Futebol - ( - Atualizado )

Por privacidade, boleiros e tenistas dividem o mesmo hábito

Bruno Ceccon e William Correia São Paulo (SP)

Observados por inúmeras câmeras de televisão enquanto trabalham, jogadores de futebol e tenistas usam a mesma estratégia na tentativa de garantir privacidade e impedir possíveis leituras labiais. A exemplo dos duplistas, os boleiros passaram a tapar a boca com as mãos para falar durante os últimos anos.

No momento em que estão com o saque, os tenistas combinam o que fazer antes de cada ponto e procuram esconder as palavras com as mãos. A ideia é impedir que os adversários aproveitem o silêncio obrigatório do público para antecipar a estratégia.

“A gente sempre tapa a boca com as mãos na hora de acertar uma jogada, quando explicamos ao parceiro o que pretendemos fazer. Você não pode dar bobeira e facilitar a vida do adversário. Como a torcida fica em silêncio, qualquer ruído é audível”, explicou Bruno Soares.

Campeão da chave de duplas mistas do Aberto dos Estados Unidos-2012, o brasileiro, atual terceiro colocado do ranking mundial de sua modalidade, formou uma parceria fixa com o compatriota Marcelo Melo, sexto da lista da ATP, durante duas temporadas.

Pela Copa Davis, tradicional torneio entre nações, os tenistas mineiros já defenderam o Brasil em confrontos diante de adversários como Alemanha, Estados Unidos, Rússia e Índia. Mesmo contra rivais estrangeiros sem familiaridade alguma com o português, Marcelo e Bruno mantiveram o costume de esconder as palavras.

Divulgação
Brasileiro Bruno Soares (e) e Alexander Peya combinam estratégia antes de sacar. Crédito: Wagner Carmo/Inovafoto
“Nesses casos, a mania acaba falando mais alto, porque você poderia tirar a mão completamente, já que os adversários não conhecem o nosso idioma. Como fazemos isso desde sempre antes de cada ponto, acaba virando uma coisa automática e a gente nem percebe”, explicou Soares, atual parceiro do austríaco Alexander Peya.

Especialista no circuito de duplas, o brasileiro joga profissionalmente desde 2001 e nunca teve qualquer tipo de problema com o assunto. No futebol, ainda mais vigiado pelos olhos da televisão, no entanto, a leitura labial já suscitou uma série de polêmicas.

Na última edição do Campeonato Brasileiro, por exemplo, Júlio Baptista, do já campeão Cruzeiro, foi flagrado em um diálogo comprometedor com o zagueiro Cris, do Vasco, time que acabou rebaixado. “Faz logo outro”, pediu o meia, sem tapar a boca e com olhar cúmplice.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
O experiente volante Marcos Assunção costuma cobrir a boca para falar até mesmo nos treinamentos coletivos
Durante a Copa do Mundo-2006, o programa Fantástico, da Rede Globo, convidou três adolescentes surdos desde o nascimento para decifrar os diálogos dos integrantes da Seleção Brasileira. Em matérias com grande repercussão, nomes como Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo e Carlos Alberto Parreira, então técnico, tiveram suas palavras divulgadas.

A possibilidade de ver os diálogos em campo publicados fez com que jogadores, técnicos, árbitros e assistentes passassem a tapar a boca no momento de conversar. Por força do hábito, o experiente Marcos Assunção costuma usar o expediente até mesmo nos treinamentos coletivos.

“Atualmente, tem muita câmera. Não é mais como antigamente. Para qualquer coisinha que você fala, as câmeras e microfones estão lá”, disse o volante, lembrando de outro equipamento utilizado pelas televisões na tentativa de captar os diálogos dentro de campo.

Marcelo Ferrelli/Gazeta Press
Leonardo Gaciba (d) ajudou a popularizar o gesto
“Essa mão na boca serve também para evitar problemas como o que aconteceu com o Júlio Baptista”, acrescentou Assunção. De acordo com o volante, jogador do Santos na última temporada, nem sempre o expediente serve para esconder informações realmente importantes.

“Muitas vezes, conversamos com um jogador adversário que já foi nosso companheiro em outros clubes. São coisas que a imprensa adoraria saber, mas para nós é uma diversão dentro de um jogo tão sério. Em algumas ocasiões, tem um atleta caído e a gente fica falando um monte de besteira com a mão na boca”, explicou.

Unidos pelo mesmo hábito, alguns boleiros e tenistas nutrem admiração mútua pelos respectivos esportes. O argentino Juan Martín del Potro, quinto da lista da ATP, por exemplo, torce pelo Boca Juniors e já foi homenageado pelo clube na Bombonera. Já o ex-atacante Ronaldo, praticante de tênis, tietou Rafael Nadal, número 1 do mundo, durante a passagem do espanhol por São Paulo em 2013.

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