em um caminho de justiça social que antes não existia e vem melhorando em várias áreas, mas precisa continuar crescendo”, analisou Eguren.

Durante a Copa de 2010, com a gestão de Mujica recém-iniciada, o Uruguai viveu um momento especial. Bicampeã olímpica (1924 e 1928) e mundial (1930 e 1950), a Celeste reassumiu o papel de protagonista no futebol há tempos perdido ao alcançar o quarto lugar depois de uma vitória histórica sobre Gana nas quartas de final. No país, a celebração transcendeu o aspecto meramente esportivo, conta Eguren.

Fernando Dantas/Gazeta Press
Casado com uma mulher sueca, Sebastián Eguren costuma visitar o país nórdico ao lado de seus dois filhos
“Vínhamos de uma crise econômica significativa do começo dos anos 2000. O país já tinha melhorado, mas faltava algo para que nosso povo pudesse festejar, e a Copa foi a desculpa perfeita. Fazia muito tempo que o Uruguai não tinha apenas uma cor, a cor celeste. Já não importavam os partidos políticos, a cor da pele e a classe social. Todos saíram às ruas para festejar não um título, mas uma honrosa derrota na semifinal”, contou.

Fã de futebol, o escritor Eduardo Galeano, admirado por Eguren, foi um dos milhões de uruguaios que vibraram com a campanha da Celeste na Copa de 2010. O volante também gosta das obras do falecido compatriota Mario Benedetti, mais um fã de futebol, e do panamenho de origem mexicana Carlos Fuentes, além do galês Ken Follet.

Por influência dos pais, Eguren se acostumou a ouvir Bob Dylan e Pink Floyd desde pequeno. Admirador dos uruguaios Jorge Drexler e No te va gustar, ele também é fã de cantores brasileiros. “Titãs, Legião Urbana, Cazuza, Cássia Eller, Marisa Monte, Adriana Calcanhoto e Ana Carolina”, enumerou. O gosto por política, literatura e música, garante o jogador, não o faz sentir entediado em meio aos boleiros nas concentrações.

“Muitas vezes, as entrevistas só falam de futebol. Se você me perguntar como foi o jogo, vou te responder sobre o jogo. Isso pode acontecer com outros jogadores. Você pensa que a pessoa não gostaria de falar sobre política, mas ela pode ser capaz. Eu me divirto nas concentrações. O futebol é algo estranho: um garoto de 17 anos pode compartilhar o mesmo objetivo de um homem de 35”, afirmou.

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