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Frustrado, pai de Kevin diz: Presos de Oruro não eram tão inocentes

Bruno Ceccon São Paulo (SP)

Há 365 dias, Kevin Beltrán Espada se despediu dos pais para ver o jogo do San José contra o Corinthians e nunca mais voltou. Aos 14 anos, o garoto foi atingido de maneira fatal por um sinalizador durante o primeiro tempo da partida válida pela Copa Libertadores, disputada em Oruro - então menor de idade, o suposto responsável por lançar o fogo de artifício, integrante da Gaviões da Fiel, não recebeu qualquer tipo de punição.

Libertados após pressão do Corinthians e da classe política brasileira, alguns dos 12 torcedores presos em Oruro se envolveram em novas confusões. Cleuter Barreto Barros, Leandro Silva de Oliveira e Fábio Neves Domingos participaram da briga com vascaínos no Campeonato Brasileiro de 2013. Tiago Aurélio dos Santos Ferreira esteve na recente invasão ao Centro de Treinamento, enquanto Raphael Machado Castilho Araújo é acusado de trocar tiros com a polícia no interior Bahia e está preso.

Família de garoto ainda espera doação da Federação Boliviana de Futebol
Defensor dos 12 de Oruro, Gobbi vive encruzilhada com organizadas

“Isso prova que alguns dos torcedores não eram tão inocentes como asseguravam os representantes do Ministério da Justiça e da Embaixada do Brasil”, disse o professor Limbert, pai de Kevin, em entrevista à Gazeta Esportiva. Nesta quinta-feira, a família Beltrán Espada realizará uma missa no Cemitério Parque de las Memórias, localizado na cidade de Cochabamba, para homenagear o garoto morto há exatamente um ano.

Frustrado com as investigações sobre a morte de seu filho, Limbert Beltrán se emocionou ao lembrar que autorizou Kevin a viajar de Cochabamba para Oruro com a finalidade de acompanhar a partida no Estádio Jesus Bermudez. O pai do garoto, decepcionado com a Conmebol e com o Corinthians, ainda criticou os políticos brasileiros que aproveitaram o caso para aparecer. Um ano depois, a família, traumatizada com os fogos de artifício, comuns na Bolívia, procura seguir a vida.

GE - Um ano depois da morte do seu filho, não houve qualquer tipo de punição ao jovem que se identificou como responsável pelo disparo do sinalizador.
Limbert - Lamentavelmente, confiamos cegamente na Justiça. Nunca pensamos que haveria tantos tropeços ao longo do caminho. A sensação é de fracasso. Mais do que de fracasso, a sensação é de dor, porque perdi um filho e a chance de encontrar o responsável por sua morte. Ficamos apenas com as recordações. Em uma data como essa, me sinto mal por não ter conseguido fazer justiça para o Kevin. Parece que a morte dele aconteceu durante uma partida de futebol disputada em um terreno baldio entre dois times de bairro.

Bruno Ceccon/Gazeta Press
Carola e Limbert, pais de Kevin, realizarão uma missa no cemitério para homenagear o filho que faleceu há um ano
GE – Após a morte do Kevin, você passou a se sentir culpado por tê-lo autorizado a viajar a Oruro para acompanhar a partida contra o Corinthians. Essa sensação continua?
Limbert – Um ano depois, os sentimentos voltam a aflorar e isso é muito doloroso. Tenho me lembrado dos últimos momentos que passei com o Kevin. Em um dia como hoje, eu estava conversando com meu filho e confirmando que poderia viajar a Oruro para ver a partida. No dia seguinte, formalizei a permissão para ele fazer a viagem como menor de idade, acompanhado pelo primo. A passagem de um ano aumenta as lembranças.

GE – Um ano depois, como estão você e sua família?
Limbert - Nós nos recuperamos em parte porque precisamos trabalhar para alimentar outros três filhos. Ver os pequenos se desenvolvendo também nos estimulou a continuar. De alguma maneira, tratamos de reconstruir nossa família. Mas eu, por exemplo, não fico um dia sem passar no cemitério. Meus filhos mudaram, especialmente o que seguia o Kevin mais de perto, o Jhojan, de 10 anos. Ele mudou de personalidade. Todos ficamos traumatizados com os foguetes. Infelizmente, no meu país os fogos de artifício são usados com frequência nas celebrações e aqui há festas em todos os finais de semana. Somos surpreendidos pelos ruídos que indiretamente nos fazem recordar o caso. Mas estamos tentando seguir adiante e continuar com nossas vidas.

GE – O Kevin começou a gostar de futebol influenciado por você. Depois do que aconteceu, ainda acompanha o esporte ou ficou um pouco distante?
Limbert – O futebol não me atrai mais. Nunca fomos fanáticos, mas gostávamos muito do esporte. Sempre criticamos os grupos que vão aos estádios para vandalizar ao invés de torcer. Lamento que tenha acontecido justo com meu filho, uma pessoa tranquila, que estava começando a viver e curtia o futebol como seu pai, com paixão e respeito às outras pessoas. Atualmente, o futebol me deixa doente, fico mal. No trabalho e em reuniões familiares, quando alguém fala sobre o futebol ou tem um jogo na televisão, fico entristecido.

AFP
Alguns dos corintianos que ficaram meses presos em Oruro se envolveram em novas confusões no retorno ao Brasil
GE – Você soube que alguns dos 12 torcedores que estiveram presos em Oruro se envolveram em novas confusões após o retorno ao Brasil?
Limbert - Sim, soube que alguns tiveram problemas com a lei. Fiquei fortalecido no sentido de saber que não estávamos enganados em deter parte deles em Oruro. No final das contas, isso prova que alguns não eram tão inocentes como asseguravam os representantes do Ministério da Justiça e da Embaixada do Brasil. Todos diziam que eram pessoas sem antecedentes, que não haviam feito nada de errado e foram presas injustamente. Eu e minha família ficávamos sentidos por reter pessoas inocentes, embora a finalidade fosse buscar o culpado. Mas quando eles são soltos e se metem em problemas, fico fortalecido por saber que não me enganei em relação a alguns deles.

GE – Um ano depois, você ainda acredita que o verdadeiro culpado pela morte do seu filho estava entre os 12 presos em Oruro?
Limbet – Eu entendia dessa forma. Se o autor direto não estava naquele grupo, acredito que pelo menos havia gente que seria capaz de apontar o verdadeiro culpado. Dois deles tinham indícios de ter entrado com os artefatos no estádio de maneira ilegal. A única coisa que queríamos era que fossem sentenciados de acordo com o grau de responsabilidade. Independentemente se fossem condenados a passar apenas um ou dois dias na prisão. Queríamos uma sentença para demonstrar a todos que foi feito um processo justo. Não estou preocupado com a questão econômica. Gostaria muito de saber o que realmente aconteceu, mas o caso se contaminou econômica e politicamente. Muitos se aproveitaram da nossa desgraça. Por isso, decidimos não insistir com os processos e deixar tudo a cargo da consciência de cada um.

GE – Quando os presos foram libertados por falta de provas, o Corinthians citou os ministros Antônio Patriota (Relações Exteriores) e José Eduardo Cardozo (Justiça) na nota divulgada para festejar. Além disso, muitos políticos brasileiros usaram a situação para aparecer.
Limbert – Seria interessante perguntar como se sentem os políticos que vieram e pressionaram pela libertação dos torcedores, se ainda têm um pouco de consciência moral. Entendo que essas pessoas queriam apenas holofotes em um determinado momento, mas não estavam interessadas em proporcionar tranquilidade a uma família que havia sido seriamente afetada. O comportamento de alguns vândalos custou a vida do meu filho, um jovem inocente e que seguramente daria muito à sociedade como cidadão no futuro.

Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press
AUTOR DE DISPARO SE AFASTA 

Identificado apenas pela abreviatura de seu nome completo (H. A. M), o jovem que assumiu a responsabilidade pela morte de Kevin Beltrán já completou 18 anos e se chama Helder. Ironicamente, ele tem um irmão chamado Kelvin.

De acordo com Ricardo Cabral, advogado responsável por defender o então menor de idade, o jovem parou de frequentar os jogos do Corinthians e a quadra da Gaviões da Fiel desde a tragédia na Bolívia.

Morador do Bom Retiro, ele vive nas imediações da sede da organizada e trabalha em uma rede de salas de cinema. Com o processo pela morte de Kevin arquivado, Helder procura esconder seu envolvimento no caso.

GE – Depois de uma negociação arrastada, o Corinthians doou US$ 50 mil à sua família. Como você avalia o comportamento do clube no caso de maneira geral?
Limbert – Agradeci no momento da doação e volto a fazê-lo agora. Reconheço e sou grato pela ajuda de US$ 50 mil, mas questiono a forma como o Corinthians tratou o caso e a falta de controle em relação à solidariedade à minha família. Eles não entraram em contato diretamente comigo, buscaram intermediários. Tiveram uma conduta irresponsável, brincaram conosco, porque se comprometeram a fazer uma doação de US$ 200 mil e não cumpriram. No final, desvalorizaram a vida do meu filho monetariamente. Ainda se atreveram a dizer que os tempos haviam mudado e que a ajuda seria de US$ 50 mil. Agradeço ao clube pela doação, mas condeno o que fizeram antes.

GE – A Conmebol multou o Corinthians em US$ 200 mil. Ou seja, a entidade recebeu quatro vezes mais do que a sua família.
Limbert – A sensação é de raiva e impotência. Não sei se a Conmebol se limita a cobrar multas grandiosas dos clubes que têm algum problema em seus estádios e se esquece das vítimas. Nesse caso, me refiro à minha família e aos próprios detidos. Não me lembro de ter visto nem sequer uma nota da entidade na época. Eles conseguem o dinheiro e simplesmente permitem que os times continuem jogando sem tomar as devidas medidas de segurança. Em outras palavras, o dinheiro cala tudo. As vítimas devem padecer, ser perseguidas pelos meios de comunicação e enganadas por falsas promessas. No final, ninguém se responsabiliza. Parece que tudo gira em torno dos que brincam com a bola. Todos se esquecem daqueles que enchem os estádios com seus centavos para que alguns poucos tenham comodidade e prestígio diante da opinião pública.

GE – Que tipo de conduta você esperava por parte das pessoas que dirigem o futebol?
Limbert – Depois que buscamos o corpo do meu filho e o enterremos dignamente, depois que acabou todo aquele show, pensei que as pessoas envolvidas com o futebol, a Conmebol, o Corinthians, o San José, a Federação Boliviana e a Liga Profissional, ofereceriam apoio moral e técnico no sentido de encontrar o culpado e de sentenciá-lo. Da mesma forma que os clubes se movimentam para fazer grandes contratações e jogar em outros países, pensei que poderiam me ajudar. Mas ninguém se aproximou. É vergonhoso que tamanhas instituições não tenham tido força, valentia e moral para fazer o correto. Dói saber que o único interesse dessas pessoas é movimentar milhões de dólares em benefício próprio. Não fazem nada pelos que morrem tentando apoiar um time. Isso mostra que as pessoas que vão aos estádios não têm segurança.

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