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Itaquera une gente diferenciada em nova casa do Corinthians

Marcos Guedes e Raul Flávio Drewnick São Paulo (SP)

“Domingo, eu vou lá no Fielzão”, passaram a cantar os torcedores do Corinthians, quando ficou claro que o time do povo deixaria de ser inquilino e ganharia um endereço fixo na sua zona leste. O sonho será realizado no próximo final de semana, na casa própria de Itaquera, que receberá todo tipo de gente a partir do jogo contra o Figueirense.

O estádio não está pronto, assim como as obras à sua volta, e o preço dos ingressos está longe de agradar boa parte dos alvinegros, mas um dos mais populosos bairros de São Paulo está botando água no feijão. Do “maloqueiro e sofredor, graças a Deus”, àquele torcedor que prefere observar a bagunça do “poropopó” a uma distância segura, a promessa é de um ótimo tratamento.

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“Eu me sinto mais seguro na favela do que no Pacaembu. Acho que já diminuiu bastante de uns tempos para cá, mas vai cair mais ainda essa situação de preconceito. Muita coisa vai cair por terra”, afirma Alberto Gomes, o popular Favella, líder comunitário da região, que acompanhou atentamente a construção da arena. “Vamos tratar todo o mundo muito bem, pode ter certeza disso.”

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Põe os pratos no chão, e o chão está posto. E vamos botar água no feijão
De acordo com ele, até o morador de Higienópolis – pertinho do Pacaembu – que não queria metrô na porta de casa para evitar o contato com “gente diferenciada” vai desfrutar das visitas à ZL. É provável que esse corintiano prefira o serviço de alimentação incluído no bilhete de R$ 400 do setor VIP ao pernil vendido na porta, mas é possível que perceba a facilidade de chegar lá em linhas de ferro.

Ansiosos por sua inclusão oficial na geografia de uma cidade que sempre os negligenciou, os moradores da extrema zona leste de São Paulo contrastam com boa parte daqueles que deixarão de conviver com o Corinthians. Eram frequentes as reclamações no Pacaembu em dias de jogo, e não parece haver grande comoção com o adeus do inquilino.

PACAEMBU SEM DESTINO

A Prefeitura de São Paulo não sabe efetivamente o que fazer com o Pacaembu. A situação será relativamente sustentável enquanto o Palmeiras estiver jogando lá – o reconstruído Palestra Itália, renomeado de Allianz Parque, deverá ser aberto até o final do ano –, mas a manutenção da arena municipal, que custa cerca de R$ 5 milhões por ano, vai ficar cara demais sem seu mais f(F)iel inquilino.

Um maior número de jogos do Santos no local são uma alternativa vista com bons olhos pelo clube da Baixada, que sofre para encher a Vila Belmiro. A prefeitura também trabalha com a expectativa de mais eventos menores por lá, como partidas amadoras da tradicional Copa Kaiser e jogos de segunda divisão, mas não se satisfaz com esse calendário de segunda linha.

A associação de moradores do bairro, que não chora pelo adeus alvinegro, diz que sonha com uma “fábrica de atletas, com um cunho social”. O presidente da Viva Pacaembu, Rodrigo Mauro, lembra que o complexo não se resume ao campo de futebol utilizado na Copa do Mundo de 1950, contando também com um ginásio poliesportivo, uma piscina e quadras de tênis.

Só não fale aos moradores em sustentar o local com shows, porque o batuque das torcidas já é incômodo suficiente. Em boa parte graças à luta da influente Viva Pacaembu, eventos não esportivos são proibidos por lá. “Não é propício. O Pacaembu está no fundo de um vale. Para falar no popular, o barulho sobe”, diz Mauro, que também não quer parcerias e venda do nome: “O estádio se chama Paulo Machado de Carvalho e foi construído para eventos esportivos”.

“Nós, como moradores, queremos eventos esportivos no estádio. O que a gente não quer são os problemas que acontecem fora: ônibus fretado parado em lugar proibido, flanelinha, carro estacionado na porta do morador, o grande banheiro em que se transforma a praça...”, diz o presidente da Associação Viva Pacaembu, Rodrigo Mauro, que recomenda reclamações aos órgãos competentes nesse tipo de situação.

“Instruímos a ligar para a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), para a subprefeitura. Os moradores ligam, avisando que os carros estão parados nos portões. Respondem: ‘Vamos tirar, já vamos’. E chegam depois do jogo: ‘Pronto, chegamos’. É uma guerra! O que a gente mais quer é o estádio vivo, sendo usado, mas é disto que não dá para sentir saudade: das irregularidades”, explica Mauro.

Essa preocupação não é inexistente em Itaquera. A ideia é justamente que se evitem transtornos dentro e fora do estádio. Ninguém quer a sonhada casa própria maltratada após tanta espera nem que o bairro seja visto com maus olhos por quem o visita – isso se estende dos corintianos de outras áreas da cidade aos torcedores adversários do setor Inferior Sul.

“Estamos até fazendo algumas reuniões nas sedes das torcidas para que se mude um pouco a filosofia. Estamos nos preparando para receber todo o mundo bem, até os adversários. Os próprios torcedores vão ter que se policiar. Se o cara der um tiro no pé, eu vou abraçar e entregar. É um p... de um investimento, de muito trabalho, de muita luta. Não pode manchar”, discursa Favella.

Se tudo correr de acordo com o que espera o líder comunitário, mais gente fará como Luis Paulo Rosenberg, dirigente alvinegro que perdeu – em grande parte graças à Viva Pacaembu – a luta para pôr definitivamente o time na praça Charles Miller. “Confesso que eu tinha aquela alergia a Itaquera, comum a quem mora em Higienópolis, mas isso passou”, sorriu o cartola, quando foi confirmada a arena na ZL.

Se o Corinthians não deixará de ser Corinthians, há um cuidado para que a insanidade herdada de Neco, Idário e Luizinho seja canalizada da melhor maneira possível. “A gente vai continuar sendo um bando de loucos, de favelados, de maloqueiros, de sofredores. Só temos que tomar cuidado e proteger o nosso ninho”, avisa o Favella. A favela concorda.

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