Futebol/Copa 2014 - ( - Atualizado )

Bigode do treinador atrapalha, segundo surda que cobre Seleção

Tossiro Neto Teresópolis (RJ)

O receio de Luiz Felipe Scolari de passar por leitura labial o tem levado a se virar de costas para as câmeras e até a tapar a boca com o boné quando conversa com alguém em campo. Talvez o treinador não saiba que seu bigode, por si só, já faz grande parte do serviço, conforme explica Clarissa Guerretta, repórter surda que acompanha a preparação da Seleção Brasileira na Granja Comary.

"É muito comprido, só dá para ver os lábios inferiores, não dá para ver os lábios superiores", disse, comunicando-se através da língua brasileira de sinais (Libras), traduzida à reportagem pela intérprete Andreza Macedo. "Para conversar comigo, tem que tirar o bigode. Se o Felipão soubesse língua de sinais, a comunicação seria fluente, seria excelente", brincou.

Medo de leitura labial faz Felipão tapar boca e se virar de costas

O bigode, a propósito, é o sinal que ela definiu para simbolizar o técnico em suas transmissões na TV INES, canal online fruto de parceria entre o Ines (Instituto Nacional de Educação de Surdos) e a Acerp (Associação de Comunicação Educativa Roquette-Pinto). "Esse é o seu sinal para a comunidade surda", explicou ao próprio Felipão, na segunda-feira, no momento em que ele passeou pelas áreas de imprensa do local.

O treinador gostou da homenagem e foi bastante atencioso com a repórter, a qual havia conhecido no dia da convocação dos jogadores. Um outro lado daquele que, quando dirigiu Portugal, em 2006, foi exposto ao revelador quadro de leitura labial do Fantástico, assim como Carlos Alberto Parreira (então técnico e agora coordenador da Seleção). "Eu lembro que surdos oralizados faziam leitura labial à distância. Na maioria das vezes, estavam falando palavras imorais, palavrões", sorri a repórter.

Guerretta ficou surda meses depois de nascer e, apesar de ter domínio do português - é formada em Letras/Libras pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), inclusive -, prefere a linguagem sinalizada, na qual se pós-graduou pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Desde o início da semana, ela dispõe, além de intérprete e de um câmera, de produtores e editores para informar a comunidade surda sobre o que se passa na Granja Comary.

"É algo novo, não é fácil, porque são muitos jornalistas, um fluxo muito grande de gente, e eu preciso de um pouco mais de espaço para sinalizar. Algumas pessoas não conhecem, nunca viram um surdo ou uma apresentadora surda. Aí, eu preciso de espaço para sinalizar, para fazer uma pergunta na entrevista", conta a também professora, ensinando os milhares de jornalistas que se encontram em Teresópolis. "A língua de sinais é uma língua como outra qualquer".

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