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Algoz da URSS de Yashin, Palmeiras se dispõe a receber cubanos

Bruno Ceccon e Luiz Ricardo Fini São Paulo (SP)

O goleiro Lev Yashin trajou seu emblemático uniforme negro em um amistoso com o Palmeiras disputado como preparação para a Copa do Mundo da Inglaterra-1966. Algoz da União Soviética na partida realizada no Pacaembu, o clube paulista está disposto a receber um grupo de técnicos e jogadores de futebol de Cuba, antiga parceira do bloco socialista, para uma espécie de estágio.

Integrante do Partido Comunista do Brasil (PC do B), Aldo Rebelo, ministro do Esporte, visitou Cuba no último mês de fevereiro para estabelecer um acordo de intercâmbio em diferentes modalidades entre os dois países. Uma das primeiras ações deve ser o período de treinamento de boleiros da ilha caribenha no Palmeiras, time de coração do titular da pasta.

“Firmamos um convênio com a Federação Cubana de Futebol para facilitar o acesso do país a treinamento e preparação de equipes técnicas e jogadores no Brasil não apenas via entidades e federações, mas também via clubes”, explicou Aldo Rebelo, que presenteou René Perez Hernandez, do Comissionado Nacional do Futebol, com uma camisa do Palmeiras durante sua estadia na ilha.

Neste momento, o clube presidido por Paulo Nobre, investidor do mercado financeiro, estuda detalhes burocráticos e logísticos do período de estágio dos boleiros cubanos. Além de cumprir as formalidades técnicas do acordo firmado pelo Ministério do Esporte, falta definir a parte prática do projeto, como a quantidade de treinadores e jogadores a serem recebidos e o período exato da estadia, entre outros aspectos.

Gazeta Press
Acordo costurado pelo ministro palmeirense Aldo Rebelo levará cubanos ao clube presidido por Paulo Nobre
Apostando em modalidades como boxe, atletismo e judô, Cuba chegou a rivalizar com as principais potências olímpicas no auge do governo de Fidel Castro, mas nunca conseguiu destaque no futebol, embora tenha sido a primeira nação do Caribe a disputar uma Copa do Mundo. Um combinado formado por jogadores que jamais haviam deixado a ilha jogou como convidado na França-1938 e alcançou as quartas de final.

Afastada da Copa do Mundo desde então, Cuba não estará no Brasil-2014, já que terminou as Eliminatórias com cinco derrotas e um empate em seis partidas disputadas, deixando o torneio com um saldo de nove gols negativos. Como todos os esportes na ilha, o futebol permanece amador, mas vem mostrando alguns sinais de evolução nas últimas temporadas.

Depois de ficar com três vice-campeonatos da Copa do Caribe (1996, 1999 e 2005), Cuba conquistou o título em 2012. O feito inédito, alcançado na vizinha Antígua e Barbuda no fim do ano passado, classificou a nação para a Copa Ouro da Concacaf pela quarta vez nas últimas cinco edições do torneio continental, disputado em julho – a seleção goleou Belize na primeira fase e passou para as quartas, mas perdeu para o Panamá, que seria vice-campeão.

Parte do crescimento da modalidade na ilha pode ser creditado ao investimento da Fifa. De 1998 a fevereiro de 2013, a entidade despejou mais de US$ 5,1 milhões no desenvolvimento do futebol cubano, de acordo com números apresentados em seu site oficial. O suíço Joseph Blatter, presidente do órgão, esteve no país no último mês de abril e foi recebido por Raul Castro, irmão de Fidel e atual presidente.

AFP
Em evolução, a seleção cubana se classificou para a Copa Ouro da Concacaf e parou nas quartas de final
Na categoria sub-20, Cuba também logrou um feito expressivo ao se classificar pela primeira vez em sua história para a Copa do Mundo da categoria, disputada na Turquia em junho – o país caribenho acabou derrotado por Portugal, Nigéria e Coreia do Sul na fase classificatória. Com o acordo de intercâmbio firmado com o Brasil, os dirigentes da ilha esperam alavancar o processo de evolução.

Se agora os cubanos se preparam para excursionar pelo país pentacampeão, nos anos 1960 o Madureira fez o caminho inverso. Com o prestígio do futebol nacional em alta pelo bicampeonato da Seleção na Suécia-1958 e no Chile-1962, vários times aproveitaram para lucrar com exibições no exterior em maio de 1963. Além de Botafogo, Fluminense, Flamengo e Vasco, também viajaram Bangu, Bonsucesso e Madureira.

O pequeno time suburbano venceu os cinco jogos disputados em Cuba. O triunfo por 3 a 2 sobre um combinado de Havana no dia 18 de maio foi acompanhado pelo argentino Ernesto ‘Che’ Guevara. O guerrilheiro exerceu papel fundamental na revolução comandada por Fidel Castro em 1959 e na época ocupava o cargo de ministro da Indústria.

Condecorado pelo então presidente brasileiro Jânio Quadros em 1961, Che foi amável com a delegação do Madureira. Fã do Rosário Central, o argentino que tem sua imagem reproduzida por incontáveis torcidas ao redor do mundo gostava de futebol. Durante a viagem pela América do Sul ao lado do amigo Alberto Granado em 1952, chegou a atuar como técnico e goleiro do Independiente Sporting Club, da cidade de Letícia, na região amazônica da Colômbia.

Divulgação
O jornal A Gazeta Esportiva noticiou a excursão do Madureira: jogadores conheceram Ernesto Che Guevara
“No começo, pensamos em apenas dar os treinos para evitar um papelão, mas como (os jogadores) eram muito ruins, decidimos jogar”, contou Che em uma carta enviada à mãe. Ele foi para o gol e Granado, como centroavante, ganhou o apelido de Pedernerita em alusão a Adolfo Pedernera, que formou a linha de frente da 'Máquina' do River Plate com Muñoz, Moreno, Labruna e Loustau. “Defendi um pênalti que vai ficar para a história de Letícia”, escreveu o futuro guerrilheiro, vice-campeão de um torneio local. Os dois amigos seguiram viagem para Bogotá e teriam conhecido Alfredo Di Stefano antes de um jogo entre Millonarios e Real Madrid.

Falecido em 1967, Che Guevara participou do processo de aproximação entre Cuba e União Soviética. Respaldado pelo bloco socialista, principalmente nos aspectos econômico e militar, no contexto da Guerra Fria, o regime revolucionário viveu seu auge. Um ano antes da morte do guerrilheiro argentino, a seleção soviética realizou uma série de amistosos no Brasil durante a gestão de Castelo Branco, primeiro ditador do governo militar, alinhado aos interesses dos Estados Unidos.

O Palmeiras enfrentou a União Soviética no dia 29 de janeiro de 1966. Com gols de Dudu, Ademar Pantera e Rinaldo, o time da casa venceu por 3 a 1 (Meskhi marcou para os visitantes). Considerado um dos melhores goleiros de todos os tempos, Lev Yashin disputou os Mundiais de 1958, 1962, 1966 e 1970, mas não teve uma boa atuação em São Paulo.

“O goleiro Yashin, nome mundialmente consagrado, havia em noite obscura disputado uma das suas piores partidas de toda a carreira. Dirão que foi algo de acidental, sem dúvida nenhuma. Yashin foi ontem apenas vítima de infelicidade”, escreveu o respeitado cronista Thomaz Mazzoni na edição de 30 de janeiro de 1966 do jornal A Gazeta Esportiva.

Reprodução
Palmeiras venceu a URSS em amistoso de 1966
“Palmeiras fêz a URSS ‘sambar’ no Pacaembu”, manchetou o periódico esportivo. No relato da partida, mais detalhes da atuação abaixo da média do Aranha Negra. “Yashin, na meta soviética, falhou incrivelmente no gol de Dudu. Largando a bola, por ocasião do segundo tento, demonstrou que está longe de ser aquele goleiro classificado como o melhor do mundo”.

Diz a lenda que Yashin costumava fumar um cigarro para “acalmar os nervos” e tomar uma dose de vodka para “tonificar os músculos” como preparação para as partidas mais importantes. Antes do jogo contra o Palmeiras, ele cumprimentou o lateral direito palmeirense Djalma Santos – Brasil e União Soviética se enfrentaram na Copa do Mundo da Suécia-1958.

Com pelo menos nove dos 12 jogadores escalados no amistoso contra o Palmeiras, a União Soviética terminou a Copa do Mundo da Inglaterra-1966 na quarta colocação, seu recorde. Já o técnico Vicente Feola, que acompanhou a partida no Pacaembu, levou apenas Djalma Santos para a decepcionante campanha da Seleção Brasileira no Reino Unido.

*Colaborou João Victor Miranda

CITADINI QUASE LEVOU O CORINTHIANS A CUBA


O maior rival do Palmeiras também já se aproximou do futebol cubano. O Corinthians quase fez uma excursão à ilha para a disputa de dois amistosos contra a seleção do país, no começo dos anos 2000. O conselheiro alvinegro Antônio Roque Citadini, que era vice-presidente do clube, explica que a dificuldade de adequar a agenda aos jogos impediu a viagem.

“Tivemos problema de calendário, porque, na época, a CBF proibiu qualquer clube de viajar durante os campeonatos, mesmo se fosse só para dois jogos. Insistimos e falamos da importância, mas a CBF achava que não podia abrir exceção para nós”, afirmou.

A expectativa na época era de que o Timão atuasse na capital Havana e também em Santiago de Cuba, que é a segunda maior cidade do país. Os cubanos almejavam ainda mandar um jogador para a equipe profissional do Corinthians. Apesar de ter se entusiasmado com os amistosos, Citadini não aprovou a segunda sugestão e reagiu com bom humor.

“Eu disse que eles jogam beisebol e que nós gostamos de futebol. Eu só aceitaria que eles nos ensinassem a jogar beisebol, para criarmos um time”, recordou. De acordo com o então dirigente, os contatos começaram ainda na época da parceria alvinegra com o grupo norte-americano Hicks Muse, que não se opôs à idéia. Mas o acordo com o fundo terminou antes de o projeto com os cubanos ter avançado.

Sem ter conseguido ir à pátria de Fidel Castro, o Corinthians recebeu muito tempo depois os cubanos. No ano passado, a seleção do país fez uma excursão pelo Brasil e enfrentou a equipe sub-20 do Timão em amistoso que terminou 1 a 1.

 

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