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Palmeirense vê Lugano como herdeiro de Varela e absolve Barbosa

Bruno Ceccon e William Correia São Paulo (SP)

Usar a tarja de capitão da seleção uruguaia pressupõe muito mais responsabilidade do que tirar o cara ou coroa antes do começo de cada partida. Companheiro de Diego Lugano no time que resgatou o orgulho celeste no futebol, o palmeirense Sebastián Eguren vê o zagueiro como digno herdeiro de Obdulio Varela, líder do time que ganhou a Copa do Mundo de 1950 sobre o Brasil do goleiro Barbosa.

“Obdulio é único, mas o aprendizado foi transmitido e tivemos outros grandes líderes, como Montero Castillo, por exemplo. Atualmente, contamos com um grande capitão. Guardadas as devidas proporções entre Obdulio Varela e Diego Lugano, ele é um pouco a herança dos líderes anteriores”, disse Eguren, que ainda citou José Nasazzi, capitão nas conquistas dos Jogos Olímpicos de 1924 e 1928 e da Copa de 1930.

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Ao lado de Lugano, o volante participou da campanha que culminou com o quarto lugar do Mundial da África do Sul em 2010. No ano seguinte, a dupla integrou o elenco campeão da Copa América da Argentina. Recém-contratado pelo Palmeiras, Eguren parece ciente da rivalidade acirrada de seu time com o São Paulo, evitando pronunciar o nome do adversário.

“O Lugano é muito identificado com o clube aqui do lado (os centros de treinamento das duas agremiações são vizinhos). Ganhou muito e fez história. Na seleção, encontrei um capitão e uma pessoa incrível. Como líder, ele transmite muita confiança aos companheiros. É algo impressionante, e vamos estar sempre gratos pelo que deu a nós e à seleção uruguaia”, afirmou.

Djalma Vassão/Gazeta Press
Na Copa das Confederações, Diego Lugano provocou jogadores brasileiros como um dia fez Obdulio Varela
Alcides Ghiggia e Juan Alberto Schiaffino marcaram os gols da vitória por 2 a 1 sobre o Brasil na final da Copa de 1950, mas Obulio Varela, apelidado de “Negro Jefe”, simboliza a bravura da Celeste diante de mais de 200 mil pessoas no Maracanã. Entre as inúmeras lendas em torno do capitão, ele teria urinado nos jornais que cantavam a vitória dos donos da casa antes do jogo e desferido um tapa na cara de Bigode em campo.

“Estamos falando do capitão da façanha máxima do esporte uruguaio. Todo o mundo diz que jogava muito bem. Foi um homem que defendeu ao máximo suas convicções. A história conta que era um atleta muito profissional e que cuidava de seus companheiros como poucos. No Uruguai, necessariamente você precisa saber quem foi Obdulio Varela, o que pensava e como vivia”, disse Eguren.

Após a vitória histórica no Maracanã, de acordo com relatos da época, o capitão do time passou a madrugada bebendo em bares do Rio de Janeiro ao lado dos desolados brasileiros. Na volta ao Uruguai, irritado com os dirigentes, que davam a derrota na final como certa, ele teria fugido das celebrações oficiais ao desembarcar com um chapéu enterrado até os olhos e as golas levantadas.

“O que aconteceu em 1950 é motivo de grande orgulho para o Uruguai e nos mostrou que não há nada impossível. Essa recordação nos obriga a sempre tentar um pouco mais. Quando você pensa que não vai conseguir, lembra de 1950 e conclui que deve, pelo menos, seguir tentando. Por outro lado, aquele título colocou um peso muito grande nas nossas costas e, de alguma forma, impediu que crescêssemos”, disse Eguren.

Fernando Dantas/Gazeta Press
Os volantes Sebastián Eguren e Obdulio Varela vestiram a camisa do Montevideo Wanderers e da seleção uruguaia
O goleiro Barbosa, apesar da série de títulos com o Vasco da Gama e com a própria Seleção Brasileira, ficou marcado pela derrota diante do Uruguai até a sua morte. Durante a conversa com a Gazeta Esportiva, mesmo sem ser questionado sobre o assunto, o volante contou que o antigo arqueiro ainda é lembrado no Uruguai e tratou de defendê-lo.

“A história sempre fala de uma pessoa. No Uruguai, falam muito do Ghiggia, autor do gol decisivo, e do Obdulio, o capitão. Mas havia outros jogadores, e a glória foi para todos. Se a glória é para todos, o fracasso também deveria ser. Digo isso como jogador de futebol e como pessoa que vive com sentido comunitário. O Barbosa merecia um pouco de respeito não apenas do Brasil, mas do mundo todo”, declarou.

A gloriosa Celeste viveu períodos delicados na segunda metade do século passado e não conseguiu se classificar para as edições de 1978, 1982, 1994, 1998 e 2006 da Copa do Mundo. A série de insucessos, conta Sebastián Eguren, serviu para fazer com que os torcedores passassem a valorizar feitos como o quarto lugar alcançado no torneio de 2010.

“Antigamente, perder a final era um fracasso, porque sempre havia a comparação com 1950. Mas a cabeça das pessoas mudou e agora temos mais humildade para aceitar que somos um país pequeno e que as coisas nos custam muito. Às vezes, um vice-campeonato ou um quarto lugar é bom e nos ajuda a crescer. Não somos os melhores nem vamos ser os piores, mas sempre deixaremos tudo em campo”, disse o palmeirense.

Gazeta Press
Barbosa, que fez defesas como esta na final Copa de 1950, tem no uruguaio Eguren um advogado de defesa
Os bis olímpico (1924 e 1928) e mundial (1930 e 1950) parecem incompatíveis com as dimensões do Uruguai, com população atualmente estimada em aproximadamente 3,3 milhões de pessoas. O recente vice-campeonato mundial sub-20 – a seleção foi derrotada pela França na decisão – mostra que a fenomenal produção de jogadores continua.

“Que sejamos poucos e tenhamos conseguido tanto é parte do inexplicável que acontece no futebol uruguaio. Por termos vizinhos como Argentina e Brasil, estamos sempre nos comparando com os melhores, o que também ajuda. Em qualquer outra área, como na indústria ou em uma guerra, seria impossível lutar. Mas no esporte é possível. Essa é a grande virtude que temos para competir”, disse Eguren.

Superado por Argentina, Colômbia, Chile e Equador, o Uruguai atualmente ocupa o quinto lugar das Eliminatórias Sul-americanas e precisaria disputar a repescagem na tentativa de se garantir no Mundial de 2014 se o torneio acabasse hoje. Após a derrota contra a Itália na decisão do terceiro lugar da Copa das Confederações, Sebastián Eguren já pensa na disputa classificatória.

“Mesmo sem o Brasil, as Eliminatórias são muito difíceis. Estávamos em um momento perigoso e com a confiança em baixa, mas a Copa das Confederações foi muito boa para nós. Já tenho quase 60 jogos pela seleção e, enquanto a reposição não chegar, vou continuar com muito gosto. Estamos centrados e sabemos que, sem sofrimento, não vamos conseguir nada, como sempre”, disse Eguren.

HERÓIS DE 2010 MANTÊM FUNDAÇÃO CELESTE
Cielo de un solo color

Cuántas lunas que se van,
y nosotros esperando
que despierte el corazón
que parece estar quebrado.

Todo el tiempo que pasó
no me aleja de tu lado,
cielo de un sólo color
que me sigue enamorando.

Hay algo que sigue vivo,
nos renueva la ilusión,
y en el último suspiro,
el momento ya llegó.

Con los dientes apretados,
cielo de un sólo color,
en el alma está guardado...

Vida, que vida pobre
vivirla en este lugar,
qué saben, qué saben ellos,
que no le pueden cantar.

Hay algo que sigue vivo,
nos renueva la ilusión,
y en el último suspiro...
ay, celeste regalame un sol...
ay, celeste regalame un sol...
ay, celeste regalame un sol...
ay, celeste regalame un sol...

Pouco depois da histórica vitória sobre Gana nas quartas de final da Copa do Mundo de 2010, alguns jogadores da seleção uruguaia, ainda na concentração, passaram a discutir a criação de uma instituição beneficente. De volta ao país, constituíram a Fundação Celeste.

Andrés Scotti, Álvaro Pereira, Diego Godin, Loco Abreu, Diego Lugano, Arévalo Rios, Edinson Cavani e Sebastián Eguren são os fundadores da instituição. “Estamos tentando, dentro das nossas possibilidades, ajudar um pouco as crianças carentes do país”, contou o volante palmeirense.

O capital inicial da Fundação Celeste, de US$ 100 mil, foi integralmente proporcionado pelos jogadores. “Seu propósito é fomentar os valores do esporte na educação de meninos, meninas e adolescestes, particularmente através do futebol”, informa o site oficial da entidade.

As primeiras iniciativas da Fundação Celeste foram investir na recuperação ou construção de quadras poliesportivas e na criação de escolas de futebol e de outros esportes. No último 15 de julho, com a presença de Lugano, a entidade entregou uma quadra na localidade de Chapicuy.

No evento que marcou a inauguração da Fundação Celeste, em julho de 2010, os jogadores subiram no palco para cantar "Cielo de un solo color", música que acompanhou a delegação na África do Sul, ao lado do grupo No te va gustar, um dos favoritos de Eguren. “Foi um momento marcante, porque quase todos no Uruguai se identificam com a banda”, lembrou.

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