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Defensor dos 12 de Oruro, Gobbi vive encruzilhada com organizadas

Marcos Guedes São Paulo (SP)

Um ano após a morte do garoto Kevin Beltrán – atingido por um sinalizador na partida entre San José e Corinthians, na Bolívia –, Mário Gobbi vive um momento complicado na relação com as torcidas organizadas alvinegras. Defensor dos 12 torcedores que ficaram presos em Oruro, acusados de participação no incidente, o presidente alvinegro está em situação desconfortável.

O dirigente apoiou bastante os detidos, que ficaram conhecidos como “12 de Oruro”. Ele articulou a ajuda do Itamaraty e do Ministério da Justiça, dedicou a conquista do título paulista de 2013 a eles – à época, ainda na penitenciária San Pedro – e comemorou a libertação dos últimos, após quase seis meses. De lá para cá, alguns deles se envolveram em atos de violência.

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O mais recente deles foi a invasão do centro de treinamento alvinegro, em 1º de fevereiro. Tiago Aurélio dos Santos Ferreira foi identificado como um dos mais de cem torcedores que entraram no CT do Parque Ecológico e, segundo relatos de funcionários, cometeram, furtos, roubos e agressões sob o pretexto de protestar contra má fase do time.

AFP
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“Estou decepcionadíssimo com o rapaz de Oruro que invadiu o CT. Ele passou por uma experiência que deveria servir de exemplo na vida dele”, disse Gobbi, estendendo o desapontamento àqueles que participaram de uma briga com vascaínos em um jogo em Brasília e àquele preso na Bahia, acusado de trocar tiros com a polícia. “Todos os de Oruro que se envolveram nesses fatos não podem ter mais o meu apoio.”

Foto: Agência Corinthians
CAPITÃO LAMENTA TRAGÉDIA

"É uma data triste, um assunto ruim de ser lembrado, mas aconteceu. Em um dia que deveria ter sido de alegria e futebol, perdemos mais um ser humano. Soubemos apenas no final do jogo. Sinceramente, não tenho palavras que possam trazer algum tipo de conforto para a família após a perda de um filho. Espero que consigam encontrar forças neles mesmos para continuar vivendo. Fomos ao campo naquele dia para jogar futebol e saímos com um dos piores sentimentos de nossas vidas." – Alessandro foi titular do Corinthians contra o San José

Os comentários não mudaram a convicção do dirigente de que defender os corintianos detidos na Bolívia – todos membros de torcidas uniformizadas – foi a atitude correta na ocasião. A detenção feita pouco após a morte de Kevin foi considerada arbitrária por ele e pelas autoridades brasileiras, com denúncias de que a liberdade estava sendo comercializada pela família do garoto.

“Eu tenho respaldo para falar”, comentou Gobbi, que é delegado, antes de dissociar a tragédia da Bolívia dos incidentes posteriores. “Da mesma forma que não concordo que invadam o CT e pratiquem atos ilícitos penais, não posso concordar, como homem do Direito, que você pegue 12 pessoas aleatoriamente e as coloque na cadeia para dar uma satisfação (à sociedade). Foi o que aconteceu.”

“A polícia de Oruro não descobriu até hoje quem foi o autor do disparo do luminoso que atingiu o menino. Você não paga um crime cometendo outro crime. Não espere de mim apoio a uma prisão ilegal. Em Oruro, houve um abuso total de poder, uma violência aos direitos, como foi a invasão aqui. Eu não posso concordar com nenhum dos dois fatos. Meu compromisso é com a cidadania”, acrescentou.

De qualquer maneira, decorrido um ano da morte do menino boliviano, complicou-se bastante a relação do Corinthians com suas torcidas organizadas, recebidas com frequência em fases boas e ruins da equipe até o início deste ano. Após a invasão do centro de treinamento, ainda que as uniformizadas não tenham assumido a arquitetura do evento, Mário Gobbi suspendeu parcialmente o diálogo.

Essa suspensão, no entanto, não é permanente. Se, no momento, “não há a menor intenção de diálogo porque as coisas chegaram a um ponto em que está difícil qualquer conversa”, o presidente admitiu que, “no futebol, você nunca diz ‘nunca mais’”. E aí entra outra questão paralela à relação tensa vivida hoje com a Gaviões da Fiel e outras entidades semelhantes: a também tensa relação com Andrés Sanchez.

Divulgação/Agência Corinthians
Ilhado no Corinthians, Gobbi se vê em situação difícil para lidar com as organizadas (foto: Daniel Augusto Jr.)
Antecessor de Gobbi na presidência e líder do grupo político que manda no Corinthians desde 2007, Andrés é um dos fundadores da organizada Pavilhão Nove. Ele não demorou, após a invasão ao centro de treinamento, a apontar que não havia líderes das uniformizadas no incidente, alinhando-se à teoria de que o terror no Parque Ecológico não foi planejado por elas.

O ex-presidente, que hoje cuida da construção do estádio alvinegro em Itaquera, já foi muito mais próximo de seu sucessor, cujo mandato terminará no início do próximo ano. Andrés chegou a ironizar a promoção do “clássico da paz” com o Palmeiras, no último final de semana, ridicularizando o convite do presidente alviverde, Paulo Nobre, para um pizza com Gobbi ao fim do Derby.

Assim, ilhado no comando do Corinthians – Roberto de Andrade e Duílio Monteiro Alves, fiéis a Andrés, deixaram recentemente a diretoria de futebol –, Mário Gobbi se vê em grande dificuldade para lidar com a questão das organizadas. Um ano após Oruro, o dirigente está mais longe dos 12 presos, de antigos aliados e das próprias torcidas, que vem gritando por sua saída.

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