Especial/Copa Sul-americana - ( - Atualizado )

De agressão à idolatria, Hortência garante torcida para Ponte Preta

Bruno Grossi, especial para a GE.net São Paulo (SP)

A história entre Ponte Preta e Hortência não começou na última quarta-feira, quando a Rainha do Basquete serviu de inspiração para o golaço de falta de Fellipe Bastos no Pacaembu. Pouco mais de 20 anos antes do empate em 1 a 1 pela primeira final da Copa Sul-americana, Hortência e a Macaca começaram a construir relação de amor e ódio. De rivalidade e devoção com a conquista do bicampeonato mundial de basquete.

No dia 3 de fevereiro de 1993, Ponte Preta/Nossa Caixa e Leite Moça/Sorocaba se enfrentavam no ginásio do Taquaral, em Campinas, pela fase semifinal do Campeonato Paulista de basquete feminino. A torcida campineira atirou objetos na quadra durante toda a partida, que foi interrompida com a invasão dos vândalos.

Torcedores uniformizados hostilizaram Hortência e, segundo registro de A Gazeta Esportiva no dia 4 daquele mês, um dos invasores teria até mesmo passado as mãos nas nádegas da atleta. A pivô Marta tentou defender sua companheira de time sorocabano e acabou levando um soco no olho direito. O caos foi instaurado dentro de quadra.

Então presidente da Ponte Preta, Marco Antônio Abi Chedid tentou acalmar Hortência e recebeu de volta um chute no estômago. “Culpo os juízes, que viram a torcida jogar objetos na quadra e não tomaram qualquer providência. Responsabilizo também a Ponte Preta por não ter oferecido garantias aos visitantes”, disparou a já medalhista de bronze, prata e ouro em Jogos Pan-americanos.

Acervo/Gazeta Press
Com a camisa da Macaca, Hortência e Paula estiveram juntas pela primeira vez em um clube
Hortência e o Leite Moça ficariam com o título estadual, tratado como resposta aos ponte-pretanos. Mas a relação de ódio que parecia se estabelecer entre a estrela do basquete brasileiro e a Macaca durou apenas dois meses. Neste período, as trocas de acusações entre Hortência e Marquinhos Chedid se transformaram em negociação. Em negócio fechado.

 Macaca e Hortência bicampeãs mundiais

 A parceria entre Hortência e Ponte Preta rendeu dois títulos mundias de basquete para o clube de 113 anos de história. Na primeira conquista, o time de Campinas desbancou na tabela o Primizie Parma-ITA, o Bez Argentaria-ESP, o China Team-CHN, o Unimed Brasil e o Sydney Flames-AUS ao vencer os seis compromissos.

O jogo decisivo, contra o Primizie, foi realizado no dia 26 de setembro de 1993 e contou com a presença de 9 mil torcedores no ginásio Paschoal Thomeo, em Guarulhos. Hortência, Magic Paula e Marta deram show e o título veio após vitória arrasadora por 102 a 86.

Karina, outro destaque da Macaca, terminaria o mundial como terceira maior pontuadora (141) e quinta maior apanhadora de rebotes (44). Paula foi a líder em assistências com 21 passes, dez a mais do que Hortência, a terceira melhor no quesito.

A parceria das estrelas, que rendeu resultados históricos na Seleção Brasileira, estremeceu em 1994. Em jogo contra o Unimed, Hortência entrou de forma dura em Branca, armadora e irmã de Paula.

As duas já haviam se estranhado, segundo A Gazeta Esportiva de 19 de fevereiro de 94, quando Hortência defendia o Minercal Sorocaba e Branca o Perdigão Divino, de Jundiaí. Chateada com a confusão, Paula teria deixado de falar com Hortência até receber pedido de desculpas, mas acertou sua transferência para o Cesp Unimep.

As estrelas voltaram a conviver pacificamente e reataram a amizade em viagens com a Seleção Brasileira, mas se viram frente a frente na final do Campeonato Mundial de 94. Hortência mais uma vez levou a melhor e chegou ao terceiro título do torneio, o segundo pela Ponte Preta.

A contratação foi anunciada apenas no dia 25 de maio, quase um mês de espera desde que os boatos davam o acerto como definido. Na Ponte, Hortência reeditaria pela primeira vez em um clube a parceria vitoriosa com Magic Paula com a camisa da Seleção Brasileira. Até que no dia 29 de maio a Rainha vestiu as cores pronte-pretanas.

“Estou ansiosa. Sempre esperei por este momento”, registrou A Gazeta Esportiva. A estreia foi diante do Lacta Santo André, pelo Troféu Imprensa, novamente no ginásio do Taquaral, desta vez em festa. As campineiras levaram a melhor por 113 a 87, com 31 pontos anotados por Paula e 20 por Hortência. O clima entre os torcedores era de êxtase, de certeza de título com o time treinado por Maria Helena Cardoso.

O auge viria no dia 26 de setembro de 1993. Diante do Primizie Parma, da Itália, a Ponte contava com a experiência da Rainha para conquistar o Campeonato Mundial de Clubes. Hortência já havia faturado o torneio dois anos antes defendendo o Constecca Sedox Soracaba em final contra o BCN no Parque São Jorge.

Diferentemente da conquista sorocabana, com placar apertado, Hortência liderou a Macaca em vitória tranquila sobre as italianas em 93. O ginásio Paschoal Thomeo, em Guaraulhos, viu o time brasileiro atropelar por 102 a 86, com direito a 16 pontos da majestade do basquete feminino. Um ano depois, o bicampeonato viria em cima Cesp/Unimep/Piracicaba. Novamente em Guarulhos, mas com Paula de adversária após briga entre as estrelas.

Vinte anos depois, Hortência já está longe das quadras desde 1996, mas não esquece o carinho pela Ponte Preta. A raiva pelos alvinegros, sim, caiu no esquecimento. Hoje a Rainha alterna duas paixões em preto e branco: o Corinthians e a Macaca. Como o Timão está bem distante da Argentina, o caminho está livre para a torcida pelos campineiros.

“Vou torcer muito, como torço faz tempo. Só não torço para a Ponte quando joga contra o Corinthians. Ainda tem meus filhos, um santista e outro palmeirense, mas todos vão torcer pela Ponte”, garantiu Hortência em entrevista à GazetaEsportiva.net às vésperas da decisão com o Lanús, marcada para às 21h50 (de Brasília) desta quarta-feira.

O desempenho histórico com a camisa ponte-pretana, porém, foi combustível para piadas de rivais. Sem títulos de expressão nos gramados, torcedores do Guarani e outros adversários frequentemente usam a máxima de que “a maior conquista da Ponte no futebol é o bi-mundial de basquete”. Agora, Hortência espera que Jorginho e seus comandados coloquem um ponto final nos tempos de gozação.

“Se ganharmos vamos acabar com a piada igual quando o Corinthians foi campeão do mundo e da Libertadores no ano passado”, destacou a Rainha, relembrando as conquistas do principal time do coração em 2012: “Nós torcedores da Ponte não podemos nos preocupar com isso. Será um jogo importante, tenso, de muita responsabilidade”.

Acervo/Gazeta Press
Edição de A Gazeta Esportiva de 27 de setembro de 1993 registra o feito histórico da Ponte Preta

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