Futebol/Campeonato Brasileiro - ( )

Tite vira inspiração contra a crise após se espelhar em Autuori

Helder Júnior e Luiz Ricardo Fini São Paulo (SP)

Tite estava receoso quando caminhou na direção de Paulo Autuori, há mais de uma semana, no gramado do Pacaembu. O gaúcho não sabia como o colega reagiria à sua intenção de cumprimentá-lo logo após o Corinthians conquistar a Recopa Sul-americana em cima do São Paulo. “Confesso que não sou muito receptivo nas derrotas. Não gosto de falar com os outros. Mas o Paulo me pareceu aberto naquele momento”, contou.

Conforme Tite previu, Autuori aceitou bem a reverência do rival após a derrota do São Paulo. Chegou a até abrir um sorriso – algo raro desde que ele assumiu um time em crise, substituindo Ney Franco. “Ganhamos, mas o Paulo foi campeão mundial oito anos antes de mim. Ele dignifica muito a nossa carreira com a sua competência. Quando eu estava começando, tinha nele um espelho, por se tratar de um profissional de alto nível”, comentou o corintiano.

Tite ainda buscava reconhecimento fora do Rio Grande do Sul no período em que Autuori colocava o seu nome na história de São Paulo, com o título do Mundial de Clubes de 2005. Apenas quatro anos e três meses mais jovem do que o adversário deste domingo, pelo Campeonato Brasileiro, ele já havia até passado pelo Corinthians, mas sem resistir às turbulências da parceria com a MSI.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Tite deu as costas para os antigos problemas do Corinthians e tornou-se referência de sucesso
No retorno ao Parque São Jorge, Tite mostrou estar calejado contra as crises. O emprego do comandante acabou mantido mesmo após uma vexatória eliminação na pré-Libertadores de 2011, diante do colombiano Tolima. A recompensa do Corinthians veio com os títulos do Campeonato Brasileiro do mesmo ano, da Copa Libertadores da América e do Mundial de 2012 e do Campeonato Paulista e da Recopa de 2013, o último sobre o São Paulo de Autuori.

A reviravolta de Tite agora serve de exemplo para uma de suas inspirações profissionais. “No Brasil, o Corinthians é claramente o time que tem conceitos táticos mais bem firmados dos últimos anos. O trabalho do Tite é excelente, é um estrategista. Ele montou uma equipe que entra em campo sabendo o que deve fazer. Isso é nítido”, reverenciou Autuori.

Quem enfrenta grandes problemas hoje em dia é justamente o treinador campeão do mundo de 2005. Em meio à crise do São Paulo, que não vence há 11 jogos (sendo oito derrotas consecutivas), Autuori tem repetido a serenidade característica de Tite diante das câmeras de televisão. Até os discursos dos dois se parecem, priorizando o “equilíbrio” das suas equipes.

“Sou muito tranquilo e realista. A única coisa que pode me preocupar e angustiar é não ter condições de ir a campo e treinar. O resto é a realidade do futebol brasileiro”, conformou-se Autuori, sobre a possibilidade de perder o seu emprego no Morumbi. “Se quiserem me culpar, não há dificuldade nisso. Vou falar que esse tipo de coisa não acontece? É a realidade”, reiterou.

Djalma Vassão/Gazeta Press
Autuori conta com o respeito e a compreensão de seu adversário, mas não tem tempo a perder
Com uma realidade bem distinta daquela que seu amigo vivencia, Tite ainda se colocou ao lado dele para evitar comparações baseadas nas capacidades de Corinthians e São Paulo. “Estou há quase três anos aqui. Assim, qualquer outro profissional do outro lado também teria uma equipe organizada. O tempo é o diferencial”, justificou.

O São Paulo não tem tempo a perder. Autuori e os seus comandados precisam urgentemente de uma vitória, de preferência em um clássico contra o maior rival, para readquirir confiança e fugir da zona de rebaixamento do Campeonato Brasileiro. “Esse negócio de tempo é um problema sério. Já vimos esse filme. Temos de encarar como uma realidade. Devemos nos adaptar à situação, até porque não dá para fugir dela”, comentou o técnico.

Se fala como se estivesse acuado no Morumbi, ao menos Paulo Autuori pode contar com um amigo no Pacaembu. “As pessoas devem se mirar em profissionais do quilate do Paulo. Já falei para ele que é um exemplo para a nossa classe. Jamais a gente vai se deixar levar pelos momentos dos times em um clássico. A torcida pode até brincar em relação ao adversário. Nós, não”, avisou Tite.

A tarde deste domingo colocará à prova a troca de cordialidades entre os treinadores. No mesmo Pacaembu onde o Corinthians ganhou a Recopa sobre o São Paulo, Tite e Paulo Autuori poderão não estar com igual disposição para dar um cumprimento tão majestoso quanto o do clássico passado após o reencontro.

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