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Após ver torcida saturada, Prass já se cobra por título no centenário

William Correia São Paulo (SP)

O Palmeiras é o segundo clube grande que Fernando Prass ajuda a subir, com mais facilidade do que quando atuou no Vasco em 2009. O goleiro, contudo, não viu na Série B desta temporada a mesma festa que presenciou no Rio de Janeiro há quatro anos e entendeu o recado de uma torcida irritada por dois rebaixamentos em dez anos. E sabe a solução: ser campeão em 2014.

O jogador mais velho do elenco falou com exclusividade à Gazeta Esportiva.net pouco antes de um dos treinos anteriores à confirmação do título e abriu um sorriso ao falar de sua participação no ano do centenário palmeirense. “O ano que vem precisa ser marcado com uma conquista”, sentenciou o veterano, que compreendeu as vaias após a garantia de volta do time à elite nacional.

Aos 35 anos, Prass lembrou principalmente do começo do Vasco na segunda divisão, demorando a entrar na zona de acesso, para cobrar dos colegas no Verdão um início convincente para o ambiente não ser afetado. Hoje, o goleiro, com contrato até dezembro de 2014, ser orgulha por fazer parte de um time com qualidade de seleção e espírito de Série B.

Gazeta Esportiva.net: O que significa esse título da Série B para você?
Fernando Prass: Significa bastante até pela situação do Palmeiras. Agora que o clube já está na primeira divisão, muitos têm uma visão diferente, mas tenta imaginar se o Palmeiras não consegue subir nem ser campeão e vai jogar a segunda divisão no ano do centenário e da inauguração de uma arena maravilhosa. Era uma responsabilidade muito maior do que já é por si só jogar no Palmeiras na Série B. A conquista é proporcional ao tamanho da responsabilidade, por isso tem que ser muito valorizada.

GE.net: Qual marca o Palmeiras deixa nesta Série B?
Prass: Que futebol não se ganha com camisa e tradição, mas com doação e entrega em campo. Ninguém pode criticar dizendo que nosso time não teve isso. Mesmo com a camisa e a tradição do Palmeiras e tendo jogadores de seleções brasileira, uruguaia e chilena, soubemos encarnar o espírito da Série B e jogamos de igual para igual contra todos os times no quesito dedicação e empenho. A qualidade técnica do Palmeiras, por natureza, é alta, mas conseguimos juntar isso incorporando o título da Série B.

GE.net: Você acha que a torcida poderia ter ajudado mais? A média de público não foi tão alta e o time até ouviu vaias no jogo em que garantiu o acesso.
Prass: Foi a reação da torcida. Não sei como foi na primeira vez que o Palmeiras subiu, mas, quando subi com o Vasco em 2009, o juiz apitou o fim do jogo e foi uma festa de título no Maracanã com quase 90 mil pessoas, foi muito comemorado. Aqui, claro, teve a questão do resultado, que foi um sufoco e um empate, mas esse não foi o fator principal, pode ter sido o desencadeante. Essa situação de ser a segunda vez na segunda divisão deixou o pessoal bem saturado.

GE.net: Nessa campanha do acesso, dá para sentir que o Palmeiras vai aprender a não cair?
Prass: Isso é muito relativo. Não sei os fatores que levaram o Palmeiras a cair, é um clube com uma estrutura muito boa, financeiramente dá condições para o atleta, não há o que comentar. Mas, no Brasil, o equilíbrio é muito grande. Qualquer problema ou distração no meio do Brasileiro pode te levar lá para baixo. Tem que estar muito atento mesmo tanto para lutar pelo título quanto para não cair. Neste ano, o Fluminense, como atual campeão, era candidato a título, o Corinthians campeão do mundo, também, e são dois clubes que estão em baixa, assim como o Inter.

Fernando Dantas/Gazeta Press
Jogador mais velho do elenco usou experiência com Vasco para cobrar bom começo do Palmeiras na Série B
GE.net: Você disse no começo da temporada que esperava uma Série B mais tranquila neste ano do que a vencida pelo Vasco em 2009 porque o Palmeiras tinha o time mais montado. Sua expectativa se confirmou?
Prass: As situações são diferentes. O Palmeiras não tinha um time montado no começo do ano, mas, mesmo assim, tinha muitos jogadores. O Vasco, pelo que me lembro, tinha quatro jogadores do time profissional e mais quatro meninos, que eram Alan Kardec, Vilson, Alex Teixeira e Souza, que estavam subindo, então precisava de muito mais contratações. Na formação da equipe, o Vasco teve mais dificuldades, tanto que encontrou mais dificuldades no começo da competição, só depois da décima rodada as coisas começaram a entrar nos eixos.

GE.net: O começo da Série B do Vasco em 2009 foi bem mais complicado. Você passava isso como experiência para os seus companheiros no Palmeiras?
Prass: Sabíamos que a cobrança seria muito grande aqui no Palmeiras. Se começássemos mal, viria uma pressão muito maior em cima, e, quando tem muita cobrança, o ambiente não é positivo e isso se reflete dentro de campo. Por isso era importante começar bem, até para acalmar um pouco a torcida e eles voltarem a acreditar no time. Para ter tranquilidade, foi importante começar bem.

GE.net: Nas suas entrevistas, você sempre adotou um discurso pedindo alerta permanente, ressaltando que bastava um empate para as críticas e a pressão aumentarem. Sinceramente, quando você sentiu que o acesso já era inevitável?
Prass: Depois da Copa das Confederações, tivemos uma melhora muito acentuada, 11 jogos sem derrota com dez vitórias e um empate. Somar 31 pontos em 33 é um número muito alto, começamos a abrir uma distância para o quinto colocado que já nos encaminhou.

Fernando Dantas/Gazeta Press
Goleiro pegou até pênalti nesta Série B e teve atuação decisiva no 0 a 0 com o São Caetano que garantiu o acesso
GE.net: Serão necessários muitos reforços para o campeão da Série B cumprir as expectativas no centenário do Palmeiras? 
Prass: No final do ano, muitos vão sair porque estão em final de contrato ou porque se valorizaram e outros virão, como é normal no futebol, até o Cruzeiro, melhor time do Brasil, fará contratações. Precisaremos de reforços até para suprir a saída de jogadores. Mas temos uma base e um grupo muito bons. Hoje, precisamos de alguns retoques, não montar um time como no começo do ano.

GE.net: Qual a sua ideia para o ano que vem?
Prass: Tem o centenário e a inauguração da Arena, são coisas muito marcantes. O ano que vem não pode passar sem título, tem que ter um título pelo menos para marcar o centenário do clube com uma conquista. Isso é o princípio de tudo para nós.

GE.net: É uma obrigação?
Prass: Quando se joga no Palmeiras, se tem a obrigação de lutar e fazer um bom campeonato, e na cabeça do torcedor existe a obrigação de título. Mas, dos 20 clubes que disputam o Brasileiro, na cabeça do torcedor, 16 têm a obrigação de ser campeão. Dividimos na Série A essa responsabilidade com muitas outras equipes. Temos a obrigação de lutar por todos os títulos e conquistar, pelo menos, um para marcar o centenário.

MARCOS DEIXA DE SER PESO PARA PRIMEIRO GOLEIRO CONTRATADO EM 18 ANOS
Gazeta Press
Fernando Prass participa de homenagem a Marcos: ex-goleiro não é fantasma para sucessor


Fernando Prass foi o primeiro goleiro contratado pelo Palmeiras desde o paraguaio Gato Fernández, em 1994. Mais do que provar ser melhor do que os alunos de uma escola da qual o clube sempre se orgulhou, o veterano ainda tinha que lidar com o ‘fantasma’ de Marcos, ídolo tido como santo pela torcida. Mas, em seu primeiro ano, o veterano se sentiu à vontade com toda a responsabilidade.

Na Série B, o camisa 25 se destacou defendendo pênalti contra o Icasa, no Pacaembu, e garantindo o 0 a 0 que selou o acesso diante do São Caetano. Ainda destaca suas atuações nas vitórias sobre Sport e ABC. Provas de que a sombra ‘santificada’ não se tornou uma carga nas suas costas.

“Para mim, nunca foi um peso”, disse Prass, que no Vasco vestia uma camisa que já tinha sido de ídolos como Mazaropi, Acácio, Andrada e Carlos Germano, que era seu preparador, e saiu de São Januário admirado por torcedores, dirigentes e atletas, apesar de ter apelado à Justiça para receber salários atrasados.

“Qualquer deslize que eu pudesse dar, tinha a figura do ídolo do lado, mas eu soube lidar com isso também, assim como aqui no Palmeiras. Muitos falaram que depois de 18 anos o Palmeiras contratou um goleiro, que era uma escola formadora. Para mim, isso é um elogio: se uma escola tão tradicional na formação de goleiros me contrata, é sinal de que viu em mim qualidade do nível de quem está aqui”, vibrou.

Diante dos elogios, a impressão é de que o veterano não precisa mais falar tanto sobre Marcos. Mas é só impressão, garante Prass. “Sempre tenho que falar de Marcos com alguém. Foi a pergunta que mais respondi, que mais respondo e mais vou responder na minha história no Palmeiras. Ainda bem que é para o lado bom”, sorriu.

“Não tem como fugir porque é um dos maiores ídolos da história e com um passado muito recente, diferentemente de Ademir da Guia e outros atletas com passado mais distante. O Marcos está muito vivo na memória, e tenho certeza de que vou ter que lidar com isso por muito tempo ainda”, conformou-se.

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