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Antecessor de Gareca criou Academia, treinou Brasil e morreu na favela

Bruno Ceccon São Paulo (SP)

Com os pés descalços, dezenas de garotos correm atrás da bola no Centro Esportivo Filpo Núñez, batizado em homenagem ao último técnico argentino que passou pelo Palmeiras. Entre a maioria corintiana, Witalo Vinícius, 10 anos, é o único trajado com a camisa do clube alviverde no campo de areia localizado em Heliópolis. O garoto não sabe, mas o modelo de uniforme inspirado na Seleção Brasileira remete ao antecessor de Ricardo Gareca que, magoado com o time palestrino, morreu na favela da Zona Sul.

Embora tenha conquistado apenas um título pelo Palmeiras, o Rio-São Paulo-1965, Nelson Ernesto Filpo Núñez é considerado o mentor da célebre Academia de Futebol. Na mesma temporada do campeonato interestadual, ele atuou na partida em que a equipe representou a Seleção e venceu o Uruguai por 3 a 0, amistoso que marcou a inauguração do Mineirão. Até hoje, o argentino nascido em Buenos Aires é o único estrangeiro a dirigir o Brasil.

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Em três passagens pelo Palmeiras, Filpo acumulou 154 jogos. No Brasil, treinou uma infinidade de clubes, como Cruzeiro, Vasco e Corinthians. Ao longo da carreira, o argentino trabalhou em 10 países, entre eles Espanha e Portugal. Com o dinheiro recebido como técnico, comprou uma casa confortável e chegou a ter quatro carros na garagem - à Gazeta Esportiva, no ano de 1980, disse que poderia se aposentar “com as vacas na sombra”.

Adepto do futebol ofensivo, Filpo batizou seu sistema de “pim-pam-pum”, estilo baseado em rápidas trocas de passe rumo ao gol. Considerado folclórico, acabou taxado de ultrapassado precocemente e, na jogatina, perdeu o dinheiro recebido no futebol. Em 1996, o argentino sobreviveu a um incêndio no hotel em que vivia, na Avenida Cásper Líbero. Desalojado, passou a dormir em uma fatia de espuma com menos de 5cm de espessura na casa de um conhecido, mas foi obrigado a sair.

Ao tomar conhecimento da situação de Filpo Núñez, o pastor Carlos Altheman, da Ação Social Jerusalém, se dispôs a abrigá-lo. Com um velho baú como único patrimônio, o antigo técnico da Academia chegou à favela de Heliópolis em 1998. Ele passou menos de dois anos no local, mas deixou saudades e foi homenageado ao nomear o centro esportivo que o pequeno Witalo Vinícius costuma frequentar devidamente trajado com a camisa amarela do Palmeiras.


“Arrumamos um quarto para o Filpo, mobiliamos, compramos roupa. A verdade é que ele era bem paparicado”, lembra Altheman, sorridente. “Às vezes, ainda fico pensando: era uma celebridade e esteve aqui conosco. Aceitou morar em um lugar muito simples. Mais simples do que isso, impossível. O grande técnico do Palmeiras veio viver na favela com a gente. Para nós, foi uma grande honra, um presente que caiu do céu. É motivo de grande orgulho tê-lo recebido”, afirmou o pastor evangélico.

A Ação Social Jerusalém oferece uma série de cursos gratuitos à comunidade. Vaidoso, Filpo aproveitava as aprendizes de cabelereiras para manter o cabelo pintado e as unhas feitas. Mimado, costumava comer as massas que adorava quase todos os dias, especialmente raviólis. Em contrapartida, o ex-técnico de Ademir da Guia treinava um grupo de 97 meninas em um antigo lixão transformado em campo de futebol, à época com pedras e cacos de vidro no piso.

“O Filpo contribuiu muito em Heliópolis. Era uma pessoa sensacional, muito amável. Amigo das crianças, dos idosos, de todo o mundo. Aprendemos a amá-lo. Por outro lado, sentimos que ele também estava contente conosco. Depois de passar pelo mundo do futebol, que é um meio muito complicado, pôde ver que ainda existiam pessoas boas, que nem todos queriam levar vantagem sobre os outros. Aqui, encontrou tudo que precisava naquele momento da vida”, disse o pastor.

Acervo/Gazeta Press
Criador da Academia, Filpo Núñez comandou o Palmeiras como Seleção na vitória sobre o Uruguai em 1965
O argentino costumava ser convidado para comandar times de várzea em determinadas partidas e participar de programas de televisão. Sem dinheiro para retornar à residência de táxi, percorria grandes distâncias a pé ou varava a madrugada à espera dos ônibus coletivos. Orientado por Carlos Altheman, Filpo Núñez passou a cobrar para dirigir as equipes e exigir transporte de ida e volta até sua nova casa para aceitar os chamados da imprensa.

“Durante anos, mantive amizades que não eram verdadeiras. Vivia em um mundo de fantasia, de pura hipocrisia”, afirmou Filpo em matéria publicada na edição de 16 de novembro de 1998 do jornal A Gazeta Esportiva. “Ganhei muito dinheiro. Perdi tudo jogando, gastando. Cheguei a um ponto em que não tinha mais vontade de viver. Hoje, aterrissei com uma bíblia na mão. Sou grato a Deus por encontrar a paz que nunca tive em 42 anos de profissão”, disse, em uma de suas últimas entrevistas.

Com a autoestima fortalecida, Filpo Núñez, aos 78 anos, pediu Marlene Câmara Salviano em casamento – o técnico morreu poucos meses antes de oficializar a união. Satisfeito com a reviravolta em sua realidade, o argentino levou até o final da vida o desgosto com o Palmeiras. De acordo com o pastor Carlos Altheman, ele sentia uma espécie de falta de reconhecimento por parte do clube que dirigiu em mais de 150 partidas nos anos 1960 e 1970.

“Sempre que a gente conversava sobre futebol, surgia esse assunto. O Filpo falava: Pastor, tiraram a palavra ‘gratidão’ do dicionário. Ele era mais respeitado pela Portuguesa Santista. Uma vez, visitamos a sala de troféus do Palmeiras juntos e ele ficou sentido por não ter nem sequer uma foto no local. ‘Eu montei a Academia’, dizia. No final da vida, morando conosco em Heliópolis, acho que o Filpo sentiu que a palavra gratidão tinha entrado novamente no dicionário”, contou.

Fernando Dantas/Gazeta Press
Jim López, Abel Picabéa, Armando Renganeschi, Filpo Núñez e Alfredo González antecederam Gareca (foto)
Naturalizado desde 1969, Filpo se dizia um “argentino de coração brasileiro”. O técnico costumava citar com orgulho um gol marcado por Gildo contra o Vasco em 9 segundos no Rio-São Paulo-1965, consequência do “pim-pam-pum”. Mas considerava o amistoso diante do Uruguai o maior momento da carreira. O treinador, magoado, garantia que sua imagem fora cortada da clássica foto dos jogadores perfilados antes da partida no Mineirão – ele estaria na frente do goleiro Valdir Joaquim de Moraes.

“No vestiário, orientei o time a massacrar o Uruguai. Enfiamos 3 a 0. Depois daquela partida, eu já podia me aposentar. Sentia como se não tivesse mais nada a fazer no futebol. Nunca vou esquecer aquele dia”, disse Filpo, ressentido com o Palmeiras. “No meu baú, guardo medalhas e troféus conquistados ao longo de 42 anos de carreira. Pergunto: por que não existe uma única foto minha na sala de troféus do Palmeiras, se só dei títulos, glórias e alegrias ao clube?”.

Poucos meses antes do casamento com Marlene Câmara Salviano, Nelson Ernesto Filpo Núñez sofreu um ataque cardíaco, em março de 1999. Ele chegou ao hospital com vida e fez um sinal de positivo para o pastor Carlos Altheman, mas não resistiu. Ex-jogadores como Luís Pereira, Zé Maria, Gilberto Sorriso e Ivair compareceram ao velório em Heliópolis, além de Affonso Della Monica, então diretor do Palmeiras. Uma sobrinha, acompanhada pelo marido, veio da Argentina.

Então com 78 anos, Filpo estava cheio de planos – além de casar, pretendia trazer times da Argentina para realizar um festival em Heliópolis. Após o falecimento repentino do treinador, as recordações guardadas no velho baú foram transportadas para uma sala do centro esportivo que levaria seu nome. Quinze anos depois, vestido com a camisa inspirada no histórico amistoso de 1965, o jovem Witalo Vinícius posou para a Gazeta Esportiva com uma das poucas taças que restaram no local.

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