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Treinador de Marilson comanda projeto beneficente em Heliópolis

Bruno Ceccon São Paulo (SP)

Um grupo de jovens de Heliópolis conta com a experiência do mentor de Marilson Gomes dos Santos para se desenvolver no atletismo. Adauto Domingues, técnico do principal fundista brasileiro, comanda um projeto beneficente na comunidade da Zona Sul da capital paulista desde 2012.

Descalças e trajadas com camisas de clubes de futebol, os jovens treinam em um campo de areia. Adauto Domingues, responsável por estruturar o projeto, visita o local periodicamente, às vezes ao lado de Marilson, com a finalidade de acompanhar o trabalho desenvolvido pelas monitoras, formadas em educação física.

Para transformar o surrado campo de futebol de areia em pista de atletismo, a criatividade é proporcional à falta de recursos. Com equipamentos improvisados, as monitoras propõem ao grupo de jovens exercícios de corridas, saltos e até lançamentos.

“O objetivo principal é usar o atletismo como mecanismo de educação. Queremos incutir na cabeça dessas crianças algumas questões sobre cidadania. Além disso, o esporte pode abrir novas perspectivas, principalmente em comunidades carentes, como por exemplo a chance estudar uma profissão bom bolsa”, disse Adauto Domingues à Gazeta Esportiva.

O projeto é ligado à Ação Social Jerusalém, entidade evangélica comandada pelo pastor Carlos Altheman. Adauto e o religioso fazem questão de esclarecer que encontrar um ‘novo Marilson’ não é a prioridade da empreitada, mas ambos sonham com essa possibilidade.

“Há diamantes em Heliópolis que precisam ser lapidados. Tenho certeza que daqui ainda vai sair um campeão”, disse Altheman, sem perder o foco. “Mas o objetivo é segurar as crianças e dar a chance de elas fazerem o que gostam: praticar esporte. Não querem ficar na mão de traficantes, trocando tiros com a polícia ou roubando”, afirmou.

O atletismo é um dos esportes que mais oferecem medalhas nos Jogos Olímpicos. No Brasil, sede da próxima edição do evento, a BM&F Bovespa, agremiação defendida por Adauto Domingues e Marilson, é o único clube da modalidade suficientemente estruturado, o que mantém inúmeros talentos ocultos pelo País.

Lembrado pela parceria com Marilson nos últimos anos, Adauto Domingues foi um atleta de ponta. Nos 3.000m com obstáculos, sua especialidade, ele conquistou o bicampeonato pan-americano em Indianápolis-1987 e Havana-1991. Nos Jogos Olímpicos de Seul-1988, alcançou a semifinal.

De origem humilde, Adauto contou com o amparo dos Patrulheiros Mirins de São Caetano, entidade fundada em 1959, para iniciar a bem-sucedida carreira no atletismo. Na quadra de areia de Heliópolis, não faltam candidatos a repetir a trajetória do tutor.

“Em um simples aquecimento de oito voltas, você já consegue perceber que há garotos com habilidade acima da média. É difícil, porque chega uma idade em que eles começam a ser cobrados para dar algum retorno (financeiro) em casa, mas se aparecer um talento, será bem encaminhado”, afirmou Adauto.

ENTIDADE BUSCA PATROCÍNIO
Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press

A Ação Social Jerusalém, entidade evangélica responsável pelo projeto beneficente comandado por Adauto Domingues em Heliópolis, atualmente está em busca patrocínio.

“Nossas crianças estão crescendo e precisam ter algum objetivo na vida. É esse tipo de coisa que procuramos oferecer. Queremos continuar e precisamos de apoio”, disse o pastor Carlos Altheman.

O empresário Victor Malzoni, entusiasta do atletismo, contribuiu financeiramente com o projeto nos anos de 2012 e 2013. Grato pelo apoio, Altheman agora procura novas alternativas para manter o programa.

Como preparação para as competições das quais vêm participando, alguns jovens foram levados para acompanhar eventos profissionais no estádio Ícaro de Castro Mello e para uma espécie de tour pelo moderno centro de treinamento inaugurado pela BM&F Bovespa em 2012, frequentado por estrelas como Fabiana Murer e Duda, além do próprio Marilson.

“Antes de sair do campo de areia para competir, é importante que as crianças tenham noção do atletismo na realidade. Quando elas chegam ao CT da BM&F, ficam maravilhadas, porque é um mundo novo. O local não está tão longe daqui, mas parece muito distante. Se você consegue encurtar essa distância, é muito legal”, disse Adauto.

As crianças que integram o projeto beneficente têm a chance de contar com os ensinamentos de um bicampeão pan-americano, atual técnico do renomado Marilson Gomes dos Santos. No entanto, de acordo com o próprio Adauto, os jovens não são os principais beneficiados.

“Talvez o maior privilegiado nessa história toda seja eu mesmo. É aquela coisa de você ficar bem por ver os olhos dos garotos brilhando e sentir que criou uma chance nova. Queremos mostrar que há outras coisas no mundo e que eles podem sonhar. Para mim é muito prazeroso estar aqui. A dificuldade ajuda a formar personalidade e caráter”, disse.

AÇÃO SOCIAL JERUSALÉM ACOLHEU FILPO NÚÑEZ EM 1998
Pastor Carlos Altheman (à esq.) ao lado do técnico Filpo Núñez. Foto: Arquivo Pessoal


O humilde campo de areia utilizado pelo técnico Adauto Domingues em Heliópolis integra o Centro Esportivo Filpo Núñez. A Ação Social Jerusalém, entidade evangélica ligada do projeto de atletismo beneficente, acolheu o antigo treinador do Palmeiras entre os anos de 1998 e 1999.

Pelo clube alviverde, o técnico argentino conquistou o Rio-São Paulo-1965 e montou o time que ficou conhecido como Academia de Futebol. Na mesma temporada do título interestadual, atuou na partida em que a equipe representou a Seleção Brasileira e venceu o Uruguai por 3 a 0, amistoso de inauguração do Mineirão.

Único estrangeiro a dirigir a Seleção, Filpo Núñez perdeu o dinheiro recebido como treinador na jogatina e, sem recursos financeiros, foi recebido pelo pastor Carlos Altheman na Ação Social Jerusalém. Vítima de um ataque cardíaco, ele faleceu em março de 1999, aos 78 anos, meses antes de se casar com Marlene Câmara Salviano.

 

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