Futebol/Entrevista - ( )

Para Prass, torcedores que brigam são os únicos imunes à punição

William Correia São Paulo (SP)

Fernando Prass terminou o ano sorrindo no Palmeiras, mas sua primeira temporada no clube teve um grande susto. Em 7 de março, membros da Mancha Alviverde, irritados com Valdivia, atiraram xícaras contra o elenco em aeroporto de Buenos Aires e os estilhaços de uma delas geraram um corte e, principalmente, uma cicatriz inesquecível para o goleiro.

O jogador de 35 anos, um dos líderes do movimento da classe intitulado Bom Senso FC, usa não só o caso em que foi vítima, mas todas as ações violentas das torcidas para pedir consciência. Em entrevista exclusiva para a Gazeta Esportiva.net, um dos atletas que mais sofreu com inconsequências nas arquibancadas em 2013 pede punições eficientes.

Torcedores que participaram da confusão na Argentina também foram protagonistas de muitos dos atos que fizeram o Verdão ser mandante em Itu (SP), Presidente Prudente (SP) e Londrina (SP) nesta Série B do Brasileiro. A sensação de Prass é de que o modelo atual de punições só não penaliza quem realmente briga nos estádios.

Gazeta Esportiva.net: Por punições do STJD as brigas envolvendo torcedores do Palmeiras, o time teve que viajar mesmo como mandante. A torcida poderia ter ajudado mais?
Fernando Prass: As torcidas brasileiras vão ter que se conscientizar e tomar um jeito. Estamos vendo a quantidade de punições nas Séries A e B, com equipes prejudicadas perdendo mando de campo ou sendo multadas. O pessoal está em cima disso e tem que estar mesmo, é inadmissível ir ao futebol para brigar. Precisamos tomar muito cuidado. A torcida que se conscientizar disso primeiro e eliminar as pessoas que querem só fazer baderna vai beneficiar até o seu time dentro de campo. O Palmeiras teve que jogar em Londrina! É muito complicado, há um prejuízo muito grande também financeiro.

GE.net: Você já falou que precisam encontrar uma nova punição, porque já tiraram mandos de campo e as torcidas continuam brigando...
Prass: Isso tem que ser discutido no futebol e ninguém fala. Vamos usar o exemplo do Palmeiras. No ano passado, teve briga da torcida no Pacaembu, o clube perdeu o mando de campo, jogou em Araraquara e o que aconteceu? A torcida brigou em Araraquara. Perdeu o mando de campo de novo e foi jogar em Itu. Aí em Guaratinguetá, em um jogo no qual o mando não era do Palmeiras, briga e mais mando de campo perdido. Só esse curto espaço de tempo mostra que é uma punição que não adianta. Punem o clube, o torcedor da cidade que não brigou e leva o jogo para longe, só que quem brigou vai para o jogo e entra normalmente, não sofre punição nenhuma. Aí o clube é multado, mas foi a torcida que brigou, por que a multa ao clube?! São instrumentos que já se mostraram ineficazes, estamos perdendo tempo. Ocorrem punições que estão gerando desgaste e prejuízo tanto aos clubes quanto às torcidas e não representam benefício nenhum.

GE.net: Você tem alguma sugestão de punição?
Prass: O pessoal do Bom Senso FC quer conversar sobre a violência nos estádios. Isso tem que ser discutido.

Djalma Vassão/Gazeta Press
Goleiro enfrentou São Paulo três dias após xícara atirada por torcedor cortar sua cabeça
GE.net: Falando sobre violência, você de vez em quando ainda se pega lembrando daquela xícara que cortou a sua cabeça na Argentina, em março?
Prass: Ah, sim, às vezes passa pela cabeça. Quando estou brincando com meus filhos, eles veem a cicatriz, e o pente pega nela quando penteio o cabelo. São algumas marcas que ficam, como tenho marcas de jogo no joelho, no queixo. São cicatrizes. Umas de lembranças melhores e outras piores, mas está tudo no mesmo bolo, faz parte da minha vida. As marcas vão ficar no meu corpo e vou sempre lembrar das coisas boas e ruins para o resto da minha vida.

GE.net: Mas ficou algum trauma? Hoje você prefere se afastar mais quando vê um grupo de torcedores protestando?
Prass: De maneira nenhuma. Não tenho trauma nenhum em relação àquilo. Foi um episódio triste que não vou esquecer, claro, não tem como apagar da memória, mas sem nenhum trauma psicológico.

GE.net: A Mancha Alviverde, cujos membros atiraram a xícara que te atingiu, te exaltou depois do episódio e até te pediu desculpas...
Prass: Nessa situação, eles foram sensatos. Botaram a cabeça no travesseiro, viram que a atitude não foi legal.

GE.net: De alguma forma, aquela situação te ajudou a se tornar mais querido pela torcida? Você jogou um clássico contra o São Paulo três dias depois daquela confusão, com esparadrapos protegendo os pontos na sua cabeça.
Prass: Aquilo não engrandece nada nem a mim nem a eles. Foi um episódio para se lamentar.

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