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Sem complexo, Brasil abre Copa do Mundo no reino vira-lata de Coringa

Marcos Guedes e Raul Flávio Drewnick São Paulo (SP)

Sessenta e quatro anos após o dia em que “Obdulio nos tratou a pontapés” no Maracanã, o Brasil volta a jogar uma partida de Copa do Mundo em seu território. Se ainda existe em algum nível, o “complexo de vira-latas” observado por Nelson Rodrigues na dolorosa derrota para o Uruguai em 1950 já foi varrido a ponto de a hoje pentacampeã Seleção fazer a sua estreia no Mundial na casa de uma simpática cachorra sem raça. E a ponto de o país se orgulhar por cobrar as coisas do seu jeito, com raça.

Presença constante no terreno do estádio de Itaquera desde o tempo em que lá funcionava o centro de treinamento das categorias de base do Corinthians, Coringa reinou no local durante toda a construção da arena. Vários cachorros apareceram ao longo da obra, sendo bem tratados, mas só a cadela batizada em referência ao apelido Coringão repetiu o time alvinegro ganhando casinha própria – e mimo de Cleópatra, com simplicidade de Elisa.

Veja fotos da cadela que ajudou a erguer arena da abertura da Copa
Rainha de Itaquera agora vive em lar palmeirense, mas não veste verde
Pickles achou taça em 1966 e foi celebridade até morrer caçando gato

Coringa não escolheu o caminho mais fácil. Se acompanhava os operários no refeitório e ganhava deles seu café da manhã, também acompanhava o supervisor de segurança Carlos Nogueira nas rondas. “É incrível, mas ela observava coisas que a gente não conseguia ver e latia”, conta Nogueira. “Foi bem tratada, mas trabalhou muito. Se fôssemos pagar as horas extras dela...”, sorri o engenheiro Frederico Barbosa, gerente de produção da obra.

Arquivo Pessoal
O Brasil continua doce como a simpática e trabalhadora Coringa, mas não gane mais de humildade
Assim é o Brasil que não se curvou ao famoso “padrão Fifa” de qualidade, questionável e obtido por meios altamente questionáveis. E, de fato, questionados. Calar-se era o caminho mais tranquilo, mas o ex-vira-lata não ganiu de humildade. Preferiu latir, apontar o que observava de errado e se fez ouvido. Vai ter Copa, sim, porém ela vai ter a cara verde-amarela, já sem a marca da pior malandragem e da vantagem a qualquer custo.

“É um momento de revolução. Acredito que a gente tem que transformar o Brasil. Que bom que essa discussão começou. É algo positivo, louvável, desde que haja paz e respeito”, comentou a cantora Claudia Leitte, que se apresentará na abertura do Mundial ao lado do rapper Pitbull. “Sou uma brasileira como outra qualquer. Sou honesta e vou me apresentar para o mundo inteiro. Isso é mais do que cantar. Da minha forma, estou dizendo para o meu povo que, se estou aqui, você também pode.”

Ao que tudo indica, os protestos contra os problemas em diversas áreas do país serão menos agressivos dos que os registrados no ano passado, com direta influência na Copa das Confederações. Mas o povo será novamente ouvido na Copa do Mundo, a ser aberta na carente zona leste de São Paulo. Se há o improviso, como mostra a espécie de calçada da fama informal formada pelas pegadas dos cachorros no cimento de Itaquera, ali estão as impressões digitais de um povo que deixa de ser vira-lata e jamais será pitbull.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Estádio de Itaquera tem sua calçada da fama informal: pegadas deixam rastro do improviso
A mascote da arena já não está mais lá, adotada pelo supervisor de segurança que ela seguia pela obra. Apegado à sua parceira de ronda, o palmeirense temeu que a limpeza da área exigida pela Fifa, com o recolhimento de animais pelo Controle de Zoonoses da prefeitura, levasse Coringa. “Foi desmobilizada a nossa base, e eu falei: ‘Vou fazer o quê?’. Fiquei com medo de que pegassem a Coringa e falei com um dos diretores da obra: ‘Estou com medo de deixar, vai passar a carrocinha’. E ele autorizou que eu ficasse com ela”, recorda Nogueira.

Morador da Vila Prudente, também na zona leste, o segurança promete levar Coringa para visitas a seu velho reino quando a Fifa não estiver mais por lá. A cachorra de Itaquera não tem raça definida, como o Brasil miscigenado, imperfeito, que ainda depende do improviso para dar certo. Um Brasil ainda com preconceitos, mas acolhedor, que enfim une vários povos na ZL dos pobres. Rica de alegria, dor e sofrimento, como o futebol.

Garrincha não foi páreo para cão em 1962

A história das Copas do Mundo, que ganhou na edição de 2014 a atuação nos bastidores da “segurança” Coringa, já tinha personagens caninos antes da participação heroica de Pickles em 1966. Em 1962, no Chile, até Garrincha foi feito de joão por um invasor no confronto entre Brasil e Inglaterra, pelas quartas de final.

O jogo teve de ser interrompido quando um cão preto deu o ar de sua graça, driblando aqueles que o tentavam controlar. Garrincha – que defendia o Botafogo, do cão-símbolo Biriba – não teve sucesso, e coube ao inglês Greaves agarrar o animal, depois de se aproximar dele de quatro.

Em seu caminho para o bicampeonato mundial, a Seleção venceu por 3 a 1 aquela partida, que ainda teria outra invasão canina. Na segunda oportunidade, nem Greaves conseguiu a captura, e o embate só foi reiniciado quando o invasor terminou seu passeio, passou por baixo do alambrado e partiu.

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