Atletismo/São Silvestre - ( )

Há 60 anos, Zatopek causou furor na SS e sentiu vontade de ficar

Bruno Ceccon São Paulo (SP)

Pouco mais de um ano depois de ganhar a medalha de ouro nos 5.000m, 10.000m e na maratona dos Jogos Olímpicos de Helsinque-1952, feito inédito até os dias de hoje, Emil Zatopek desembarcou em São Paulo a convite do jornal A Gazeta Esportiva para disputar a Corrida Internacional de São Silvestre. Conhecido como Locomotiva Humana, o tcheco causou furor e sentiu vontade de permanecer no Brasil de forma definitiva.

Após liberar a participação de corredores estrangeiros, a organização da chamada Corrida da Meia Noite se empenhou em trazer grandes nomes do atletismo mundial. O finlandês Viljo Heino, ex-recordista mundial dos 10.000m, venceu a edição de 1949. Quatro anos depois, após algumas tentativas infrutíferas, a São Silvestre, então dirigida por Carlos Joel Nelli, finalmente conseguiu acertar a vinda de Emil Zatopek a São Paulo.

Em sua edição do dia 18 de dezembro de 1953, A Gazeta Esportiva usou a capa para confirmar a presença do astro. “O maior atleta do mundo na maior prova pedestre do mundo. Emil Zatopek na São Silvestre”, noticiou o jornal. O tradicional periódico ainda publicou o telegrama em francês enviado pela entidade estatal responsável pelo esporte na Tchecoslováquia, então alinhada à União Soviética.

Zatopek desembarcou em São Paulo em 28 de dezembro e foi recebido de maneira efusiva no aeroporto. Apesar do cansaço pela longa viagem de Praga-Bruxelas-Rio de Janeiro-São Paulo, ele cumpriu uma série de formalidades e, por volta das 22h30, desceu de seu hotel para treinar pelas ruas da capital paulista. No dia seguinte, visitou a sede da Fundação Cásper Líbero e conheceu alguns de seus diversos departamentos, além de aproveitar para cortar o cabelo na barbearia.

Acervo/Gazeta Press
Emil Zatopek venceu a prova e fez novo recorde
Nos dias que antecederam a Corrida Internacional de São Silvestre, os técnicos e atletas observaram com grande interesse os treinamentos inovadores de Emil Zatopek, realizados no Clube de Regatas Tietê. Enquanto seus concorrentes percorriam grandes distâncias como preparação, o campeão olímpico e recordista mundial fazia uma série de tiros de aproximadamente 100m, tática que ficou conhecida como “Interval Training”.

Se o finlandês Viljo Heino pôde caminhar livremente pela capital paulista e teve a chance de conhecer até mesmo a região do Bom Retiro em 1949, Zatopek foi vigiado de perto por um membro da segurança de estado da Tchecoslováquia durante sua estadia no Brasil. Na medida em que o esporte era usado como propaganda pelo bloco socialista, perder o atleta, dono cinco medalhas olímpicas, quatro de ouro, era algo fora de cogitação.

“Essa foi a edição mais comentada da história da São Silvestre. Muita gente que não era ligada ao esporte tomou conhecimento da prova por causa da Guerra Fria. Esse contexto projetou muito aquela prova. O fato de o Zatopek ser o maior atleta do mundo e ainda vir de um país da Cortina de Ferro era importantíssimo”, lembra Henrique Nicolini, 87 anos, então repórter do jornal A Gazeta Esportiva e responsável por ciceronear o astro tcheco durante sua vitoriosa passagem por São Paulo.

“A Locomotiva Humana justificava largamente seu prestígio e sua notável popularidade. A chegada de Zatopek foi um triunfo memorável. Mais de meio quilômetro de vantagem tinha ele sobre Franjo Mihalic, o esplêndido campeão do ano passado. O tcheco foi envolvido em segundos pela massa que se postava nas imediações de A Gazeta Esportiva. O campeão da São Silvestre de 1953 era entusiasticamente aplaudido pela maior assistência jamais presente num torneio esportivo”, noticiou o periódico.

“O povo, absolutamente em ordem, mostrando entusiasmo incomum. Uma organização magnífica. Tudo isso justifica plenamente o slogan por demais merecido da São Silvestre: a maior prova pedestre do mundo. Veja, por exemplo, a quantidade de concorrentes. Jamais participei de uma prova em que fosse o número 2.140”, declarou Zatopek, impressionado também com o público, estimado em aproximadamente 800 mil pessoas.

Homem de confiança de Carlos Joel Nelli, Henrique Nicolini costumava ciceronear os principais favoritos estrangeiros. Com apenas 27 anos, o jornalista conduziu Zatopek em seu carro particular até a largada, na Praça Oswaldo Cruz, e ainda participou da cerimônia de premiação ao entregar o troféu IV Centenário ao astro. “Foi uma das grandes recordações que guardei na vida. Uma grande honra”, disse o atual blogueiro do portal Gazeta Esportiva.net.

Dias depois de estabelecer o novo recorde do percurso de 7,3km da São Silvestre, Zatopek e seus acompanhantes, ao lado de Nicolini, foram jantar em uma churrascaria. O jornalista brasileiro precisava do auxílio de um intérprete para conversar com o fundista, o que limitava a comunicação. Para manifestar sua estupefação diante do desfile incessante de picanhas, maminhas, alcatras e afins, no entanto, o astro tcheco não precisou usar palavras.

Acervo/Gazeta Press
Jornalista Henrique Nicolini participou da cerimônia de premiação ao tcheco Emil Zatopek na São Silvestre de 1953
“A alegria e o prazer de estar comendo um típico churrasco brasileiro eram visíveis na face do Zatopek. Com aquela fartura no restaurante, ele começou a perceber como o Ocidente, especialmente o Brasil, eram diferentes. Ficou impressionado de ver a grande oferta de carne que poderia comer em um rodízio. Naturalmente, voltou para a Tchecoslováquia com uma imagem extremamente favorável do Brasil”, recordou Henrique Nicolini.

De acordo com o antigo repórter de A Gazeta Esportiva, na época os grandes astros que disputavam a Corrida Internacional de São Silvestre “vinham pela glória e pelo prestígio do jornal”, sem qualquer tipo de cachê. Emil Zatopek retornou a São Paulo como convidado da organização nos anos 1970. Segundo Henrique Nicolini, no entanto, se pudesse, o astro teria permanecido no País desde 1953.

“O Zatopek nunca se abriria comigo sobre isso, porque poderia sofrer consequências na Tchecoslováquia. Mas era perceptível que ele não era um esquerdista fanático. Se deixassem, com certeza teria ficado por aqui após a São Silvestre”, apostou o jornalista. Pouco depois de vencer a prova, na redação de A Gazeta Esportiva, o campeão olímpico e recordista mundial escolheu palavras carinhosas ao falar de suas impressões sobre o País.

ROJÃO NO INÍCIO ASSUSTOU ASTRO 

Impressionado com os mais de 2 mil competidores da edição de 1953 da São Silvestre, Emil Zatopek tomou um susto na largada, o que o fez ficar afastado da liderança durante alguns minutos.

“Ainda estávamos fazendo o aquecimento, aguardando o tiro de partida, quando alguém soltou um rojão. Foi como um estouro de boiada. Os 2.140 atletas partiram num atropelo incrível”, recordou.

Rapidamente, no entanto, ele tomou a liderança. “Fiquei em estado de choque, estático. Então, parti, pensando apenas em permanecer a salvo. Ou seja, no primeiro lugar. Foi uma prova inesquecível”, lembrou, anos depois.

“Ofereço minha vitória ao hospitaleiro povo brasileiro. Creio que será a forma mais modesta de poder retribuir as atenções e a amizade com que tenho sido distinguido desde que pisei o solo de vossa maravilhosa pátria. Jamais imaginei, sinceramente, que viesse encontrar em São Paulo e no Brasil minha maior emoção esportiva. Que maravilha”, disse o fundista, que já se prontificou a disputar a edição de 1954 da corrida.

Anos depois de causar furor no Brasil, Emil Zatopek foi severamente punido por suas convicções políticas. Assim como vários atletas do bloco socialista, o fundista era integrante das Forças Armadas e, após várias conquistas esportivas, alcançou o grau de coronel. Por apoiar Alexander Dubcek durante a Primavera de Praga, movimento de contestação ao regime ocorrido em 1968, acabou expulso do exército e do Partido Comunista.

Em uma fase obscura de sua trajetória, o maior fundista da história, dono de quatro títulos olímpicos, se viu obrigado a exercer trabalhos braçais para subsistir e chegou a trabalhar como lixeiro. Com o colapso do bloco socialista no final dos anos 1980, Emil Zatopek, sempre apoiado pelo povo, recuperou parte de seu status e pelo menos pôde usar hospitais militares no final da vida – ele morreu aos 78 anos, em 2000.

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