Futebol/Copa 2014 - ( )

Último período de treinos em 50 começou com churrasco em Joá

Tossiro Neto Teresópolis (RJ)

Imagine Felipão, Neymar e companhia comendo carne e batendo papo com jornalistas no primeiro dia de preparação para a Copa do Mundo. Isso não ocorrerá nesta segunda-feira, em Teresópolis - o elenco passará pelos primeiros exames médicos, e haverá um atendimento formal à imprensa -, mas, em 1950, foi uma churrascada que inaugurou o último período de concentração da Seleção Brasileira antes da quarta edição do torneio.

Na manhã de 31 de maio, os jogadores e o técnico Flávio Costa (que tinha Vicente Feola como auxiliar) se apresentaram na Casa dos Arcos, chácara cedida por um conhecido esportista da época e que ficava localizada em Joá, pacato bairro do Rio de Janeiro. À uma da tarde, a Confederação Brasileira de Desportos (CBD, hoje CBF) ofereceu o banquete à delegação e aos cronistas que realizavam a cobertura das atividades da equipe. Paulo Machado de Carvalho, dirigente do São Paulo e fundador da Emissoras Unidas, também marcou presença.

A meia hora de automóvel do centro da cidade, o local serviu basicamente para alimentação e descanso dos atletas. Lá, eles dormiam e, pela manhã, realizavam apenas exercícios de ginástica e caminhada, antes de seguirem para os treinamentos, no campo do Vasco. Segundo A Gazeta Esportiva, "de fato, aquela residência mereceu ser escolhida para a concentração dos craques convocados. A vista é magnífica, o local encantador e o conforto é patente". "Ali", descreve ainda o jornal, estariam "muito bem instalados os jogadores" até a competição.

Antes da Copa Rio Branco e da Taça Oswaldo Cruz (disputadas e vencidas de forma simultânea, em maio, pelos times A e B, respectivamente), o grupo teve igual conforto em uma estância hidrotermal em Araxá (MG). "Os jogadores viveram irmanados, parecendo todos de um clube só", havia salientado, dias antes, Feola, o responsável por treinar o time durante aquele período, enquanto Costa viaja pela Europa para observar futuros adversários. Apesar dos elogios, a cidade mineira foi substituída, às vésperas da Copa, por ficar muito longe de São Paulo e da então capital Rio de Janeiro, onde seriam os jogos do Brasil - além do Maracanã, a equipe nacional atuou uma vez no Pacaembu.

Montagem sobre fotos de Gazeta Press
Na primeira foto, Juvenal, Tesourinha, Mauro, Brandãozinho e Baltazar descansam, após churrasco que selou a inauguração da concentração na chacará de Joá, onde a Seleção passou a ficar a partir de 31 de maio
O primeiro treino na fase final de preparação foi no dia seguinte ao churrasco. Dali em diante, tudo correu como se esperava, no que diz respeito à tranquilidade. Além da vista para as praias vizinhas e das piadas principalmente de Noronha e Rui, os jogadores se divertiam na piscina ou na mesa de sinuca. Até mesmo depois de 6 de junho, quando foi anunciada a lista final de 22 nomes, alguns dos cinco cortados permaneceram por lá, enquanto o time se preparava com jogos-treinos contra equipes cariocas (Bangu, Flamengo, América e Vasco) ou selecionados estaduais, em São Januário.

MUDANÇA POLÊMICA PARA SÃO JANUÁRIO

No decorrer da Copa, após empate com a Suíça na segunda rodada da primeira fase, o estádio vascaíno, utilizado também em algumas oportunidades entre Araxá e Joá, tornaria-se local de concentração integral. "As noites no Joá estavam sendo perturbadas pelas pessoas que passavam, atiravam pedras, gritavam, iam cantar, fazer serenatas, essas coisas. E eu, então, sem avisar ninguém, mudei para São Januário", justificou Flávio Costa, no documentário Copa de 50 - O dia em que o Brasil chorou, como resposta a quem afirmava que a mudança havia tido motivação política, em um ano eleitoral, no qual todos tentavam explorar o prestígio da Seleção.

A justificativa contradiz o treinador, que, passados dez dias em São Januário, tinha retornado com a equipe a Joá, logo após a goleada sobre a Suécia. Medida tomada com a intenção de deixar o elenco em repouso absoluto para a penúltima partida do quadrangular final, diante da Espanha. Só que, depois de uma noite e um dia na Casa dos Arcos, a concentração voltou para São Januário até a decisão. Na opinião dos jogadores, uma troca que, a despeito da goleada sobre os espanhóis, facilitou o entra e sai de pessoas e contribuiu para a perda do título para o Uruguai, no Maracanã.

"Perdemos a Copa na mudança que fizemos para São Januário", falou Zizinho, um dos atacantes do time, no mesmo filme. "Nós estávamos em uma casa tranquila, a Casa dos Arcos, na Barra da Tijuca, e viemos para São Januário. São Januário virou a sede política nacional. Eu assinei muitos autógrafos na véspera da partida. Havia fotografias montadas com o Brasil como campeão mundial de 50".

Em 2014, a programação da Confederação Brasileira de Futebol está detalhada com antecedência e, exceção feita às vésperas das partidas, as quais serão realizadas em outras cidades, não prevê outro local de concentração a não ser a Granja Comary. Mas há uma coincidência com 64 anos atrás: uma churrasqueira, construída na reforma da sede, a pedido do gaúcho Luiz Felipe Scolari.

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