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Rainha de Itaquera agora vive em lar palmeirense, mas não veste verde

Marcos Guedes São Paulo (SP)

A rainha de Itaquera cedeu provisoriamente seu lugar à Fifa e a gente como David Luiz, Dilma Rousseff e Pitbull, presenças confirmadas na abertura da Copa do Mundo. A vira-lata Coringa – que “comandava tudo” no estádio da zona leste de São Paulo durante a construção, nas palavras do gerente de operação da obra, Frederico Barbosa – agora mora na Vila Prudente, também na ZL, com o operário Carlos Nogueira.

O supervisor de segurança levou a cachorra para casa no dia 5 de maio, quando acabou o trabalho de sua equipe na arena do Corinthians. Adotada por Nogueira ainda no início das obras, época em que o estádio era tão palpável para os torcedores quanto a conquista da Copa Libertadores, ela voltará a frequentar a casa alvinegra passada a loucura do Mundial. Será sempre majestade nas visitas por lá, embora hoje viva em um lar onde predominam outras cores.

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“É... Sou palmeirense, sim”, admite Nogueira, desconcertadamente, antes de explicar que não tentará converter o xodó daqueles que ergueram a sonhada morada corintiana. “Pode ver que ela está de preto.”

Arquivo Pessoal
Coringa é tão "Curinthia" que tinha o costume de prestigiar os treinos das categorias de base
Mesmo que insistisse na conversão, o segurança não teria sucesso. Coringa é tão maloqueira que já teve o costume de acompanhar até os treinos das categorias de base do Corinthians. Ela (sobre)vivia no terreno onde hoje fica o palco da abertura do Mundial desde que ali funcionava o CT dos garotos do clube. Quando começou de fato a construção do estádio, conquistou os operários.

“É uma figura, participou de tudo. Ela ganhou uniforme do Corinthians, ganhou rosa no Dia Internacional da Mulher. Tem foto com capacete de todo o mundo. Ela foi muito bem tratada lá, acabou ficando como nossa mascotezinha”, conta Frederico Barbosa, que fracassava na tentativa de mantê-la longe do refeitório. “Era para ela comer só a ração, né? Mas estava sempre lá. Um dia, foi até o segundo andar e conseguiu, não sei como, chegar ao isoporzinho. Pegou umas seis coxinhas.”

Arquivo Pessoal
Fiel nasceu em Itaquera
Antes, Coringa não era tão bem alimentada. Chegou a ser apelidada de Costelinha pela magreza antes que ganhasse um nome definitivo em alusão a um dos apelidos do clube do Parque São Jorge, Coringão. Aí, passou a ser tratada a pão de ló e a coxinha, recebendo o carinho não só de Nogueira e de Barbosa mas de muita gente da obra, como o vigia Jurandir, seu companheiro noturno.

Ela não era o único cachorro da área, que era repleta deles e recebia novos, abandonados, com frequência. Boa parte ganhava cuidados veterinários, como Sorriso, o simpático e desdentado vira-lata atacado por um pitbull que não era rapper. Alguns, como Fiel, nascido ali mesmo com sete irmãos, eram adotados por operários ou parentes de operários.

Arquivo Pessoal
O palmeirense Nogueira adotou Coringa sem a vestir de verde
Nenhum marcou tanto quanto a verdadeira dona do pedaço. A higienização padrão Fifa – que acabaria tirando de lá, nas vésperas da abertura da Copa, alguns dos cães por meio do Controle de Zoonoses da prefeitura – fez Nogueira levar para casa sua companheira nas rondas. Terminado o Mundial, promete o segurança, ela terá a oportunidade de rever o reino que emprestou para o mundo.

Mesmo não morando mais no estádio que ajudou a construir, a cadela-vigilante não consegue ficar longe de sua zona leste. A ZL dos trabalhadores, do Expresso da Copa, das greves do Metrô. A carente ZL, que põe água no feijão e recebe o planeta com orgulho. A ZL onde uma vira-lata corintiana pode encontrar amor em um teto palmeirense para fugir da carrocinha.

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