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Com bom futebol, time de Vampeta quer vencer resistência da torcida

Bruno Ceccon São Paulo (SP)

O primeiro gol da história do Grêmio Osasco Audax foi comemorado por aproximadamente 200 pessoas nas arquibancadas do Estádio do Pacaembu. O público pequeno no empate por 1 a 1 diante do Santos é resultado da resistência dos torcedores em aceitar o acordo que juntou o Audax e o Grêmio Osasco repentinamente, situação que o clube presidido pelo ex-volante Vampeta espera mudar na base do bom futebol.

A compra do Audax pelo Grêmio Osasco foi anunciada em setembro do ano passado, mas a situação ainda provoca confusão. O placar eletrônico do Pacaembu, por exemplo, exibiu o símbolo equivocado antes do início da partida. O escudo antigo, por sinal, foi impresso no material entregue à imprensa pela assessoria de comunicação e ainda figura nos uniformes vestidos pela comissão técnica - o duelo com o Santos marcou a estreia dos novos trajes pelos jogadores.

Fundado em 2007, o Grêmio Osasco conquistou fãs na cidade e tem até algumas organizadas. Pelo que se viu no Pacaembu, porém, os torcedores preferem manter a fidelidade ao clube, inscrito na Série A-2 do Campeonato Paulista, do que apoiar o time criado para disputar a elite do torneio estadual após a compra do Audax. Do grupo de 200 pessoas que acompanhou o jogo contra o Santos na noite de terça-feira, havia apenas cinco espectadores uniformizados, todos com a camisa do antigo Audax, criado em 2004.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Com o símbolo do antigo Audax no peito, o mascote encontrou o setor reservado aos fãs do novo time vazio
“O pessoal de Osasco não vai abraçar o Grêmio Osasco Audax, tanto que não tem ninguém aqui. Além disso, a cidade ainda possui o Osasco Futebol Clube, que disputa a Quarta Divisão”, disse o guarda municipal Marcelo Paixão, 39 anos, com uma camisa autografada pelos jogadores, e também insatisfeito. “Continuo torcendo, mas não gostei dessa junção. Acho que acaba perdendo a identidade. O Audax roeu o osso até subir para a Primeira Divisão e agora, na hora do filé mignon, eles vêm e já pegam tudo pronto?”, questionou.

Marcelo divide sua paixão antre Audax e Corinthians, diferentemente do estudante Lucas Leite, 18 anos, mais um dos poucos espectadores trajados com a camisa do Audax na partida diante do Santos. Com o público formado majoritariamente por familiares e amigos dos jogadores, inexistem os cânticos e coreografias comuns nas torcidas dos grandes clubes. Sonhadores, os dois amigos dividem o desejo de criar uma organizada para apoiar o novo time.

“Já temos até o nome: 'Audaciosos'. Mas é difícil. De qualquer forma, fazemos a nossa parte e vamos a todos os jogos. Quando você torce por um time grande, se torna um número, um mero espectador. No time pequeno, ainda mais um quase sem torcida, você vira um agente ativo e participativo”, comparou Lucas, outro insatisfeito com a parceria. “O Grêmio Osasco era o maior rival. Nos enfrentamos em todas as divisões de acesso. Achamos (a junção) bem desagradável, mas estamos nos acostumando”, disse.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
O estudante Lucas Leite (à direita), fiel ao antigo clube, não pretende usar a camisa do Grêmio Osasco Audax
A despeito do pequeno número de torcedores, o Grêmio Osasco Audax mostrou um bom futebol e criou chances suficientes para vencer o Santos, que também não levou muitos fãs ao Pacaembu. Comandado pelo ex-meia Fernando Diniz, com passagens por clubes como Palmeiras, Corinthians e Fluminense como jogador, o time impressionou pela intensa troca de passes. Mesmo acuado, os defensores evitam o famoso chutão, o que proporciona momentos de grandes emoções na saída de bola.

O atacante Caion colocou o Grêmio Osasco Audax em vantagem ainda no primeiro tempo. Animado pelo gol, o primeiro de sua história, o time dominou as ações e teve boas chances para marcar, algumas criadas pelo habilidoso Rafinha. Depois de desperdiçar várias oportunidades, a equipe sofreu o empate de Jubal aos 42 minutos da etapa complementar e deixou o gramado com a sensação de que poderia ter vencido. Ainda assim, os torcedores aplaudiram os atletas, em alguns casos por questões familiares.

“Quando passei a atuar como técnico, pensei em formar times que gostassem de jogar futebol. No fundo, quero que os atletas sintam prazer em atuar. Eles sonharam jogar futebol por algum motivo, e certamente não foi para ficar só dando chutão. A ideia central é que o time jogue um futebol bem jogado, com todos se ajudando na marcação. Os atletas acabam embarcando, porque na realidade todos gostam de jogar. Não acredito que beleza e competividade andem separadas”, discursou Fernando Diniz.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
O técnico Fernando Diniz e o volante Francis usaram uniformes com símbolos diferentes no empate diante do Santos
Um dos rostos conhecidos do elenco do Grêmio Osasco Audax é o volante Francis, como passagem pelo Palmeiras. Se no começo da carreira ele costumava contar com o incentivo da numerosa torcida alviverde, o atleta, hoje com 31 anos, aprendeu a atuar com as arquibancadas praticamente vazias. O experiente meio-campista minimizou a situação, mas manifestou o desejo de jogar com mais apoio do público em breve.

“A gente procura focar dentro de campo. Já estava no Audax há dois anos. Como disputamos a Segunda Divisão do Paulista, foram praticamente dois anos sem torcida. Então, não ligamos muito para esse aspecto, mas é claro que todo atleta quer contar com a força do público e espero que isso aconteça quando comecemos a atuar em Osasco”, declarou o ex-jogador do Palmeiras, manifestando um desejo comum no elenco.

"AMOR PELO FUTEBOL" 

O bancário Luiz Gustavo Folego desembolsou R$ 60,00 para acompanhar o encontro entre Grêmio Osasco Audax e Santos. De acordo com o torcedor, o duelo disputado no Pacaembu foi o 19º jogo que assistiu em um estádio no ano de 2014.

“Depois que o Audax subiu para a Primeira Divisão e fez essa parceria com o Grêmio Osasco, fiquei curioso para ver o primeiro jogo da equipe como mandante”, explicou Luiz Gustavo, corintiano que tem o hobby de acompanhar jogos inusitados.

Na Copa São Paulo, o bancário teve fôlego para ver partidas de times como Ji-Paraná-RO, Rio Branco-AC, Auto Esporte-PB e Imagine-TO. “A gente até exagera na quantidade de jogos, mas a paixão pelo futebol é muito grande”, declarou.

“A gente está tentando mostrar um bom futebol para ver se conseguimos conquistar os torcedores. As duas torcidas não gostaram muito da (junção), mas fazer o quê? São coisas do futebol. Somos profissionais e temos que entrar em campo”, disse Rafinha, acompanhado por Caion. “Eles vão acabar comparecendo para nos incentivar. A torcida é importante e ajuda bastante. Por outro lado, sabemos que nossa torcida é pequena e, dentro de campo, somos nós que decidimos”.

O novo clube é presidido pelo ex-volante Vampeta, com passagens por clubes de grande torcida ao longo da carreira como jogador, entre eles Flamengo e Corinthians, os dois mais populares do Brasil. Na tentativa de vencer a resistência dos torcedores, ele apela à população de Osasco, município com aproximadamente 700 mil habitantes – o time pretende mandar seus jogos no Estádio José Liberatti, com capacidade para cerca de 15 mil pessoas.

“Somos um clube novo e estamos tentando fazer por merecer. O Audax sempre mandava seus jogos no estádio do Nacional. Agora, o time vai ter uma casa, o município de Osasco. Os clubes grandes de São Paulo possuem milhões de torcedores. Esperamos que o morador de Osasco nos apoie, mesmo torcendo por Palmeiras, Corinthians e São Paulo. O importante é que o município de Osasco agora tem um clube na Primeira Divisão do Campeonato Paulista”, advogou Vampeta.

 

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