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Filme sobre Democracia Corintiana estreia 50 anos após Golpe Militar

Bruno Ceccon* São Paulo (SP)

O golpe que derrubou o então presidente João Goulart, aplicado no dia 1º de abril de 1964, marcou o início do regime militar. Em 1984, o movimento Diretas Já, encabeçado por esportistas, artistas e políticos, teve participação decisiva para encerrar o período de governo autoritário. Em meio às duas efemérides, estreia o filme Democracia em Preto e Branco, selecionado para a edição de 2014 do É Tudo Verdade, maior festival de documentários da América Latina.

“Apesar de ser uma grande coincidência, o fato de o documentário estrear nessa época pode ser um fato importante para a divulgação do trabalho, já que tratamos de assuntos ligados aos anos de chumbo. Se pensarmos que, além disso, o país vive uma convulsão parecida com a de 1984, quando as pessoas resolveram sair às ruas para se manifestar, não resta dúvida de que o filme, embora trate de um tema ocorrido há 30 anos, é super atual”, disse Pedro Asbeg, diretor do documentário.

Assista ao trailer oficial do documentário
Diretor vê semelhança com Bom Senso FC
Saiba mais sobre a Democracia Corintiana

O cineasta concedeu entrevista à Gazeta Esportiva diante do painel que homenageia a Democracia Corintiana no memorial do clube, localizado no Parque São Jorge. Os protagonistas do movimento estão entre os principais entrevistados da obra, mas a ideia foi explorar o contexto geral da época, marcado pelas Diretas Já e pelo surgimento de bandas como Barão Vermelho, Titãs e Ultraje a Rigor, ícones do chamado Rock Brasil.

“Quando comecei esse trabalho, a ideia era fazer um filme apenas sobre a Democracia Corintiana. Acredito que seja possível, porque é um tema grande o suficiente. Por outro lado, o próprio movimento ganha em força se você contextualiza a época em que aconteceu. Ou seja, quando percebi que deveria falar também sobre ditadura, cultura e outras coisas que estavam acontecendo no Brasil, o filme mudou”, explicou o cineasta, formado na Westminster University.

DOCUMENTÁRIO ESTREIA EM DUAS CAPITAIS

Rio de Janeiro
05/04 - 21 horas - Espaço Itaú de Cinema Botafogo
06/04 - 15 horas - Espaço Itaú de Cinema Botafogo
São Paulo
10/04 - 21 horas - Cine Livraria Cultura
11/04 - 15 horas - Cine Livraria Cultura
 

A intenção de ampliar o espectro do documentário, narrado pela cantora Rita Lee, fica evidente na escolha dos cerca de 30 personagens. Além de Sócrates, Casagrande e Wladimir, líderes da Democracia Corintiana, foram entrevistados músicos como Frejat, Dado Villa-Lobos, Edgar Scandurra e Paulo Miklos. Assim como os jornalistas Marcelo Rubens Paiva, Marcelo Tas e Serginho Groisman. Os ex-presidentes Lula e Fernando Henrique Cardoso também participam.

“Os movimentos Rock Brasil e Democracia Corintiana têm ligação no que diz respeito à necessidade de se expressar e à busca por liberdade. Não queria que o documentário fosse só para quem gosta de futebol. Desejo que alguém que nunca tenha ouvido falar dessa história se admire com o que aquelas pessoas fizeram. Não é um filme de nicho, um filme do Corinthians. Você não precisa gostar de futebol e, principalmente, não precisa ser corintiano para gostar do documentário”, explicou Asbeg.

O ex-jogador Sócrates, ídolo do Corinthians com passagem pelo Flamengo, time de coração do diretor do documentário, foi entrevistado em 2010, alguns meses antes da série de internações que precedeu sua morte, ocorrida em dezembro de 2011. Ele participou ativamente das Diretas Já e, no dia 16 de abril de 1984, diante de mais de 1 milhão de pessoas no Vale do Anhangabaú, chegou a prometer que permaneceria no Brasil caso a emenda Dante de Oliveira fosse aprovada, o que não aconteceu.

“O Sócrates é o condutor do filme junto com o Casagrande. O depoimento do Magrão foi realmente especial, porque ele estava em um dia muito legal, tranquilo e inspirado. A entrevista durou quase 2 horas, mas pareceu 20 minutos. Até hoje, quando vejo o vídeo, fico impressionado: ‘que coisas incríveis ele se permitiu dizer a mim’. Infelizmente, foi uma das últimas entrevistas que o Sócrates concedeu. De alguma forma, é um registro ainda mais valioso”, declarou Asbeg.

Um dos primeiros personagens procurados pelo diretor foi Emerson Leão, abertamente contrário à Democracia Corintiana. A princípio, o ex-goleiro se recusou terminantemente a conceder entrevista sobre o assunto. Cerca de dois anos depois, no entanto, o comentarista Benjamin Back intermediou o contato com Asbeg e o antigo arqueiro aceitou dar o seu depoimento, preenchendo uma lacuna do documentário.

“Cada vez ficava mais nítida a necessidade de ter um contraponto dentro do filme, alguém que questionasse o processo democrático vivido no Corinthians. A entrevista com o Leão foi muito legal, porque ele não fez qualquer tipo de restrição. Não deu respostas diretas quando não desejava, como qualquer outro entrevistado, mas falou sobre tudo. Eu não queria ser obrigado a conviver para sempre com a pergunta: por que você não entrevistou o Leão?”, explicou Asbeg.

Orçado em R$ 500 mil, o documentário arrecadou R$ 22 mil através de crowdfunding com doações de mais de 100 colaboradores – é um dos primeiros filmes brasileiros a apostar no mecanismo de captação coletiva, de acordo com seu diretor. A empreitada atraiu o interesse da imprensa e serviu para popularizar a obra com matérias em diferentes veículos de comunicação durante os anos que antecederam o lançamento.

De 30% a 40% do orçamento total foram empregados na aquisição de material de arquivo, entre fotos, vídeos, entrevistas e notícias da época, parte dele licenciado pela agência Gazeta Press. Pedro Asbeg preferiu não procurar pelo Corinthians na tentativa de oficializar o filme, mas se diz aberto a eventuais parcerias. A obra, co-produzida pela ESPN Brasil, deve ser veiculada no canal por assinatura. Os responsáveis pelo documentário ainda trabalham para exibi-lo em circuito comercial de cinema e negociam a possibilidade de venda on demand na televisão.

*Colaborou Luiz Ricardo Fini

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