Futebol/Especial Tríplice Coroa - ( )

Gomes festeja década da Tríplice Coroa com saudade de Cruzeiro e Seleção

Yan Resende, especial para a GE.Net São Paulo (SP)

Ao comemorar os dez anos do título do Campeonato Brasileiro de 2003 – a confirmação veio na vitória, por 2 a 1, sobre o Paysandu, no dia 30 de novembro -, Gomes pôde ver o atual time do Cruzeiro conquistar a competição nacional novamente em 2013, recolocando o clube mineiro em destaque no cenário nacional. Sem esconder a paixão pelo time que o revelou em 2002, o arqueiro, em entrevista à GazetaEsportiva.Net, comparou os elencos separados por uma década e aproveitou o bom momento celeste para evidenciar o seu desejo de voltar ao futebol brasileiro.

Mesmo na Inglaterra, o arqueiro revelou que tem acompanhado as principais competições no seu país de origem, principalmente os jogos do Cruzeiro ao longo deste Campeonato Brasileiro. Cogitado em alguns clubes nacionais, Gomes garantiu que ainda não tem nenhuma proposta concreta para voltar, mas a hipótese não é descartada. Pelo contrário, o goleiro chega a imaginar como seria sua carreira se estivesse atualmente no Brasil.

Diante da boa fase atravessada por Fábio, atual goleiro do Cruzeiro, o arqueiro de 32 anos reconhece que o retorno à Toca da Raposa é difícil, mas, ao assistir os jogos entre os principais clubes brasileiros, sonha em vestir a camisa de algum deles. Para Gomes, a volta também seria importante na briga por uma vaga na Seleção Brasileira, já, que sob o comando de Luiz Felipe Scolari, o jogador acredita que ainda tem chances de disputar a Copa do Mundo.

Djalma Vassão/Gazeta Press
Com apenas dois anos de profissional, Gomes já assumiu a camisa 1 do Cruzeiro e brilhou ao longo da temporada
GazetaEsportiva.Net: Você começou como profissional em 2002 e logo foi titular de um dos melhores times dos últimos anos, conquistando a Tríplice Coroa. Qual a importância daquele Cruzeiro de 2003 em sua carreira?
Gomes: Eu acho que foi importantíssimo, pois foi através daquela conquista que apareceram clubes da Europa interessados no meu futebol. Foi realmente muito marcante, me sinto privilegiado de participar de uma equipe vencedora logo no meu primeiro ano como profissional, jogando de titular do Cruzeiro. Foram quatro títulos em menos de dois anos. Nós conquistamos os três títulos de 2003 e ainda o Campeonato Mineiro de 2004. Então foi muito importante para o início da minha carreira. A galera que ia ver os jogos, como os representantes do PSV (da Holanda), conseguia ver que eu estava participando de uma grande equipe.

GE.Net: Aquela equipe, na maioria dos jogos, ‘sobrava’ em campo. Qual era o diferencial do Cruzeiro comandado por Luxemburgo?
Gomes: Eu costumo dizer que a gente tinha uma ótima equipe e ainda com jogadores vencedores. Então isso foi o diferencial, além de todo um trabalho feito pelo Vanderlei (Luxemburgo). Era um trabalho de programação, com objetivos a serem alcançados a cada três jogos. Montar uma boa equipe é fácil, mas montar um time vencedor não é simples, e foi isso que a gente teve em 2003, com jogadores que não se conformavam com resultados ruins, nós entrávamos em campo sabendo que iria ganhar os jogos. Às vezes, no ônibus, a gente até brincava, se ia ser de dois ou três (gols) de diferença. Os poucos jogos que perdemos em 2003 foram por causa do excesso de confiança. Não foi desrespeito ao adversário, mas muita confiança, pois sabíamos que poderíamos ganhar de qualquer um a qualquer hora. Uma equipe daquela é muito difícil de ser montada novamente. O Cruzeiro tem uma boa equipe esse ano, mas é bem diferente do time de 2003.

Djalma Vassão/Gazeta Press
Cruzeirense, o goleiro não esconde o desejo de voltar à Toca da Raposa para defender o time celeste
GE.Net: Mesmo distante, você tem acompanhado o desempenho do atual time do Cruzeiro? O time de 2003 é melhor do que o atual?
Gomes: Eu acho que para comparar esse time de 2003, o Cruzeiro teria que ganhar todos os títulos que nós ganhamos. È claro que o Cruzeiro de hoje está jogando um futebol bonito, que sobrou no final, como foi com a gente também. Depois de dez anos, o Cruzeiro conseguiu formar um time mais ou menos parecido com aquele. O diferencial desse time é que muitos jogadores se destacam e ganha alguns jogos pela qualidade individual de alguns atletas. Aquele Cruzeiro de 2003 era muito mais conjunto do que o Cruzeiro de hoje, essa é a diferença. O único que se destacava naquela época, e praticamente era o homem do jogo sempre, era o Alex. Os outros trabalhavam em função do time. E nós também tínhamos uma ou duas variações da forma de jogar ao longo da partida, e hoje o Cruzeiro, pelas características dos jogadores, tem dificuldades para variar o estilo. As equipes já sabem como jogar contra, por isso não teve vida fácil nesse final.

GE.Net: A mescla entre jogadores mais novos, como você e o Cris, com outros mais experientes, como o Zinho e o Aristizábal, foi importante para ter sucesso?
Gomes: Isso foi importantíssimo, pois, principalmente, os mais jovens corriam pelos mais velhos. Tínhamos um respeito muito grande pelos jogadores mais experientes e fazer parte de um grupo com eles era algo muito bom. Então, a gente tentava agarrar todas as chances, trabalhava forte, porque sabíamos que eles poderiam resolver em determinadas situações, como foi o Zinho no jogo contra o Paysandu (partida que garantiu o título do Campeonato Brasileiro de 2003). Isso era muito importante, ter um jogador com essa experiência era importante ao longo da partida. Nós tínhamos um grupo completo. A gente não precisava inventar muito, era colocar aquilo que tínhamos de qualidade em prol do grupo.

GE.Net: Com as importantes conquistas ao longo do ano, o clima dos bastidores entre os jogadores era bastante descontraído.
Gomes:Era demais, sempre foi ‘top’ demais. Era uma família mesmo. O Vanderlei falava que a gente se concentrava mais do que extrato de tomate. Eu lembro que marquei meu casamento para uma quinta-feira, antes do jogo contra o Santos, e o Vanderlei, uma semana antes da data, antecipou a concentração para dois dias antes da partida, que seria no sábado, no Mineirão. Todos os jogadores confirmaram presença, mas o Vanderlei disse que não podia mudar a programação por causa do casamento. Aí, quem foi no casamento pôde se reapresentar à meia-noite, já que antes estava marcado às 22 horas, inclusive eu. Aconteceu o casamento e já corremos para a concentração. Era uma família. O tempo que passávamos juntos era maior do que em casa, mas tudo isso compensa com os resultados.

Djalma Vassão/Gazeta Press
Liderado pelo craque Alex, o Cruzeiro foi imponente ao longo de 2003 e conquistou um feito inédito no futebol brasileiro
GE.Net: Quais eram os jogadores mais brincalhões no elenco?
Gomes: O Maurinho (lateral) sempre foi muito brincalhão, o (Edu) Dracena e até mesmo o Alex soltava muitas piadas. Era um grupo muito descontraído. A gente estava no meio de atletas experientes e vencedores, mas tinha esse espaço para brincadeiras com mais jovens, fazendo essa mescla que deu certo. Não adiante você ter um grupo fechado, em que um não fala com o outro, porque isso não vai levar a nenhum lugar. Por isso os mais velhos davam essa liberdade para os mais novos, sempre tinham essas brincadeiras e era muito bom.

GE.Net: No futebol europeu, você jogou no PSV, no Tottenham e teve uma rápida passagem pelo Hoffenheim. Aquele Cruzeiro foi o melhor time de sua carreira?
Gomes: Por causa do elenco, eu acho que sim. Tivemos um time muito bom no PSV, na temporada 2004/05, quando chegamos às semifinais da Champions League. Era um time de muito talento, muita qualidade. Mas com relação a grupo, eu não tive um time melhor do que aquele Cruzeiro de 2003. A gente soube transformar aquilo em títulos, ficou marcado para todos nós, todos os jogadores sempre relembram daquele Cruzeiro de 2003. E, hoje, a gente fala: é difícil montar, podem ter alguns times parecidos, mas, dificilmente, será igual.

GE.Net: Com 32 anos, você pensa em voltar ao futebol brasileiro? Você já chegou a ser sondado por algum clube daqui?
Gomes: No meio do ano passado, eu fui sondado pelo Vasco, eles fizeram uma proposta oficial para o Tottenham, cheguei a conversar com o Ricardo Gomes, mas o Tottenham não aceitou a proposta. Agora, contatos de times do Brasil eu não tenho oficialmente, mas, já te falo que estou aberto a voltar, pois a minha história no Brasil foi muito curta, apesar de ter sido vencedora. Eu queria muito voltar a jogar no Brasil em alto nível. Eu tenho 32 anos apenas, ou seja, tenho mais cinco anos, no mínimo, em alto nível, e queria poder colocar isso em prática. Bate a saudade da família e do futebol brasileiro mesmo. Eu vejo os jogos do Campeonato Brasileiro e fico imaginando como seria se eu tivesse aí.

Djalma Vassão/Gazeta Press
Perto da Copa do Mundo no Brasil em 2014, Gomes também manifesta o desejo de voltar à Seleção
GE.Net: Mesmo na Inglaterra, você consegue acompanhar os jogos do futebol brasileiro?
Gomes: Eu sempre acompanho, no final de semana, principalmente, tem três ou quatro jogos para nós, e tem passado muitos jogos do Cruzeiro, ultimamente. A gente consegue acompanhar bem, seja pela TV ou pela internet, então consigo ficar por dentro de todos os clubes.

GE.Net: A volta para o futebol brasileiro seria também um caminho para voltar à Seleção Brasileira?
Gomes: Não tenho dúvidas disso, porque o Felipão já me conhece. Eu acho que a posição não é unanimidade. Pelo o que eu estou vendo, o Jefferson e o Júlio (César) já estão garantidos na Copa, mas nunca se sabe. Eu sou sabedor da minha qualidade, pude participar da Copa do Mundo de 2010, foi frustrante por não conseguir o objetivo final, mas, com certeza, se eu voltasse para o Brasil, três ou quatro meses de campeonato seria o suficiente para mostrar que eu estou bem, em condições para estar dentro da Seleção.

GE.Net: Mineiro e revelado pelo Cruzeiro, você tem o desejo de encerrar a carreira na Toca da Raposa?
Gomes: Quando eu saí do Cruzeiro, a minha vontade sempre foi de voltar, mas eu não queria voltar somente para encerrar a carreira. Eu gostaria de voltar para dar continuidade ao que comecei em 2003, mas, hoje, seria difícil essa volta, até mesmo porque o Fábio tem contrato longo, está muito bem no clube, é um cara respeitado lá dentro e tem feito grandes campeonatos. Então, apesar de eu ter sonhado com isso, seria muito difícil de acontecer.

GE.Net: O Cruzeiro é o seu clube de coração?
Gomes: Sempre foi, até porque meus familiares sempre foram cruzeirenses. Em 99, eu estava na geral do Mineirão, com a camisa da Máfia Azul (torcida organizada), sonhando em um dia estar lá dentro, podendo defender as cores do Cruzeiro. Graças a Deus isso aconteceu poucos anos depois, até mais cedo do que eu planejava.

Publicidade

Publicidade


Publicidade


Publicidade

Publicidade

Publicidade