Atletismo/Bastidores - ( - Atualizado )

Bom Senso FC serve de exemplo contra estrangeiros no atletismo

Bruno Ceccon São Paulo (SP)

O Bom Senso FC, movimento criado por jogadores para tentar mudar a realidade do futebol brasileiro, serve como exemplo para os atletas nacionais. Insatisfeito com a quantidade de estrangeiros nas provas de rua realizadas no País, um grupo de corredores e técnicos reivindica a criação de dispositivos para diminuir o número de forasteiros, em sua maioria africanos.

A exemplo do movimento liderado por nomes como Paulo André e Rogério Ceni, que protestou em campo no último Campeonato Brasileiro, os atletas resolveram demonstrar a insatisfação publicamente após uma prova realizada em Caldas Novas-GO no último mês de janeiro.

“Como forma de protesto, os brasileiros acabaram não subindo ao pódio ao lado dos estrangeiros”, explica Conceição de Maria Oliveira, vice-campeã do Ranking Nacional de Corredores-2013 e uma das líderes do movimento que vê o Bom Senso FC como exemplo, embora as bandeiras dos dois movimentos sejam bem diferentes.

“Achamos muito bacana a organização do pessoal do futebol. Eles conseguiram se unir para fazer suas reivindicações. Por que a gente não pode fazer o mesmo? É um direito que temos e o movimento é democrático. Queremos ser ouvidos e passar nossas sugestões”, afirmou Conceição.

O número de corridas de rua no Brasil aumentou significativamente nos últimos anos – o Circuito Nacional, por exemplo, atualmente conta com 32 etapas. Os corredores africanos, agenciados por técnicos e empresários brasileiros, são atraídos pelo calendário movimentado, pelos prêmios em dinheiro e pelo baixo nível técnico de alguns eventos.

Gaspar Nóbrega/Inovafoto
Conceição de Maria Oliveira (à direita), vice-campeã do Ranking Nacional de Corredores, é uma das líderes do grupo
Diante da reclamação de seus atletas, a Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) regulamentou o tema em 2009. Nas provas da Classe A-1 Nacional, o limite é de três atletas por país, mas a entidade tem o poder de rever o número a seu critério. Podem competir dois por país na Classe A-2 Nacional e um na Classe B Estadual.

No entanto, o regulamento não foi suficiente para satisfazer alguns atletas e treinadores brasileiros. De acordo com Alexandre Minardi, técnico da equipe de atletismo do Cruzeiro, clube defendido no futebol pelo volante Tinga, um dos integrantes mais ativos do Bom Senso FC, há estrangeiros competindo de forma irregular.

“Existe uma invasão africana no Brasil. Do jeito que está, não pode continuar. Tem estrangeiro correndo com visto de turista e ganhando dinheiro. Além disso, estão sem a carta convite exigida pela CBAt. Quero deixar claro que não tenho nada contra os atletas, mas sim contra as pessoas que os trazem”, afirmou Minardi.

O técnico do Cruzeiro citou Moacir Marconi, mais conhecido como Coquinho, que comanda uma equipe de africanos na localidade paranaense de Nova Santa Bárbara, e Luiz Antônio dos Santos, chefe da Luasa, com base em Taubaté, no interior paulista.

Djalma Vassão/Gazeta Press
Alexandre Minardi, técnico da equipe de atletismo do Cruzeiro, atualmente condena a presença dos estrangeiros
Ex-competidores, Moacir Marconi e Luiz Antônio dos Santos mantêm contato constante. Como trabalham com atletas das mesmas nacionalidades, principalmente quenianos, ambos elaboram o calendário mutuamente para respeitar os limites impostos pela CBAt em cada corrida.

“Os atletas começaram a acordar. Para conseguir melhorias, temos que fazer alguma coisa”, disse Conceição. “A nova geração das corridas de fundo diminuiu bastante. Nas provas regionais, por exemplo, os atletas buscam dinheiro para comprar um tênis e iniciar a carreira. Com o domínio dos africanos, ficam desmotivados”, completou.

De acordo com a atleta, muitos organizadores de provas pequenas, com o objetivo de anunciar o evento como “internacional” e torná-lo mais atraente do ponto de vista comercial, convidam competidores estrangeiros, em tese aumentando o grau de dificuldade para os brasileiros.

Com a finalidade de discutir as questões ligadas ao segmento, entre elas a participação dos estrangeiros, a CBAt promoveu um Seminário Nacional de Corridas de Rua em São Paulo. O encontro, realizado nesta semana, contou com atletas, técnicos, organizadores de provas e dirigentes.

Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press
MEDALHISTA OLÍMPICO PEDE RIGOR

Eu não sou contra a participação dos estrangeiros nas provas de rua no Brasil, mas acho que precisamos estabelecer critérios para não desmotivar nossos atletas em início de carreira. Hoje, vemos a presença de africanos em corridas de todos os níveis, até mesmo no interior. Precisa restringir um pouco. Em determinadas provas, não deveria ter estrangeiro. Por outro lado, a presença deles em corridas de alto nível é importante para que os brasileiros possam ter um parâmetro. - Vanderlei Cordeiro de Lima foi bronze na maratona dos Jogos de Atenas-2004

Algumas das possibilidades cogitadas pelo grupo que contesta a presença dos estrangeiros são proibir a presença deles nas provas da Classe B Estadual e estabelecer um número fixo de competidores nas corridas das outras duas categorias, independentemente dos países de origem.

“A CBAt já tem suas normas sobre a participação dos estrangeiros, mas acabamos esbarrando em outras questões: Polícia Federal, política de imigração, concessão de vistos, legislação trabalhista. São coisas que fogem do nosso âmbito”, disse José Antônio Martins Fernandes, o Toninho, presidente da CBAt.

Uma eventual alteração em torno do assunto precisaria ser aprovada oficialmente na Assembleia Geral da CBAt, em abril. “A princípio, não vejo como mudar de imediato essas coisas. São questões difíceis de serem resolvidas. Não podemos simplesmente proibir pessoas de participar das corridas”, disse Toninho.

Moacir Marconi e Luiz Antônio dos Santos, os dois principais técnicos e empresários de atletas estrangeiros no Brasil, atualmente estão na África e não puderam participar do seminário promovido pela CBAt em São Paulo, mas seus representantes garantem que os integrantes das respectivas equipes competem legalmente no Brasil.

TÉCNICO DO CRUZEIRO JÁ SE ALIOU A AFRICANOS NA SS
Foto: Marcelo Ferrelli/Gazeta Press

Embora hoje critique asperamente Luiz Antônio dos Santos, Alexandre Minardi já se aliou ao técnico e empresário de africanos. Por meio de um acordo com a Luasa, os quenianos Maurine Kipchuma e Joseph Aperumoi (foto) disputaram a Corrida Internacional de São Silvestre-2012 com a camisa do Cruzeiro – ela venceu e ele ficou em segundo. Na época, o técnico do clube mineiro se disse “cansado de dar murro em ponta de faca” e, animado, manifestou o desejo de manter a parceria com a equipe de africanos.
 

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