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Lúcio não quer camisa 3 e faixa, mas assume liderança deixada por Henrique

William Correia São Paulo (SP)

Para evitar qualquer atrito com Henrique, Lúcio chegou ao Palmeiras abrindo mão da camisa 3, de ser capitão e até prometendo subir menos do que costuma ao ataque para deixar o colega de zaga mais à vontade para atacar. Henrique foi para o Napoli, deixando tudo que o veterano abdicou livre, mas o pentacampeão só quer o que sempre fez parte de seu perfil: a liderança.

Lúcio deu um intervalo de dez minutos entre seu intenso treinamento e atividades de recuperação física para dar entrevista exclusiva à Gazeta Esportiva no primeiro dia na Academia de Futebol sem Henrique. E o capitão da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2010 se mostrou feliz por fazer parte de um grupo humilde.

O zagueiro pensa tanto no Verdão que pouco quis falar sobre São Paulo, seu ex-clube e adversário de domingo. Mostrou humildade própria ao mostrar foco em seu primeiro jogo no Pacaembu pelo clube, nesta noite, contra o Penapolense. Vestindo a camisa 33, número famoso por ser conhecido como “a idade de Jesus Cristo”, com a qual o evangélico começou sua trajetória no Palmeiras e promete continuar.

Fernando Dantas/Gazeta Press
Aos 35 anos, Lúcio foi líder por onde passa e admite que aumenta a sua responsabilidade sem Henrique
Gazeta Esportiva: Com a saída do Henrique, o capitão do Palmeiras agora deve ser o Fernando Prass, mas você se imagina com a faixa em breve?
Lúcio: Não. Não é um objetivo meu, não é uma coisa que me preocupa ou que me toma o tempo. Isso não é o mais importante dentro de uma equipe. O importante é fazer bem o meu papel e, para isso, não importa se você está com a faixa ou é o mais visado, mas estar unido com seus companheiros e ter a humildade de ajudar.

Gazeta Esportiva: Pensa em pedir agora a camisa 3, uma marca sua?
Lúcio: A princípio, estou muito feliz com esse número. Comecei com ele e, para mim, isso não faz muita diferença.

Gazeta Esportiva: Você sempre foi apontado como líder por onde passou. Acha que sua ascendência precisa aumentar sem o Henrique?
Lúcio: O Henrique, sem dúvida, teve um papel importante. Surgiu uma coisa boa para ele e para o clube, então ficamos felizes por ele também. Claro que eu e meus companheiros vamos dar o nosso melhor para sempre representar bem e à altura essa falta do Henrique.

Gazeta Esportiva: Nos treinos e jogos, você tem falado muito, orientando o posicionamento dos colegas... Já se sente à vontade como líder do elenco?
Lúcio: No futebol, essa é uma característica que nós, jogadores, temos que aperfeiçoar. Eu não falava tanto no início da carreira e era cobrado por alguns treinadores. Jogando na defesa, claro que é sempre bom passar uma palavra de incentivo, orientar o companheiro, conversar, acertar e organizar as posições no jogo, quando tudo é muito rápido. É um hábito bom que precisa ser adquirido não só por um jogador, mas por vários dentro da equipe.

Djalma Vassão/Gazeta Press
Prass já usou braçadeira em 2013
NOVO CAPITÃO APROVA ORIENTAÇÕES DO VETERANO PENTACAMPEÃO

Mais provável sucessor de Henrique na função de capitão, Fernando Prass sempre vibrou com a contratação de Lúcio antes mesmo do anúncio oficial. Dois meses mais velho do que o zagueiro, o segundo jogador mais veterano do elenco já enxerga traços de liderança no titular da Seleção Brasileira nas três últimas Copas.

“O Lúcio trouxe uma experiência inegável, tem uma história no futebol muito grande, muita vivência dentro e fora de campo. A liderança é natural”, comentou o goleiro, prevendo avanço do camisa 33 até nesse ponto.

“Claro que ele vai se soltando um pouco mais, conhecendo os companheiros, a forma que cada um reage a uma cobrança ou a um incentivo. A convivência vai dar a ele essa liberdade maior para ter percepções”, projetou.

Antes da apresentação de Lúcio, Prass já tinha brincado dizendo que o zagueiro “é um menino”, minimizando sua idade. Em campo, constatou que estava certo.

“É um jogador com muito boa condição física, muito bom no jogo aéreo, tem uma leitura de jogo muito boa. É difícil ficar seis meses sem jogar, e estava praticamente sem treinar com bola, um agravante a mais. Para começo de readaptação, está muito bem. A tendência é de que evolua”, elogiou.

O goleiro defende tanto o colega que não viu falha dele no gol do Atlético Sorocaba, no domingo, quando o camisa 33 deu condições e nem tentou alcançar Ewerthon. “Não era uma linha de impedimento. Com o estádio cheio, eu e o Lúcio gritamos, mas é difícil a comunicação. E tem um pouco de mérito deles”, enalteceu.

Gazeta Esportiva: Como você está sentindo a resposta dos jogadores às suas orientações?
Lúcio: Temos um relacionamento muito bom, passamos muito tempo juntos na pré-temporada em Itu e nos conhecemos melhor. No dia a dia, também. A minha intenção é bem clara e eles entendem que, quando falo, é para ajudar. Muitas vezes alguns também falam comigo e compreendo da mesma forma, que é sempre em prol do bem da equipe.

Gazeta Esportiva: Na Copa América de 2011, você mandou um recado aos colegas em entrevista coletiva dizendo que “se nome fosse importante, não ficaria nas costas da camisa”. Já fez ou pretende fazer discurso semelhante no Palmeiras?
Lúcio: Naquela situação, todos na Seleção estávamos um pouco individualistas. No Palmeiras, neste momento, todos estão bem cientes, com os pés no chão, sabemos que é só um início de trabalho. Mas aquele discurso é válido em qualquer clube. Na Europa, isso era pregado, principalmente pelos diretores do Bayern de Munique. Sempre falavam que o clube era muito mais importante do que o nome, que o que representamos como conjunto, como coletivo e como time é mais importante do que cada um buscar sua individualidade.

Gazeta Esportiva: Eles que te ensinaram aquela frase?
Lúcio: Não. Na entrevista coletiva, veio à minha cabeça a ideia de que naquele momento tínhamos que deixar de lado o individualismo e se juntar mais como equipe, pensando mais no símbolo da frente do que no nome nas costas. É uma frase que tem o objetivo de unir e manter a equipe mais forte.

Gazeta Esportiva: Você disse que o elenco do Palmeiras não precisa desse discurso. Qual é o perfil desse grupo?
Lúcio: É um elenco bem focado e humilde, o que acredito que é muito importante para não haver soberba nem nos acharmos melhores do que ninguém. Isso nos dá a responsabilidade também de trabalhar muito e correr de igual para igual com as outras equipes.

Gazeta Esportiva: Antes de o Henrique sair, você disse que evitaria suas características arrancadas ao ataque para ele ter mais chances de subir, apesar de o Gilson Kleina ter montado até um esquema para um dos volantes recuar caso você suba. Isso mudou agora?
Lúcio: A princípio, meu objetivo continua o mesmo: defender. Existem oportunidades, mas tudo tem a hora certa. A cada dia que passa, aprendo mais, e esse aprendizado me mostrou que tem o momento certo. Tem jogo que não terei essa oportunidade e precisarei me conter mais para fazer aquilo que estou dentro do campo para fazer: defender bem. Mas, quando puder, darei as minhas arrancadas para ajudar o time.

Gazeta Esportiva: Você já falou que muitos técnicos ao longo de sua carreira te impediram de dar arrancadas, mas você sempre pareceu convicto na ideia de atacar.
Lúcio: Foram essas arrancadas que me levaram para a Alemanha, para o Bayern, para a Inter de Milão, que me mantiveram por muito tempo na Seleção Brasileira. Agora, mais do que nunca, tenho que saber a hora certa de subir para não gastar energia à toa, não me cansar tanto e ter mais força para defender.

Gazeta Esportiva: Você foi titular da Seleção nas três últimas Copas do Mundo, campeão em 2002 e conquistou tudo que disputou na Europa. Os jogadores te receberam como fãs no Palmeiras?
Lúcio: Não dessa forma (risos). Graças a Deus, tive benção na minha carreira e todos me admiram. E também os admiro porque são grandes jogadores e estão em uma grande equipe. Esse respeito mútuo é importante, fico feliz. Fui muito bem recebido e agradeço muito a eles pelo apoio dentro do campo também. Estou na torcida e no apoio para que consigamos nosso objetivo em comum: trazer vitórias para o Palmeiras.

Gazeta Esportiva: O Henrique te pediu dicas sobre o futebol italiano?
Lúcio: Conversamos algumas coisas, mas conheço muito pouco da cidade de Nápoles e do Napoli. Falei para ele do futebol italiano, que é muito bom, forte, truncado, com equipes que trabalharam muito bem defensivamente.

Gazeta Esportiva: Já pensa no reencontro com o São Paulo?
Lúcio: Neste momento, só pensamos no jogo contra o Penapolense, que será difícil porque é um adversário forte também. Não estamos com o pensamento no clássico. Sem dúvida, sabemos que é um jogo importante, um duelo de duas grandes equipes, mas temos outra grande equipe pela frente, o Penapolense.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Lúcio já se sente à vontade no Palmeiras e gostou da concentração em Itu para conhecer melhor seus novos colegas

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