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Conheça a história de Bellini, o capitão do primeiro título mundial

São Paulo (SP)

São poucas as pessoas no mundo que podem se orgulhar de ter criado algo, seja um produto, uma fórmula, um objeto e, até mesmo, um gesto. Assim como surgiu o cumprimentar de mãos, o abraço, o beijo no rosto, Hideraldo Luís Bellini pode se orgulhar de ter feito pela primeira vez um movimento que alegra dos mais jovens aos mais idosos, do mais rico ao mais pobre. Graças a ele, foi criado um dos gestos mais significativos do futebol e, até mesmo, dos outros esportes: o levantar a taça de campeão.

Zagueiro de vigor físico superior à qualidade técnica, Bellini conta que o gesto que acabou imortalizado em uma estátua de tamanho real na entrada do Maracanã e passou a ser imitado por todos os capitães do mundo nasceu por acaso. Na verdade, o eterno capitão ficou preocupado com os fotógrafos, que queriam a todo custo registrar o primeiro título mundial brasileiro.

Acervo/Gazeta Press
Pela primeira vez na história, um jogador ergueu a taça
"Não pensei em erguer a taça, na verdade não sabia o que fazer com ela quando a recebi do Rei Gustavo, da Suécia. Na cerimônia de entrega da Jules Rimet, a confusão era grande, havia muitos fotógrafos procurando uma melhor posição. Foi então que alguns deles, os mais baixinhos, começaram a gritar: "Bellini, levanta a taça, levanta Bellini!", já que não estavam conseguindo fotografar. Foi quando eu a ergui", contou Bellini, rindo ao se recordar do histórico momento.

Bellini foi convocado após agradar o técnico Vicente Feola durante as Eliminatórias, em 1957. O zagueiro ganhou a tarja de capitão já na reta final de preparação para a Copa do Mundo, após ser elogiado publicamente pelo Marechal da Vitória, Paulo Machado de Carvalho. Durante o Mundial da Suécia, demonstrou muita seriedade e um estilo de jogo acima da média para os beques da época. O título e o gesto de levantar a taça Jules Rimet só coroam o excelente campeonato realizado.

"Foi sensacional ir à Suécia em 58, ainda garoto. Ser convocado já era um prêmio. Ser titular e capitão da Seleção então, nem era bom pensar. Foi uma caminhada árdua, mas a conquista do título foi qualquer coisa de fantástico. Com a taça em cima da cabeça, vi o mundo todo aos meus pés. Sabia que o Brasil todo estava conquistando pela primeira vez o Mundial e que aquela taça que eu segurava seria nossa pelo menos por quatro anos. Todos haveriam de nos respeitar", completou Bellini.

Além de 1958, Bellini ainda disputou as Copas de 1962 e 1966, ambas no banco. No Chile, amargou a reserva de Mauro Ramos, em melhor fase no Santos e seu amigo pessoal dos tempos de Sãojoanense. Já na Inglaterra acabou prejudicado pela péssima organização feita pela CBD, que convocou 44 jogadores e divulgou a lista de cortes às vésperas do início do campeonato. Foram 57 jogos com a camisa verde-amarela, com 42 vitórias, 11 empates e apenas quatro derrotas. Bellini faturou, além do bicampeonato mundial, a Copa Roca, em 1957 e 1960, a Taça Oswaldo Cruz, em 1958, 1961 e 1962, a Taça Bernardo O'Higgins, em 1959, e a Taça do Atlântico, em 1960.

O início

Bellini ainda era um garoto quando começou a dar os primeiros nas ruas de terra de Itapira, no interior paulista, sua cidade natal. Fazia a bola com as meias e usava os sapatos como traves. Aos domingos, a diversão era se reunir na Praça Central para escutar os clássicos do Pacaembu, pelo rádio. Cresceu escutando nomes como Domingos da Guia e a ideia de virar zagueiro já ia fazendo sua cabeça.

Ao chegar à adolescência, Bellini era convidado para jogar competições amadoras da região, sem sonhar ainda com o profissionalismo. Sem contar com grande qualidade técnica nos pés, acabou virando zagueiro de vez. Para espanto de todos, Bellini demonstrava muita raça e, acima de tudo, categoria e lealdade no campo contra os adversários.

Acervo/Gazeta Press
O Brasil exaltou o grande feito daquela Seleção
A partir de 1949, já decidido a virar jogador de futebol, a vida de Bellini mudou. O futuro zagueiro da Seleção Brasileira espantava os torcedores da região com sua determinação e já era titular de todas as equipes que defendia na região. A notícia de um zagueiro estiloso logo circulou pelas cidades vizinhas e chamou a atenção de alguns olheiros de clubes menores.

Depois de observar o futebol de Bellini de perto, o olheiro Mauro Xavier da Silva não esperou a ansiedade para contar ao clube em que trabalhava, o modesto Sãojoanense, que contava em seus quadros com o até então desconhecido Mauro Ramos de Oliveira. Pegou o primeiro ônibus de Itapira para São João da Boa Vista e, já no começo da madrugada, bateu na porta do presidente Francisco de Bernardes. Aos berros, começou a informá-lo sobre o futebol de Bellini.

Ainda sonolento, o presidente pediu que retornasse no outro dia. Foi quando Mauro Xavier o informou que outros clubes já estavam assediando Bellini. Bernardes, fiel às informações de seu olheiro, autorizou o funcionário a trazer o zagueiro. A abordagem em cima do futuro bicampeão mundial foi, no mínimo, estranha.

Após uma conversa, Mauro descobriu o motivo de tantas recusas de Bellini: o zagueiro não queria passar por testes. O olheiro concordou em fechar negócio sem que o zagueiro passasse por qualquer tipo de avaliação. Ao chegarem em São João, o presidente perguntou o porquê de tanta confiança ao seu "novo reforço", mas, assim que Bellini deu os primeiros toques na bola, logo viu o motivo.

Bellini ficou por três anos no Sãojoanense, de 1949 a 1951. Mesmo atuando pela segunda divisão do futebol paulista, chamou a atenção dos grandes da capital. Nos jogos da modesta equipe, era normal a presença de olheiros e amigos de técnicos avaliando a categoria que aquele jovem zagueiro apresentava. Com algumas propostas na mão, Bellini apostou alto e preferiu aceitar o Vasco da Gama. Estava acertada a sua ida ao Rio de Janeiro.

Cruz de Malta

A trajetória de Bellini no Vasco da Gama pode ser considerada cinematográfica. Ali, o capitão permaneceu por dez anos, conquistando três títulos cariocas, em 1952, 1956 e 1958, ganhando destaque na equipe apelidada de "Expresso da Vitória", pelo alto número de conquistas na década de 1940, principalmente.

Acervo/Gazeta Press
Bellini marcou época em um time de glórias do Vasco
O jovem Hideraldo chegou confuso a então capital federal. Sem saber quanto os dirigentes vascaínos haviam desembolsado pelo seu passe, assustou-se ao verificar o primeiro salário recebido, um valor extremamente superior ao que ganhava no Sãojoanense.

Sem um currículo recheado, a primeira temporada acabou servindo de teste para o jovem zagueiro. Flávio Costa e Oto Glória, técnicos da equipe em 1951, o deixaram na equipe de aspirantes naquela temporada para adquirir mais experiência e até conseguirem uma melhor avaliação do desconhecido atleta. Aprovado, Bellini passou a integrar o elenco principal vascaíno em sua segunda temporada no Rio de Janeiro.

No ano em que o "Expresso da Vitória" conquistaria o seu último título com a formação quase sem mudanças, Bellini brigou pela posição de quarto-zagueiro com Haroldo, outro estreante na Colina. Oto Glória achava que o interiorano rapaz jogava melhor naquela posição e, por isso, o futuro capitão aguentou firme a reserva, em boa parte da vitoriosa campanha.

Apenas com a chegada de Gentil Cardoso, no final de agosto, Bellini foi garantindo o seu espaço em São Januário. Deixou Haroldo no banco em algumas partidas, mas logo o novo treinador comprovaria que o capitão atuava melhor como zagueiro central, tornando inútil a briga de posição com o outro novato.

Cardoso não teve tempo de colocar em prática o seu esquema, pois, após o título de 1952, acabou devolvendo o lugar a Flávio Costa. Agora mais familiarizado com o futebol de Bellini, Costa elogiou a evolução do rapaz de Itapira, dando-lhe o posto de titular em 1953, que ocuparia por mais nove temporadas, até o bicampeonato mundial no Chile, em 1962.

Vestindo a camisa 3 vascaína, Bellini virou ídolo da torcida pela seriedade que exibia em campo. Mesmo sem contar com grande qualidade técnica, esbanjava disposição física, garra e dava segurança ao restante do elenco, o que arrancava suspiros do técnico Flávio Costa. Diante de tantos atributos, não lhe restou alternativa a não ser entregar ao zagueiro a tarja de capitão.

Com a saída de Flávio Costa para a Seleção Brasileira, em 1956, restou a Bellini a responsabilidade de conduzir o Vasco à retomada de títulos do "Expresso da Vitória". Ao lado de Orlando, formando aquela que muitos consideravam a melhor zaga do futebol brasileiro, o líder do elenco exigia seriedade de seus comandados, sendo o porta-voz de Martim Francisco dentro das quatro linhas. O resultado não poderia ser outro: a conquista do Campeonato Carioca daquela temporada.

Como principal combustível do título, Bellini foi premiado com o reconhecimento de seu antigo treinador, que o convocou pela primeira vez para a Seleção em 1957, nas Eliminatórias para a Copa da Suécia, mais precisamente no dia 13 de abril, no empate por 1 a 1 com o Peru, em Lima.

Ainda em 1958, acabou faturando o Carioca, repetindo o gesto realizado na Suécia, erguendo pela primeira vez uma taça dentro do Brasil. Sempre ao lado de Orlando, seu fiel companheiro de defesa por longas seis temporadas, faturou também o Torneio Rio-São Paulo, comprovando a superioridade cruz-maltina.

A trajetória de Bellini em São Januário foi brilhante, mas ainda era pouco para o campeão mundial. Apesar de perder espaço na Seleção com a saída de Vicente Feola, ainda era gabaritado no mercado. Foi ao Chile como reserva do amigo Mauro Ramos, que acabou repetindo o seu célebre gesto, homenageando-o.

A amizade entre os dois e o desgaste natural do capitão no Rio de Janeiro culminaram em uma negociação badalada na época. Mesmo com o Morumbi em construção, o São Paulo arranjou verba para formar sua zaga com os dois capitães campeões e trouxe, após a Copa, Bellini para a capital paulista.

Do Morumbi para Curitiba

A decisão de contratar Bellini, em 1963, e formar a dupla de zaga com os dois capitães campeões mundiais partiu da cúpula são-paulina, em uma tentativa de aliviar o calvário pelo qual passava o Tricolor, em jejum devido à construção do Morumbi. Contratando um dos melhores zagueiros do futebol brasileiro, o São Paulo daria um ânimo maior a sua torcida, traumatizada pela sucessão de fracassos após o título de 1957.

Acervo/Gazeta Press
Depois do período no clube do Rio de Janeiro, o zagueiro se transferiu para o São Paulo
A tentativa deu certo. No auge de seu vigor físico, com 32 anos, Bellini não decepcionou a cúpula que apostou alto em sua contratação. Considerado velho no Vasco da Gama, saiu como ídolo e agora caminhava a passos largos para repetir o feito em São Paulo, jogando diante da exigente torcida.

Ao lado do amigo Mauro Ramos, Bellini não decepcionou, fez boas apresentações, mas acabou prejudicado pelo fraco desempenho apresentado o Tricolor no período em que as atenções estavam voltadas para a construção do estádio próprio. Mesmo assim, conseguiu se manter na Seleção por sua garra e liderança diante dos demais jogadores, apesar de frequentar a reserva.

Prejudicado pelos insucessos do São Paulo, acabou arriscando tudo ao aceitar uma proposta do Atlético-PR. Após o fiasco do Mundial na Inglaterra, Bellini, com 38 anos, aceitou a transferência para o Furacão. Junto com ele foi um outro veterano: o lateral direito Djalma Santos, também bicampeão, abalado com o fracasso na última Copa e perdendo o fôlego no Palmeiras.

Juntos, os dois desembarcaram no Atlético e atuaram por três anos, de 1968 a 1970, conquistando o Campeonato Paranaense no último ano como profissionais. Bellini, já com 40 anos, ainda exibia grande forma física, graças à fidelidade com as obrigações extra-campo. Já casado, o capitão atuou no Furacão com a mesma responsabilidade de quando era iniciante, exibindo um futebol sério e passando segurança à equipe.

Com o título estadual em 1970, decidiu pendurar as chuteiras, apesar dos pedidos para prosseguir atuando. Sem o mesmo vigor de antes, parou junto com Djalma Santos para não prejudicar o restante do elenco. Em sua opinião, um veterano complicaria a trajetória do Atlético-PR nos campeonatos futuros, principalmente o Brasileiro, que teria a sua primeira edição no ano seguinte, em 1971. O homem que erguera a taça pela primeira vez, sentiu o cansaço e decidiu baixar os braços, para a tristeza do mundo futebolístico.

Marcelo Ferrelli/Gazeta Press
Bellini ficou marcado para sempre no futebol mundial
Vida de aposentado

Após pendurar as chuteiras, Bellini valeu-se das economias que juntou durante a carreira. Desde o casamento com Giselda, quando ainda jogava, tomou a iniciativa de guardar dinheiro para oferecer conforto à família.

Decidido a investir o dinheiro em algo, Bellini foi um dos precursores das escolinhas de futebol. Montou dezenas, em Itapira, sua cidade natal, e em São Paulo. Com isso, conseguiu sustentar um estilo de vida confortável, sem necessidade de pedir auxílio aos clubes por onde passou.

Sem conseguir se desvincular totalmente do futebol, Bellini continuou frequentando o Pacaembu, próximo de sua casa. Trabalhou como comentarista de emissoras de rádios em algumas partidas, além de visitar, uma vez ou outra, programas esportivos de TV.

O envolvimento de Bellini com o futebol cresceu na década de 1980. A Copa de 1982 começou com o eterno capitão sendo o porta-bandeira da Seleção Brasileira na Espanha. Na ocasião, o ex-zagueiro foi ovacionado pela torcida local.

Alguns anos depois, em 1985, Bellini integrou a comissão técnica da Seleção, trabalhando como consultor e auxiliar a convite do então técnico Evaristo de Macedo, mas saiu após o retorno de Telê Santana ao comando verde-amarelo.

Bellini prosseguiu dando aulas nas escolinhas quando recebeu um convite do então prefeito de São Paulo, Reynaldo de Barros, para assumir a coordenadoria de um projeto social, chamado de "Projeto-Futebol". Nesta nova empreitada, o eterno capitão promoveu alguns torneios amadores, porém nada de destaque.

Com o fim do projeto, acabou sendo remanejado. Ainda como funcionário público, assumiu por um tempo o cargo dos sonhos de muitos torcedores, o de administrador do Pacaembu.

Homenagem

Mais do que qualquer medalha ou dedicação especial, Bellini foi merecidamente homenageado pela prefeitura do Rio de Janeiro, que construiu uma estátua do eterno capitão em uma das entradas do Estádio Mário Filho, o Maracanã.

Feita em bronze e de tamanho real, a estátua de Bellini foi inaugurada em 1960, no chamado "Festival do Rio", uma atração da prefeitura para atrair mais turistas à Cidade Maravilhosa.

Na época, o artista plástico resolveu usar o capitão - e não Pelé, como foi pedido - por considerá-lo um verdadeiro galã de cinema e fazer sucesso com o público feminino. Mesmo com a modernização completa do estádio para a Copa do Mundo de 2014, a estátua do ex-zagueiro permanece em destaque, sendo um ponto de referência do torcedor.

O adeus

A saúde de Bellini ficou comprometida há cerca de dez anos, em função do Mal de Alzheimer, uma doença degenerativa que afeta o cérebro. Assim, o eterno capitão não resistiu. No fim da tarde de 20 de março de 2014, uma quinta-feira, Bellini morreu depois de um período internado na capital paulista, aos 83 anos.

Raio-X
Nome completo: Hilderado Luís Bellini
Posição: zagueiro
Nascimento: 7 de junho de 1930, em Itapira (SP)
Morte: 20 de março de 2014, em São Paulo (SP)
Clubes: Itapirense (1948), Sãojoanense (1949 a 1951), Vasco da Gama (1951 a 1962), São Paulo (1963 a 1968) e Atlético-PR (1968 a 1970)
Títulos: Campeonato Carioca de 1952 (Vasco), Campeonato Carioca de 1956 (Vasco), Copa Rocca de 1957 (Brasil), Campeonato Carioca de 1958 (Vasco), Taça Oswaldo Cruz de 1958 (Brasil), Torneio Rio-São Paulo de 1958 (Vasco), Copa do Mundo de 1958 (Brasil), Taça Bernardo O'Higgins de 1959 (Brasil), Copa Rocca de 1960 (Brasil), Taça Atlântico de 1960 (Brasil), Taça Oswaldo Cruz de 1961 (Brasil), Copa do Mundo de 1962 (Brasil) e Campeonato Paranaense de 1970 (Atlético-PR)

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