Futebol/Entrevistas - ( )

Adãozinho vê Palmeiras de 2003 melhor e fala em voltar como técnico

Yan Resende, especial para a GE.Net Jacutinga (MG)

Em fase de reestruturação após seu primeiro rebaixamento na história, o Palmeiras apostou nos garotos de sua categoria de base para disputar a Série B do Campeonato Brasileiro em 2003, mas não deixou de trazer jogadores experientes. Entre eles, o volante Adãozinho, que, com 34 anos, havia sido vice-campeão da Libertadores pelo São Caetano na temporada anterior. Já aposentado, o ex-jogador conversou com a reportagem da GazetaEsportiva.Net e não teve medo comparar o time de dez anos atrás com o atual elenco que luta pelo acesso.

Para o ex-volante, o espírito coletivo do time que conquistou o primeiro acesso se sobressai aos valores individuais do atual elenco, e o trabalho realizado pelo treinador Jair Picerni transformou o Palmeiras em uma equipe que “sabia, a qualquer momento, que poderia fazer o gol e ganhar o jogo”. Adãozinho também não esconde o sorriso ao se lembrar das velhas histórias vividas ao lado de então garotos, como o atacante Vagner Love

Agora, o ex-volante inicia sua carreira de treinador. Neste segundo semestre de 2013, Adãozinho passou pelo Jacutinga Atlético Clube, time da terceira divisão do Campeonato Mineiro, e não conseguiu passar da primeira fase da competição. Os resultados, porém, não o desanimaram. Mesmo que ainda em times modestos, o ex-jogador sonha em voltar ao Palestra Itália como comandante do seu clube de coração.

Djalma Vassão/Gazeta Press
Entre os mais experientes do elenco, Adãozinho tinha a missão de comandar os 'garotos' do Palmeiras em 2003
GazetaEsportiva.Net: O que aquele time de 2003 tinha de diferente para conseguir reerguer o Palmeiras após o rebaixamento?
Adãozinho: Quando nós chegamos ao Palmeiras, o clube tinha um grupo muito grande, e o Jair Picerni (treinador na ocasião) achou por bem subir os jovens valores que tinham na equipe B. Esses meninos depois se tornaram grandes jogadores, como o Vagner Love, o Corrêa e o Edmílson, e todos aqueles que subiram da base puderam nos ajudar da melhor forma possível. Aquele time tinha uns meninos que queriam jogar bola, foi onde mesclou a experiência com a juventude e conseguimos fazer o melhor na competição.

GE.NEt: Quais são as maiores diferenças entre o Palmeiras de 2003 e atual equipe?
Adãozinho: Hoje é uma equipe mais jovem. Tem bons valores individuais, enquanto na nossa época era um futebol mais coletivo. De qualquer forma, as duas representam o Palmeiras, e essa também não teve dificuldades para subir. Agora, eu espero que não caia de novo.

GE.Net: A atual equipe do Palmeiras é melhor do que aquela que subiu em 2003?
Adãozinho: Não, eu não acho. Se você pegar 2003, nós começamos praticamente ainda em formação. A partir do momento em que o Picerni teve total liberdade para montar a equipe, o Palmeiras deslanchou de uma forma que nós sabíamos que, a qualquer momento, poderíamos fazer o gol e ganhar o jogo.

Gazeta Press
Para o ex-volante, a equipe de 2003 é melhor do que o atual time do Palmeiras, comandado por Gilson Kleina
GE.Net: O que mais ficou marcado para você, como um dos mais experientes do Palmeiras, naquele acesso de 2003
Adãozinho: Foi como realizar um sonho. Jogar futebol todo mundo sonha, mas, jogar pelo time do qual eu sou torcedor - e não nego isso em situação nenhuma - e ser reconhecido pelo torcedor do Palmeiras são coisas que não têm preço. Muitas vezes, eu não tinha função certa em campo, jogava de volante, lateral ou meia, mas sempre querendo ajudar o grupo. E isso ficou muito marcado, apesar de ser Série B, ficou muito marcado. Então, nos jogos em que eu pude participar, eu dei o melhor de mim. Mas o que marca a vida do atleta é quando você entra no Palestra Itália e vê aquela torcida imensa está gritando o seu nome. Isso não tem preço. É a melhor coisa que tem.

GE.Net: Ao longo daquela campanha, você chegou a ameaçar de deixar o grupo?
Adãozinho: Teve uma passagem em que eu fiz um projeto em Bragança (Paulista) para uma competição de menores. Naquela ocasião, fiz o convite para vários atletas do Palmeiras e três ou quatro jogadores foram para Bragança. Depois do evento, eu fui para casa da minha mãe, mas, no outro dia, estava no jornal a manchete dizendo que Vagner Love, Adãozinho e Lúcio estavam na balada. Eu me revoltei bastante, porque eu nunca nem bebi. Aí eu tive que fazer os exames, comprovei minha inocência e até hoje eu tenho um bom relacionamento com os dirigentes do Palmeiras.

GE.Net: Aquele grupo era formado por vários garotos. Você se lembra de alguma história engraçada que ocorreu a época?
Adãozinho: Teve bastante, né? Às vezes, os jogos da Série B eram nas noites de sextas-feiras, e eu nunca gostei de dormir até tarde. Então, quando eu concentrava com o Claudecir ou com o Magrão, e levantava cedo para fazer exercício físico, eles não acreditavam e faziam piadinhas, perguntado com quem eu ia me encontrar na Avenida Paulista logo de manhã. Além disso, tem muitas histórias com o próprio Vagner (Love). Ele merece estar onde está hoje. É um cara que fazia a alegria da rapaziada, brincava bastante. Muitas vezes, entre os mais jovens, a gente tinha que separar umas intrigas, mas a gente tentava passar mais experiência para eles.

Gazeta Press
Ao recordar a campanha na Série B de 2003, Adãozinho não deixa de elogiar o trabalho feito por Jair Picerni
GE.Net: Você considera a passagem pelo Palmeiras como o auge de sua carreira, ou fazer parte daquele surpreendente São Caetano, entre 2000 e 2002, foi mais significativo?
Adãozinho: Para o mundo foi o São Caetano, mas para a pessoa Adãozinho foi o Palmeiras, porque você chegar a uma equipe de ponta como Palmeiras, com 34 anos, é muito difícil. Mas, todas as vezes em que fui solicitado, eu respondi à altura, fiz aquilo que os jogadores, torcedores e dirigentes esperavam de mim.

GE.Net: O que ficou marcado para você nos três anos em que vestiu a camisa do São Caetano?
Adãozinho: Ali marca tudo. Se você for relatar o que aconteceu, você derrama lágrimas. Era um cube que não tinha torcedor e nós fizemos nascerem vários torcedores do São Caetano. Nós tínhamos um grupo muito humilde, competitivo e amigo. Não tinha como dar errado. Nós perdemos as finais, mas, em nenhum momento, procuramos culpados. Aquilo ali marca. Quando você tem amigos em um grupo, tudo fica melhor. Hoje, se eu ainda estivesse em condições de jogar, eu entraria em campo para tirar o São Caetano dessa situação (o Azulão briga contra o rebaixamento na Série B do Campeonato Brasileiro).

GE.Net: Assim como o São Caetano, o Palmeiras também não soube se manter no topo nos últimos dez anos. Quais foram os principais fatores que levaram o clube a um novo rebaixamento?
Adãozinho: Em tudo na sua vida, você tem que ter um bom planejamento. Você pode tirar exemplo pelo maior rival do Palmeiras, que é o Corinthians. Você tem que cair uma vez só, se reestruturar, dar valor aos jovens jogadores que tem no clube e ter um planejamento. Se não tiver planejamento, você não consegue manter um clube.

Marcelo Ferrelli/Gazeta Press
"Palmeiras até morrer", Adãozinho, que inicia carreira de treinador, sonha em voltar ao Palestra Itália
GE.Net: Você teve uma carreira longa como jogador e demorou a se aposentar. Foi difícil parar de jogar bola como profissional?
Adãozinho: Foi difícil porque eu sempre gostei de treinar. Então, eu senti muito, mas hoje eu estou feliz, porque o que eu consegui através do futebol, todos os meus conhecimentos e minha condição para viver bem, me deixa muito feliz.

GE.Net: Na última temporada, você iniciou sua carreira como treinador. Quais são seus planos para o futuro?
Adãozinho: Iniciei minha carreira de treinador em Atibaia, mas não foi como pretendia. Aí, fiz uma visita em Jacutinga e estou aqui. Pode ter certeza que depois de passar por aqui, vou para uma equipe grande.

GE.Net: Você pensa em treinar o Palmeiras?
Adãozinho: Nossa, se acontecer isso aí, eu acho que não vou resistir. Porque é realizar um sonho duplo. Ser jogador e depois trabalhar também no clube como técnico. Tenho muitas lembranças de lá. Sou Palmeiras até morrer.

Publicidade

Publicidade


Publicidade

Publicidade

Publicidade