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Obdulio tratou brasileiros a pontapés, conquistou e foi conquistado

Marcos Guedes São Paulo (SP)

“Não só a mulher, como o homem, e não só o homem, como os povos, todos gostam de apanhar. Por mais estranho que pareça, todos gostam de apanhar”, disse Nelson Rodrigues. A frase ajuda a explicar a admiração do próprio escritor e dramaturgo --- que chamava seu patriotismo de “inatual e agressivo, digno de um granadeiro bigodudo” --- por Obdulio Varela, comandante da mais dura derrota brasileira.

O valente capitão do Uruguai na Copa de 1950 é até hoje inspiração para compatriotas como Sebastián Eguren. O reforço do Palmeiras não tem a pretensão de alcançar uma façanha histórica semelhante ao Maracanazo, atitude que certamente agradaria ao humilde “Negro Jefe”, mas se inspira no antigo camisa 5 para fazer sucesso e amigos no Brasil.

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No caso de Varela, a boa relação com o (futuro) país do futebol não começou com um beliscão e uma pisadela. Para Nelson Rodrigues, a Celeste calou 200 mil pessoas porque “Obdulio ganhou de nosso escrete no grito e no dedo na cara”, “arrancou, de nós, o título”, “extraiu de nós o título como se fosse um dente” e “nos tratou a pontapés, como se vira-latas fôssemos”.

Reprodução
Obdulio Varela alegrou Eduardo Galeano e frustrou Nelson Rodrigues ao "arrancar, de nós, o título" de 1950
A visão não é apenas dos derrotados. O escritor uruguaio Eduardo Galeano, cujo gosto pelo futebol é comparável ao de Nelson, atribuiu a improvável vitória por 2 a 1 da seleção de seu país ao capitão. Não foram os gols de Schiaffino e Ghiggia, a falha de Barbosa e a promessa a Deus de “uma quantidade de sacrifícios” feita pelo próprio Galeano, então um garoto de nove anos, que decidiram o Mundial.

“Nunca consegui recordar as muitas coisas que prometi, e por isso nunca pude cumpri-las. Além disso, a vitória do Uruguai diante da maior multidão jamais reunida numa partida de futebol tinha sido sem dúvida um milagre, mas o milagre foi acima de tudo obra de um mortal de carne e osso chamado Obdulio Varela. Obdulio tinha esfriado a partida, quando a avalanche nos caía em cima, e depois carregou toda a equipe nos ombros e com pura coragem impeliu-a contra ventos e marés”, escreveu, em “Futebol ao sol e à sombra”.

Divulgação/Fifa
Eguren tem o capitão de 1950 como referência
Entre os feitos atribuídos ao “Negro Jefe” no Maracanã, estão motivar seus companheiros urinando em jornais que davam a vitória dos donos da casa como certa, gastar um bom tempo com reclamações após o gol brasileiro de Friaça para acalmar os ânimos e dar um tapa na cara do adversário Bigode. Não existem maiores indícios da agressão além do relato do jornalista Mário Filho, pois não há videoteipe do jogo, mas Nelson, irmão de Mário, dispensava a burra tecnologia para explicar o que aconteceu.

“Pegaram Bigode e o desfibraram com tantas ordens que, na hora H, ele não sabia o que fazer da bola. Ele e os outros. Sim, mandamos para campo um escrete apavorado que correu do berro de Obdulio Varela”, relatou o cronista tricolor, ressentido apenas com o comportamento subserviente dos jogadores brasileiros em “nossa Hiroshima”, não com o herói celeste.

O centromédio, pelo contrário, tornou-se um modelo para Nelson. Em uma crônica na qual exaltava as qualidades técnicas e humanas do polêmico Almir Pernambuquinho, chamou o atacante de “Obdulinho”. Já em 1969, quando a Seleção era dirigida por João Saldanha, voltou a evocar o uruguaio. “A humilhação de 50, jamais cicatrizada, ainda pinga sangue. Todo escrete tem a sua fera. Naquela ocasião, a fera estava do outro lado e chamava-se Obdulio Varela. O escrete do João terá onze Obdulios.”

Reprodução
"A Gazeta" de 17 de julho de 1950 apontava o "Negro Jefe" como "artífice da vitória dos uruguaios"
O capitão uruguaio percebeu ainda na noite de 16 de julho de 1950 essa admiração daqueles que havia castigado. São diferentes os relatos do próprio jogador, mas todos têm álcool e amizades feitas pelo Rio de Janeiro. Ele se recusou a participar de uma festa organizada por autoridades esportivas uruguaias, em um hotel de luxo à beira-mar, e saiu às ruas da então capital federal.

“Temeroso no início, Obdulio descobriu que o povo carioca era simpático a ele, confraternizava com ele. Em vez de ofendê-lo, demonstrava-lhe grande consideração e mesmo carinho”, diz Roberto Muylaert, no livro “Barbosa --- um gol silencia o Brasil”, para a redação do qual estudou a fundo o primeiro Mundial pós-Guerra, com especial atenção ao dia D. “A partir daquela noite, em que foi saudado com muita simpatia em todos os lugares em que entrou, (...) o capitão Obdulio Varela passou a ter um enorme carinho pelo povo do Brasil.”

Em uma entrevista concedida em 1968, reproduzida por Muylaert, o “Negro Jefe” contou ter ido na noite da conquista a uma cervejaria com Figoli, o massagista de sua seleção. Reconhecido, recebeu elogios e um convite para ir a outro lugar tomar uísque. Varela disse ter feito o seguinte comentário a Figoli: “Vou sair com eles para que não pensem que tenho medo, porque de repente o que eles estão querendo mesmo é me jogar em algum rio por aí”.

Não jogaram. Obdulio chegou bêbado, mas vivo, já de manhã, ao hotel Paissandu, onde estava hospedada a equipe celeste. É provável que sua memória nunca tenha recobrado com precisão os eventos da madrugada, porém o homem que tratou o Brasil a pontapés e recebeu aplausos manteve inabalado até a morte, em 1996, um sentimento pelo povo brasileiro que Eguren ainda espera desenvolver.

Reprodução
Este gol proporcionou a Varela uma noite regada a, dependendo da versão, batidas de limão ou uísque

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