Futebol/Entrevista - ( )

Colégio, vôlei e prefeitura: as origens do técnico Guto Ferreira

Bruno Grossi, especial para a GE.net São Paulo (SP)

Dois anos após vencer o Campeonato Brasileiro da Série B e ganhar o apelido de ‘Barcelusa’ pelo futebol vistoso, a Portuguesa voltou a empolgar a exigente torcida em 2013. Sem nomes de peso ou um craque que chame a responsabilidade, o discursos parecem ensaiados e apontam Guto Ferreira como o grande responsável pelo ótimo momento da equipe na temporada. Mas antes de levar a Lusa ao posto de melhor time da capital paulista na Série A, o piracicabano de 48 anos traçou caminho, no mínimo, incomum para se profissionalizar como treinador e relembrou a trajetória em entrevista à GazetaEsportiva.net.

No Colégio Salesiano Dom Bosco, fundado nos anos 1950 em Piracicaba, Augusto Sérgio era um entusiasta dos esportes. Praticava vôlei assiduamente e auxiliava o professor de educação física a organizar os torneios escolares. A proatividade chamou a atenção de um dos padres que administraram a instituição e o jovem de 16 anos se tornou o encarregado pelas práticas esportivas no movimento ‘Oratório Domingos Sávio’.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Guto é apontado por muitos como o grande responsável pelo bom momento da Lusa
O trabalho feito por Guto não passou despercebido e a prefeitura municipal resolveu chamá-lo para a secretaria de Esportes. Logo na sequência, então com 23 anos, assumiu o posto de preparador físico do time sub-13 do XV de Piracicaba, onde havia gastado a única tentativa de ser jogador. O resultado foi imediato e em pouco tempo a equipe conquistou títulos municipais, regionais e o terceiro lugar no estado de São Paulo.

Ainda à sombra dos técnicos principais, se aventurou nas categorias de base de São Paulo e Internacional, time que abriu as portas para a categoria profissional. No Beira-Rio, Guto passou pela pior crise do clube, mas voltou após passagem por Penafiel e Naval, de Portugal, para viver os momentos de glória com os títulos da Copa Libertadores da América e do Mundial de Clubes. Saiu e retornou novamente, aprendeu com Tite e com o uruguaio Jorge Fosatti e resolveu buscar novos caminhos.

Nascido no dia 7 de setembro de 1965, Guto Ferreira declamou a própria independência e passou a ser treinador, inspirado por Carlos Alberto Parreira e Muricy Ramalho e mesmo sem a força de ex-jogadores que se arriscam à beira dos gramados. No Mogi Mirim, iniciou caminhada vitoriosa, ganhando status de salvador da pátria a campeão depois de curto período em Criciúma e ABC. Chegou à Ponte Preta quando Gilson Kleina foi para o Palmeiras, manteve o nível da equipe e ainda faturou o Troféu do Interior do Campeonato Paulista, que já havia levado pelo Mogi.

Foi vítima, no entanto, da dança dos técnicos e deixou Moisés Lucarelli para entrar sob grande expectativa no Canindé. Com menos de 20 jogos no comando da Portuguesa, tirou o time da lanterna para ocupar a 11ª posição, com um dos melhores ataques do Campeonato Brasileiro. E não há um só lusitano, seja jogador, torcedor ou dirigente, que não aponte Guto Ferreira como o ‘cara’ rubro-verde em 2013.

GazetaEsportiva.net - Sempre foi apaixonado por futebol ou se interessou mais tarde pelo esporte?
Guto Ferreira - Gostar de futebol eu sempre gostei desde muito pequeno. Jogava, nunca tentei jogar profissionalmente. Fiz só um teste no XV de Piracicaba, mas naquela época o clube só tinha equipe juniores e eu ainda era juvenil. Eu era consciente de que não era ruim, mas não era uma qualidade que me permitisse buscar carreira profissional. Eu tinha outras oportunidades de estudo, coisas que me permitiam buscar uma profissão. Com 16 anos de idade, dentro do colégio Dom Bosco, em Piracicaba, na transição do padre que administrava o movimento Oratório, um era 'faz-tudo', enquanto o que chegou depois delegava mais as tarefas. Começou a desenvolver lideranças ali dentro. Tinha gente representando a parte cultural, outros a religiosa e eu fiquei com a de esporte. Gostava muito, até porque dentro desse colégio em que eu estudava como bolsista, eu já ajudava o professor de educação física na elaboração de tabelas.

GE.net - Como decidiu seguir a carreira de treinador? sempre teve isso como objetivo ou foi uma alternativa?
Guto Ferreira - Comecei a treinar a gurizada sub-11, sub-12, nessa época, com 16 anos. Nas férias treinava às quintas-feiras e, em geral, no sábado a tarde, quando não jogava. Não tinha ninguém para tocar, eu fazia tudo. Colocava o saco de bola nas costas e saía com 18 moleques pegando ônibus urbano pela cidade para disputar os campeonatos. Assim começou o gosto pela carreira. Eu também era atleta de volei na cidade, o que me deu uma noção de treinamento esportivo. Depois fui estudar a respeito e consegui um pouquinho mais de visão. Após me formar, trabalhando na Prefeitura de Piracicaba, o Celinho, que atualmente treina o Juventus, me convidou, com 23 anos, para ser o preparador físico do sub-13 do XV. E aí comecei a carreira vinculado a uma equipe profissional. Eu saía da prefeitura no meio da tarde, atravessava o muro e ia dar treino duas vezes por semana. As condições financeiras do clube e da categoria não eram das melhores, por isso os pais eram mais próximos, era uma cooperação. Fomos bicampeões da cidade, bicampeões da regional de Campinas e chegamos no segundo ano ao terceiro lugar do 'Bom de Bola, Bom na Escola', da secretaria do Estado. Eles foram crescendo, tiveram resultados no juvenil, nos juniores e alguns chegaram à carreira profissional.

Acervo Pessoal
Guto Ferreira, primeiro em pé da esquerda para a direita, no comando do Oratório Domingos Sávio; Jura, ex-São Paulo, é o quarto abaixado, no mesmo sentido
GE.net - Quais foram esses meninos que vingaram na carreira profissional?

Guto Ferreira - Ainda no colégio Dom Bosco, o Jura, que foi lateral direito do São Paulo, estava comigo. Se você procurar no meu Facebook, vai ver foto nossa antiga e ele parecia um ratinho com 11 anos de idade. No XV teve o Alexandre Faganello, que chegou ao profissional e hoje é nosso auxiliar aqui na Portuguesa. Com destaque apenas o Fabinho, que jogou no Guarani, jogou no Japão. O Fernando, que construiu carreira em Portugal. Mas o mais importante é que muitos deles não se formaram profissionais no futebol, mas se tornaram profissionais de talento em variadas área. Biólogo,s engenheiro florestal, médico, engenheiro agrônomo, mecânico, administrador de empresas. Cada um na sua. De alguma maneira, hoje a maioria tem seu destaque e é bem sucedido. E isso é melhor ainda do que o futebol.

GE.net - Quando você entrou de vez na carreira, você encontrou desconfiança por não ter sido jogador? Teve de brigar contra isso?
Guto Ferreira - Discutir, brigar, não. Porque a discussão nunca é aberta. Você tem que repetir o sucesso muitas vezes, mais vezes, para ter oportunidade que um ex-jogador tem, mesmo sem destaque como treinador. Por ter tido destadque como jogador, ele, na essência, é mais valorizado. A medida que você atinge um patamar maior, hoje por exemplo acho que concorro de iugual para igual, porque fui galgando degraus, o nome vai fortalecendo e já vai entrando na mente de muitas pessoas através da mídia. e o jogador já tem essa facilidade por ter jogado. Geralmente o cara que tem a mídia tem mais oportunidades, porque tem o nome forte para dividir responsabilidades com quem o contrata.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Sem ter sido jogador, Guto Ferreira precisou mostrar serviço para driblar desconfiança e ser valorizado
GE.net - Por também não ter sido atleta, Carlos Alberto Parreira é um espelho para você?
Guto Ferreira - Com certeza. Tem muita gente boa aí. Ney Franco, que sou da mesma idade, a única diferença é que eu subi até antes para o profissional, mas eu dei uma estagnada e ele subiu. Mano Menezes a mesma coisa. E agora que eu estou vindo com um pouco mais de força.

GE.net - Você citou apenas nomes da nova geração. Isso pode ser apontado como tendência?
Guto Ferreira - Pode ser sim uma tendência. Da antiga geração foi nomear quem? Além do Parreira tem quem? O Oswaldo de Oliveira e antes o Cláudio Coutinho. Me ajuda aí, tem mais? Acho que sempre teve gente boa, mas é que a dificuldade é muito maior.

GE.net - Chegou a ter contato com Muricy Ramalho no período em que esteve no São Paulo?
Guto Ferreira - Trabalhei por dois anos na base e tive um contato total com ele, espetacular. É um cara do bem, que me ajudou muito dento do São Paulo. Mantenho uma relação de extremo respeito. Não tenho amizade de estar sempre encontrando, mas sempre que tenho contato é legal, de amizade. É um cara que me ensinou muito e que tenho muito respeito pela pessoa que é e pelo caráter que tem.

Djalma Vassão/Gazeta Press
"Referência", Paulo Autuori acabou derrotado por Guto Ferreira no Canindé
GE.net - Muricy costuma dizer que Telê Santana foi responsável por preparar toda a carreira dele e, na década de 90, disse que voltaria ao São Paulo para firmar uma sequência. Você se espelha nisso? Acha que ele pode te ajudar a voltar ao Morumbi ou a se firmar em outro grande clube?
Guto Ferreira - Claro. Ele é uma das minhas referências, assim como Parreira, Paulo Autuori e até o próprio Jorge Fosatti, com quem trabalhei no Internacional, assim como o Tite. Tem muita gente que eu trabalhei, próximo ou junto, que você pode assimilar coisas importantes. Mesmo quando estão dando entrevista, aquilo que estão passando você identifica o que é de bom, o que vai te servir. E ai quando você se identifica e não está ainda tomando procedimentos parecidos, te abre o olho para quando surgir uma situação complicada você poder administrar de uma maneira legal.

GE.net - No Inter você se projetou na carreira, mas passou antes por um momento em que o clube viveu crise para depois ganhar tudo. Como foi?
Guto Ferreira - Foi um processo de transição e mesmo assim foi muito positivo, porque fomos campeões gaúchos. Não demos sequência, mas depois retornei em outro momento e em outra função. Mesmo assim, hoje, cada momento que eu passei, nas mais variadas maneiras, dificuldades, oportunidades, tudo, os que deram certo, os que não deram, são exercicios para conseguir sair de situações de dificuldades.

GE.net - Quais funções ocupou no tempo em que esteve no Inter?
Guto Ferreira - Num primeiro momento cheguei como treinador de juniores. Subi para ser auxiliar da equipe profissional e observador dos adversários, e depois assumi como técnico principal. Quando fui auxiliar do Zé Mário e ele estava suspenso, eu já tinha assumido o trabalho no campo como porta-voz dele. Num segundo momento retornei para coordenar a base em 2005 e 2006, fiz jogo rápido no XV de Campo Bom, depois retornei como coordendor do departamente de jogadores profisisonais. O mercado ficou dinãmico, aí criamos um banco de dados para analisar quem tava no país ou fora se destacando para que na transisção de remontagem de equipe, tivesse um catálogo que proporcionasse uma reposição qualificada o mais rápido possível. Dentro desse processo, eu pinçava os jogadores que valia a pena e a decisão era da direção e da comissão. Tive sucesso em vários e também errei. O mais importante era ter um índice de acerto maior. Com a chegada do Tite após a saída do Abel Braga, acumulei a função de auxiliar técnico e observador novamente como em 2001, 2002. Fiz isso até minha saída em janeiro de 2011.

Divulgação
Boas campanhas com o Mogi Mirim em 2012 abriram portas para Guto na Série A
GE.net - Como foi a decisão de sair para buscar novos ares?
Guto Ferreira - Pedi o desligamento junto ao Inter, fiquei 15 dias em casa e recebi uma proposta de projeto do Mogi Mirim. Fui para uma coisa, mas o projeto que seria mais à frente acabou sendo antecipado. Tive a felicidade de salvar o Mogi do rebaixamento, mas como eles não montariam time para a Copa Paulista e não tinham classificado para a Série D, fui para o Criciúma e ABC. Retornei em outubro, já captando jogadores e contratos, e montamos a equipe que chegou na classificatória em sexto e culminou como campeã do interior. Ao término disso, remontamos 80% da equipe. Participamos da Série D e conseguimos o acesso para a C. Após o jogo do acesso contra o Cianorte-PR, saí para a Ponte Preta (para substituir Gilson Kleina, que acertou com o Palmeiras). Mantive a Ponta na Série A e fomos campeões do interior neste ano, até chegar na Portuguesa.

GE.net - Como foi a experiência em Portugal? Tem vontade de voltar para o exterior? Já teve proposta?
Guto Ferreira - Foi uma experiência positiva naquele momento. Eu fui sozinho. Existe diferença de metodologia, diferença cultural, mas acho que foi positivo por tudo que consegui. A auto estima é valorizada quando você realiza coisas importantes. Logicamente, tudo depende do que vai acontecer pela frente e se o omento vai ser ou não interessante para receber propostas e optar por trabalhar lá fora. É o momento que diz. Não sei se esse seria o adequado, tem que chegar para analisar. Durante minha estada na Ponte recebi uma proposta do Catar, real, e naquele momento não foi interessante e eu neguei. Por isso que eu digo que é o momento.

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