Futebol/Copa 2014 - ( - Atualizado )

Cenário de filme polêmico, praia acolhe alemães com festa e gozações

Helder Júnior, enviado especial Fortaleza (CE)

Quando ouviu que o destino daquela corrida era a Praia do Futuro, o taxista que levava a reportagem da Gazeta Esportiva abriu um largo sorriso. “Lá, está cheio de menininhas...”, comentou o sujeito, triunfante, antes de ser lembrado que o local é também o cenário de um filme que causou polêmica em Fortaleza. “Rapaz... Vocês querem ir até lá por causa disso? Não sei se o pessoal vai querer falar, sabe? Não é coisa de cabra macho, de cearense”, disse, às gargalhadas.

Homossexualidade é tabu no futebol

Lançado no mês passado, o filme “Praia do Futuro” conta a história de Donato (Wagner Moura, que se consagrou com o “cabra macho” Capitão Nascimento), um salva-vidas de Fortaleza que decide deixar o Brasil para viver um romance com o alemão Konrad (Clemens Schick), cujo amigo foi vítima de afogamento. As cenas de sexo entre os dois protagonistas já provocaram uma grande evasão de salas dos cinemas brasileiros. Mais de 40 pessoas abandonaram uma sessão no Maranhão. Em Aracaju, houve até ameaça de agressão física a um gerente do local. Em João Pessoa, um ingresso com o carimbo “Avisado” movimentou as redes sociais – a justificativa da rede Cinépolis foi de que o alerta se referia à apresentação de um documento de meia-entrada, e não ao conteúdo do longa-metragem dirigido pelo cearense Karim Aïnouz.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Com variadas opções de entretenimento, Praia do Futuro promete atrair os turistas alemães na Copa
Seja como for, a controvérsia não cessa ao cruzar o calçadão e pisar nas areias da Praia do Futuro. Até a Seleção Brasileira quando esteve em Fortaleza fez questão de reforçar o estereótipo alertado pelo taxista que estava mais interessado nas “menininhas”. A chegada da delegação chefiada por Luiz Felipe Scolari ao Nordeste para enfrentar o México no Castelão – onde gritos homofóbicos ecoaram das arquibancadas no dia do jogo – acabou anunciada da seguinte maneira pelo site oficial da Confederação Brasileira de Futebol (CBF): “Seleção está no Ceará, macho!”.

Quem está atualmente no Ceará é a Alemanha, país também retratado no filme que tem Wagner Moura como estrela. A seleção europeia que encantou índios baianos com bastante simpatia durante a sua estadia na Copa do Mundo do Brasil enfrentará os africanos de Gana às 16 horas (de Brasília) deste sábado, no Castelão. Até lá, a Praia do Futuro certamente será um dos locais prediletos de concentração dos torcedores europeus.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Alemão é padrinho do filho de Cacau

O engenheiro Ottmar Deeg foi um dos primeiros alemães a chegar a Fortaleza para assistir à partida entre Alemanha e Gana, neste sábado. A sua relação com o Brasil, no entanto, é muito mais antiga. Marido de uma brasileira que conheceu no Amazonas, quando trabalhava na construção de uma rede hoteleira, ele também é muito próximo de um jogador brasileiro naturalizado alemão.

O atacante Cacau, que disputou a Copa do Mundo de 2010 pela Alemanha, defende há mais de uma década o Stuttgart, clube de coração de Ottmar. As mulheres dos dois ficaram amigas por conta da religião – o engenheiro diz que a fé ajudou a inexplicavelmente salvá-lo de um grave problema de saúde – e aproximaram os esposos.

Recentemente, Ottmar se tornou padrinho de batismo do terceiro filho de Cacau, Davi, de um ano e meio. O alemão e o seu grupo de torcedores assistiram à abertura da Copa do Mundo deste ano na escolinha do jogador em Mogi das Cruzes. “Fiquei encantado em ver aquelas crianças cantando o Hino Nacional”, contou.

Os colegas de Ottmar também gostaram do que encontraram no Brasil depois de superarem o medo da violência e alguns percalços com hospedagem, transporte, desinformação e dificuldades para comprar ingressos.

“Mas o mais legal é que vocês, brasileiros, sempre dão um jeitinho com isso tudo. Veja só: na Alemanha, tudo estava pronto na Copa de 2006. Mas tomamos a marca de cerveja da Fifa, mesmo com uma tradição histórica em cervejarias. Aqui, não. É uma bagunça gostosa, com vendedores ambulantes para todos os lados”, sorriu o padrinho do filho de Cacau.

“Eles podem vir à vontade. Todos são bem-vindos. Mas é bom já se prepararem para as gozações”, avisou o sorveteiro João Batista Teodoro, que trabalha há um ano e meio na Praia do Futuro. “Sou mineiro, então não fui afetado por esse filme. Os cearenses que frequentam aqui, sim, estão louquinhos. Mas não precisa ter preconceito, não é?”, completou, soando um apito que levava consigo, empolgado. Para embasar o discurso, ele ainda olhou para a câmera que o filmava e convidou em inglês – diz ter morado nos Estados Unidos – os alemães de todas as orientações sexuais a conhecer o ponto turístico de Fortaleza.

De fato, muitos cearenses “estão louquinhos” com o filme de Karim Aïnouz. Os salva-vidas da Praia do Futuro, principalmente. Dois deles, Pedro Araújo e Rafael Costa, ouviram ressabiados algumas perguntas sobre o fluxo de estrangeiros no local durante o Mundial. Disseram não ter havido qualquer ocorrência de afogamento no período e afirmaram que só podiam ver os jogos do Brasil na Copa se não estivessem em serviço. Bastou a primeira questão sobre a história de amor entre um salva-vidas brasileiro e um turista alemão para a dupla se impacientar definitivamente.

“Isso é sacanagem, não? O filme de veadagem? Não, não, não... Sabia que viria isso aí”, protestou Pedro. “Vai querer saber se assistimos ao filme juntos?”, emendou Rafael, rindo. “Ninguém viu esse filme aqui, não! E nem vai ver. Não tem coisa alguma de alemão”, insistiu o outro salva-vidas, antes de resolver se calar. Os dois ainda pediram para não ser fotografados.

Mesmo que fosse a contragosto de um ou outro salva-vidas dali, os alemães já circulavam alegremente pela Praia do Futuro uma semana antes do jogo contra Gana. Alguns metros adiante de Pedro e Rafael, o engenheiro Ottmar Deeg era um dos que vestiam a camisa rubro-negra da seleção europeia e divertia-se com os encantos da região.

Casado com uma brasileira que conheceu há 20 anos no Amazonas, quando trabalhava na construção de um complexo hoteleiro, Ottmar fala um português carregado de sotaque e ciceroneava um grupo de compatriotas na excursão pelo Brasil. “Eles estão encantados com as belezas dessa praia. Veja: temos tudo o que imaginarmos aqui. O nosso hotel é muito ruim, com bichos e tudo, mas isso compensa”, comentou, enquanto os seus amigos escolhiam uma mesa próxima a um palco, onde uma banda de forró se apresentava, para degustar caipirinhas.

Entre os atrativos da Praia do Futuro, há uma verdadeira festa. Grandes barracas oferecem telões para os torcedores assistirem às partidas da Copa do Mundo, além de pratos típicos, piscinas (com salva-vidas e tudo), lojinhas e espetáculos de humor com artistas cearenses. Nas areias, os turistas facilmente encontram brasileiros dispostos a jogar futebol. Há peladas com mexicanos, criticados pelo estilo de jogo mais ríspido, e uruguaios. “Vamos ter que fazer time de fora com esses caras do Uruguai aí? Não devem jogar nada”, reclamou um garoto para o outro. A bola que rolava diante deles na areia era uma Brazuca, oficial do Mundial.

Todo esse ambiente encantou Ottmar e os seus amigos alemães, que interagiram com algumas “menininhas” da Praia do Futuro. Apesar de ter se mostrado um grande conhecedor da cultura brasileira, o líder do grupo de turistas ainda não tinha ouvido falar do filme com Wagner Moura. “Não sei se os alemães vão aceitar bem isso. Somos um povo mais frio e conservador, que leva tudo muito a sério”, comentou, informalmente.

No momento em que a conversa passou a ser gravada – e ao escutar a palavra “homofobia” –, Ottmar começou a mudar o seu ponto de vista. “Podem até fazer gozações com a gente aqui, que não há problema. A minha mulher já me contou sobre esse filme. Está sendo muito bem aceito na Alemanha, sim”, sorriu o torcedor, que irá a outras cidades brasileiras ao longo da Copa do Mundo.

A maré da Praia do Futuro, contudo, também é capaz de levar embora sentimentos homofóbicos. Rodeado por amigos que alertavam turistas para a violência de Fortaleza, o funcionário público Maurício Mello foi um cabra macho o suficiente para salvar algumas vidas do preconceito no litoral cearense entre um gole e outro de cerveja. “Eu já vi o filme”, avisou. “Essa polêmica não deve existir. Um monte de gente está indo embora dos cinemas – e eu mesmo presenciei isso –, mas não tem nada a ver. É uma história de amor como outra qualquer”, acrescentou, convicto, sem sofrer represálias dos colegas. Maurício é paulista, de Mogi das Cruzes. E deixou a homofobia em alguma praia do passado.

Diretor e elenco de “Praia do Futuro” combatem a homofobia
Joe Dilwortth/Divulgação

Os envolvidos na produção de “Praia do Futuro” prontamente reagiram à polêmica criada pelas cenas de sexo homossexual do filme. Confira algumas declarações:

“O filme não é gay. É um tanto homofóbico taxar qualquer filme assim. Quando você assiste a ‘Missão Impossível’ ou ‘Instinto Selvagem’, fica pensando que é um filme heterossexual? Vamos parar com isso. Está ficando muito excessivo”Karim Aïnouz, cineasta.

“O Brasil é um país conservador. Para mim, a homossexualidade não deve ser assunto. Acho muito mais forte a questão do abandono presente no filme. Donato é o meu personagem mais próximo do Capitão Nascimento”Wagner Moura, ator.

“Vivemos em um mundo no qual ser gay é errado. Por que ninguém me pergunta como fiz para me preparar para interpretar um personagem homossexual? Quero ser idealista e pensar que, no futuro, esse tipo de pergunta não será mais levantada”Clemens Schick, ator.

Além de divulgar as posições de brasileiros e alemães que participaram de “Praia do Futuro”, a produção combateu a controvérsia com uma campanha nas redes sociais, com o lema “Homofobia não é a nossa praia”.