Futebol/Entrevista - ( )

Marcelo Oliveira se junta a grupo de desacreditados e prova valor

Yan Resende, especial para a GE.Net São Paulo (SP)

Meio-campista do Atlético-MG na década de 70, Marcelo Oliveira aproveitou seu bom relacionamento com o clube mineiro e iniciou sua carreira de treinador na Cidade do Galo. A consagração de seu trabalho, no entanto, cerca de dez anos depois, veio em território que um dia chegou a ser considerado quase inimigo: o Cruzeiro Esporte Clube. Diante de um projeto renovador na Toca da Raposa, o comandante chegou sem fazer alarde, e, com um elenco que esbanjava desconfiança de torcedores e críticos, surpreendeu ao longo da temporada com um futebol ofensivo e conta as horas para poder soltar o grito de campeão.

A sintonia com o elenco não é difícil de ser explicada. Se Marcelo ainda não havia conquistado nenhum título de representatividade nacional (o próprio comandante admite que já faturou a taça) e precisava mostrar o seu valor no clube celeste, alguns jogadores iniciaram a temporada em situação parecida. Depois de nove anos na Toca da Raposa, Fábio ainda carecia de um triunfo expressivo. Borges e Dagoberto buscavam um recomeço para brilharem como nos tempos de São Paulo. Everton Ribeiro ainda tentava provar que poderia ser um jogador decisivo. Júlio Baptista retornava ao Brasil para voltar a ser “La Bestia”.

Em entrevista à GazetaEsportiva.Net, Marcelo Oliveira falou sobre o início deste projeto, ao lado do presidente Gilvan de Pinho, assim como as dificuldades para incentivar um elenco que foi colocado, como o próprio comandante, sob desconfiança desde o início de temporada. O treinador relembrou os principais momentos da caminhada rumo ao título, as sequências vitoriosas e o duro golpe diante do Flamengo na Copa do Brasil. Ex-jogador do Atlético-MG, também não deixou de falar sobre a rivalidade em Belo Horizonte e o clima entre os torcedores em um ano especial para o futebol mineiro.

Washington Alves/Vipcomm/Divulgação
Ex-jogador e ídolo do Galo, Marcelo Oliveira chega a seu primeiro título nacional como treinador pelo Cruzeiro
GazetaEsportiva.Net: Desde a Tríplice Coroa de 2003, o torcedor do Cruzeiro clamava por títulos e também pedia um treinador mais renomado no comando do clube, assim como Vanderlei Luxemburgo na ocasião, para voltar a vencer. Você chegou pressionado à Toca da Raposa ou teve tranquilidade para trabalhar?
Marcelo Oliveira: Acredito que, como em todo início de trabalho, há um período de adaptação onde o profissional deve mostrar sua capacidade e corresponder à confiança que foi depositada no momento da contratação. Logicamente, a questão da rivalidade entre o Cruzeiro e Atlético-MG é muito forte aqui no estado, mas o tempo mostrou que o que vale é o profissionalismo e o comprometimento com a instituição, que confiou um cargo tão importante como é o de treinador. A diretoria me deu todo o respaldo para que eu chegasse e pudesse trabalhar com tranquilidade. Foi impactante o acolhimento e a preocupação para que trabalhássemos em conjunto para atingir os objetivos do clube em 2013. E o vínculo com a torcida foi amadurecendo com o decorrer da temporada, algo que me deixa bastante satisfeito.

GE.Net: Ao longo da montagem do atual elenco, muitos criticaram o fato de o Cruzeiro ter um número considerável de jogadores que fracassaram em outros clubes. Foi preciso trabalhar o lado psicológico do grupo?
Marcelo Oliveira: Nosso planejamento foi montar um grupo que aliasse jogadores com potencial para evolução e outros com qualidade já comprovada, mas comprometidos em buscar novos desafios e brigar por conquistas. Creio que os que chegaram aqui demonstraram qualidade técnica em outros clubes e, por isso, acreditamos no potencial de cada um. Apresentamos o projeto elaborado pela diretoria e a filosofia de trabalho. É sempre necessário ter uma atenção especial com o lado psicológico, pois durante uma temporada acontecem diversas situações e o grupo tem de estar preparado para vivenciar qualquer acontecimento que possa trazer instabilidade. Aqui, porém, enfatizamos muito a união, para encararmos todas as etapas e esse fator considero muito importante para o sucesso. O bom ambiente criado também contribui bastante para que todos se sintam bem e confiantes.

Washington Alves/Vipcomm/Divulgação
Marcelo chegou em uma fase de renovação no clube e rebateu toda desconfiança
GE.Net: O que você coloca como o principal trunfo para a conquista do Campeonato Brasileiro?
Marcelo Oliveira: Acredito que o principal fator para o nosso sucesso, até agora, foi o elo entre o desejo da torcida e o desejo do próprio grupo, além do trabalho diário, é claro. A diretoria fez excelentes contratações e o planejamento que fizemos para montar um grupo encorpado propiciou essa união de pensamento. Temos experimentado o incentivo total dos torcedores nos jogos no Mineirão e isso contagia muito. Assim, tanto os jogadores que atuaram na maioria das partidas quanto os que entraram no decorrer do campeonato, mostram consistência e foco total em fazer boas atuações e manter o padrão de jogo, dentro e fora de casa.

GE.Net: Em qual momento da campanha, você teve a certeza de que o Cruzeiro, após dez anos, voltaria a conquistar o Campeonato Brasileiro?
Marcelo Oliveira:A certeza de que brigaríamos pelo título até o fim veio após superarmos alguns tropeços que tivemos, mostrando um espírito de superação logo na partida seguinte. Até o momento, não houve mais que duas derrotas sequenciais e isso mostra que o comprometimento com a recuperação imediata foi crucial, evitando os momentos de instabilidade que são comuns a todas as equipes em competições de pontos corridos. Nesses momentos é que a qualidade do grupo e união fazem a diferença.

GE.Net: Qual foi o momento mais complicado durante a competição nacional? A eliminação na Copa do Brasil interferiu no lado psicológico da equipe?
Marcelo Oliveira:É claro que uma derrota sempre mexe com o psicológico, ainda mais numa situação de mata-mata. Naquela ocasião, fizemos um grande jogo contra o Flamengo no Mineirão, mas em competições eliminatórias o resultado final, após 180 minutos, fala mais alto que a atuação de uma equipe. Contudo, já vínhamos fazendo um bom primeiro turno no Campeonato Brasileiro e ocupando a primeira colocação. Conversamos bastante entre o dia seguinte após o jogo e o domingo, quando enfrentamos o Vasco. E mostramos naquela partida que nossa disposição era superar o ocorrido com uma grande campanha no Brasileiro. Foi um confronto difícil, onde a vitória veio de forma suada, mas com um grande valor. Após isso, foram mais sete vitórias em sequência, nas quais mostramos nossa disposição em superar aquele tropeço.

Divulgação/Vipcomm
Alguns jogadores, como Dagoberto, também foram colocados sob questionamentos (Crédito: Denilton Dias)
GE.Net: Mesmo com a boa campanha desde o início, o grupo ouviu muitas críticas, principalmente por causa de alguns jogadores que ainda precisavam vencer algum título de expressão. Isso serviu de estímulo para o Cruzeiro?
Marcelo Oliveira:O trabalho produtivo no dia-a-dia e essa necessidade do retorno às conquistas estimularam com certeza. Acredito que é normal, no futebol, as críticas após determinados tropeços. Mas, nessa temporada, em especial, as que ocorreram foram construtivas, pois a torcida viu no grupo a capacidade de superação e a vontade de disputar esse título tão almejado.

GE.Net: O Cruzeiro teve um ‘craque’ nesta campanha do título do Campeonato Brasileiro?
Marcelo Oliveira:Acredito que a união do grupo e a qualidade técnica do conjunto são a força do Cruzeiro neste campeonato. Mas vários jogadores que acreditamos e apostamos têm gerado frutos e correspondido à altura. O Everton Ribeiro tem mostrado um grande futebol, tanto individualmente quanto coletivamente. O Goulart e o Nilton também se adaptaram de forma excelente e vêm fazendo um belo campeonato, assim como o setor defensivo. Temos jogadores de alto potencial, mas, na minha concepção, a coletividade é o grande ‘craque’ dessa campanha.

GE.Net: Qual a importância de voltar ao Mineirão para a disputa da competição nacional? A relação com a torcida também foi um diferencial?
Marcelo Oliveira:Com toda certeza. Era um desejo muito forte do torcedor, que passou os dois anos anteriores se deslocando para apoiar o Cruzeiro. Mas fazia falta mesmo essa sinergia que todos nós temos sentido quando entramos no Mineirão e vemos aquelas arquibancadas lotadas. Desde minha estreia no clube, na vitória sobre o Atlético, essa força do Mineirão tem se mostrado como um grande elemento a favor do time. No Campeonato Brasileiro, a torcida tem empurrado a equipe desde o primeiro turno e vem desempenhando um papel fundamental para chegarmos ao nosso objetivo.

Divulgação/Vipcomm
O treinador relembrou os momentos complicados da campanha (Crédito: Denílton Dias)
GE.Net: O Cruzeiro tem uma mescla de jogadores mais jovens, como o Lucas Silva e o Mayke, e outros mais experientes, como o Fábio e o Ceará. Como dosar as duas partes para chegar a um ponto ideal dentro de campo?
Marcelo Oliveira:É uma troca de experiências extremamente sadia dentro de um plantel. O Fábio está aqui há quase nove anos e, além de ser um dos melhores goleiros do país, é um líder em campo. O Ceará viveu vários momentos diferentes na carreira e, nesses últimos tempos do Cruzeiro, tem uma experiência muito grande para passar para os jogadores que estão começando agora. Os mais jovens foram observados desde o início do meu trabalho e demonstraram ter muita qualidade e disposição. Quando chegaram, esse garotos tiveram uma transição, digamos, sadia da base para o profissional, e puderam absorver toda a experiência da parte do elenco que é mais experiente.

GE.Net: O clima entre as torcidas em Belo Horizonte, principalmente após a conquista da Libertadores do Atlético-MG, também serviu como incentivo para o elenco?
Marcelo Oliveira:A diretoria do Cruzeiro fez um planejamento audacioso para as próximas temporadas já em 2012, visando à conquista de títulos. Assim, todo o grupo começou o ano ciente desse pensamento e ao longo da temporada, fomos assimilando esse ideal. Logicamente, o clima entre as torcidas aumenta de forma gradativa cada vez que um dos times tem alguma conquista, mas particularmente, mostramos desde o início que brigaríamos por coisas melhores do que nos anos anteriores. A torcida apoiou, pensando somente no Cruzeiro desde o início também. Isso ficou evidenciado, no jogo de volta da final do Campeonato Mineiro, na primeira rodada do Campeonato Brasileiro e foi aumentando cada vez mais no decorrer da competição. Esse estímulo vindo do nosso torcedor foi o que contagiou e nos incentivou.

GE.Net: Depois de ter jogado no Atlético-MG, você acredita que pode perder um pouco da identificação com a torcida alvinegra após o título conquistado com o Cruzeiro?
Marcelo Oliveira: Meu momento atual é o Cruzeiro, mas obviamente minha passagem pelo Atlético foi marcante e está na minha história. Como profissional do futebol, o meu foco hoje é o Cruzeiro, onde trabalho e estou muito feliz. Sempre respeitei e tive o respeito de ambas as torcidas e, mesmo hoje como treinador do Cruzeiro, nunca recebi sequer uma palavra agressiva ou de ofensa vinda da torcida atleticana. Alguns até me procuram para falar que torcem por mim, só não podem torcer pelo clube em que estou trabalhando (risos).

Acervo/Gazeta Press
Como jogador, Marcelo Oliveira (em destaque) vestiu a camisa 10 do Atlético-MG na década de 70

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