Futebol/Copa 2014 - ( - Atualizado )

Iugoslavos não pagaram hotel e tiveram "craque de saias" em 1950

Helder Júnior São Paulo (SP)

País que deu origem à Croácia (e também a Sérvia, Bósnia e Herzegovina, Eslovênia, Macedônia e Montenegro), rival da Seleção Brasileira na abertura da Copa do Mundo de 2014, a Iugoslávia chamou a atenção em sua participação no primeiro Mundial realizado no Brasil. Não tanto pelos resultados obtidos em campo, já que acabou eliminada na primeira fase em 1950, mas por algumas passagens curiosas – como não pagar a sua estadia em hotel de Belo Horizonte e contar com um “craque de saias” em um treinamento no Rio de Janeiro.

Integrante do grupo do Brasil naquela Copa, assim como México e Suíça, a Iugoslávia era considerada a principal adversária do time dirigido por Flávio Costa na luta por uma vaga no quadrangular final. Até Rudolf Stadler, chefe da delegação suíça, reconhecia com uma franqueza exagerada: “Os iugoslavos são adversários magníficos, têm excelente padrão de futebol. Mas contamos com a vitória, o que será melhor para o Brasil, que poderá ganhar mais facilmente o Campeonato do Mundo. Somos mais fracos. Os brasileiros terão grande trabalho contra os iugoslavos e poderão até perder. Por isso, para o Brasil, é preferível que a Suíça vença a Iugoslávia”.

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O discurso de Stadler conseguiu convencer os jornalistas brasileiros da época, que não nutriram tanta simpatia pela seleção da Iugoslávia. A maior oponente do Brasil no grupo 1 do Mundial de 1950 teria sido fria durante a sua passagem por Belo Horizonte. “Muito diferente dos iugoslavos, os suíços são mais espontâneos e de gênio mais alegre”, comparou o jornal A Gazeta Esportiva. Mais tarde, o futuro campeão Uruguai também se mostrou cativante, segundo o mesmo diário: “Espontâneos, corretos e alegres, os craques uruguaios são bem diferentes da gente balcânica que esteve entre nós”.

Reprodução/A Gazeta Esportiva
O jornal A Gazeta Esportiva destacou as curiosidades da participação iugoslava na Copa de 1950
Agradando ou não aos brasileiros, a Iugoslávia justificou o favoritismo contra a Suíça e ganhou por 3 a 0 em sua estreia na Copa, diante de 7.336 torcedores presentes no Estádio Independência. Ao deixar Belo Horizonte, no entanto, o time protagonizou uma polêmica. “Muito ‘esquecidos’ os eslavos: deixaram de pagar o hotel...”, contou A Gazeta Esportiva, em um título irônico.

A Confederação Brasileira de Desportos (CBD) havia dado 30.000 cruzeiros para a Iugoslávia arcar com as despesas de seis diárias no Grande Hotel de Belo Horizonte, que já não existe mais. Ao seguir para Porto Alegre, contudo, os iugoslavos não quitaram a hospedagem. A dívida sobrou para Arno Frank, representante da Comissão de Finanças da Copa do Mundo, que se irritou e pediu para a CBD descontar o valor de futuras verbas destinadas à delegação europeia.

A confusão não atrapalhou o desempenho da Iugoslávia em campo. Já em Porto Alegre, no Estádio dos Eucaliptos, os iugoslavos derrotaram o México por fáceis 4 a 1. Só não foram adiante na Copa porque esbarraram no Brasil e em 142.000 torcedores presentes no Maracanã. Os gols de Ademir e Zizinho garantiram a vitória brasileira por 2 a 0 e a obtenção da única vaga do grupo 1 no quadrangular final.

Divulgação
Oriunda da Iugoslávia, a Croácia veio ao Brasil para abrir a Copa com os anfitriões (foto: Drago Sopta)
Eliminada, a Iugoslávia permaneceu no Brasil por mais algum tempo, por falta de voos para a Europa. Para piorar, era a delegação balcânica que passava a arcar com a sua estadia, pois a CBD e a Fifa colaboravam com as despesas somente enquanto os países ainda estavam na disputa pelo título mundial.

Para manter a forma, a Iugoslávia continuou a treinar em solo brasileiro. Mostrou “alta classe”, segundo A Gazeta Esportiva, em uma movimentação realizada nas Laranjeiras. Mas não foi somente o rendimento dos homens que ganhou destaque no jornal. “A nota curiosa de ontem: craque de saias no treino dos iugoslavos...”, noticiou. O reforço do time tratava-se da “senhorita Kurmann, secretária do sr. Schirker, um dos altos dirigentes da Fifa. E, por incrível que pareça, mesmo jogando num quadro de homens, a senhorita Kurmann revelou apreciáveis pendores para o futebol, marcando com regular eficiência e rebatendo com uma facilidade das maiores”.

Já sem a sua craque, a Iugoslávia ainda passou por Recife, onde realizaria um amistoso contra a seleção pernambucana na Ilha do Retiro, antes de retornar para casa. Mais de seis décadas depois, os balcânicos voltaram a enfrentar o Brasil longe da Europa. A Sérvia perdeu o amistoso do último fim de semana por 1 a 0, no Morumbi, e a Croácia será a adversária da abertura da Copa do Mundo de quinta-feira, em Itaquera.

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