Futebol/Copa do Mundo - ( )

Com legado abaixo do esperado, Brasil recebe Copa ao seu “jeitinho”

Yan Resende, especial para a GE.Net São Paulo (SP)

Joseph Blatter, a uma semana do início da Copa do Mundo, disse não entender oque ocorreu no Brasil ao longo dos últimos sete anos. O presidente da Fifa relembrou a festa realizada em Copacabana quando o país foi escolhido como sede e usou isso para justificar o espanto ao se deparar com a população local engajada em protestos contra a realização do Mundial.

Neste momento, a Copa do Mundo, no entanto, é uma competição muito diferente do que foi proposto naquele tempo. À época da escolha, criou-se uma expectativa positiva com relação ao legado deixado pelo evento, não só por causa dos modernos estádios, mas também com as melhorias de mobilidade urbana, com a reforma de aeroportos e novos empreendimentos viários.

No dia 12 de maio deste ano, para comprovar que pouca coisa foi feita, o jornal Folha de S.Paulo fez um levantamento sobre as obras do país e indicou que apenas 41% do que foi planejado havia sido concluído. De 167 intervenções anunciadas, 68 estão prontas, e outras 88 (53%) ainda estão incompletas ou ficarão para depois da competição. Onze obras foram abandonadas e não sairão do papel.

Djalma Vassão/Gazeta Press
Finalizado em 2013, o Mané Garrincha, em Brasília, foi listado como o terceiro estádio mais caro do mundo
Para mostrar os investimentos e as obras que deveriam ser executadas até o Mundial, o Governo Federal criou uma Matriz de Responsabilidades, que hoje evidencia os atrasos no cronograma e justificam o desencantamento da população com a chegada da Copa. Se o setor de mobilidade urbana seria o mais beneficiado, somente 10% das obras estão finalizadas.

A Matriz de Responsabilidades também revela o aumento do preço dos estádios desde o anúncio que o Brasil seria a sede da Copa do Mundo. Em 2007, um levantamento da Fifa indicava que as praças esportivas custariam R$ 2,8 bilhões, mas a estimativa às vésperas da competição indicam um crescimento alarmante: cerca de R$ 8 bilhões devem ser gastos nas 12 sedes.

AFP
Às vésperas da Copa do Mundo, a população brasileira vem mostrando sua insatisfação
Os investimentos nos estádios apontam para outra alteração na postura dos responsáveis por trazer o Mundial ao país. Se a ideia era construir as 12 modernas arenas com dinheiro privado, os dados da Controladoria-Geral da União mostram que o Brasil esteve muito longe de alcançar o feito: dos R$ 8 bilhões, apenas R$ 820 milhões não partiram de iniciativas públicas.

Após o Mundial, para amenizar o ‘rombo’, parte deste dinheiro deve ser reposta, como, por exemplo, no caso da Arena Corinthians, que foi financiada por instituições governamentais, mas é uma iniciativa privada. A previsão é de que mais de R$ 4 bilhões devem retornar ao BNDES e à Caixa Econômica Federal, principais fiadores nas obras para Copa do Mundo.

Como já era possível imaginar, os custos com a Copa em geral também estão muito maiores do que era previsto inicialmente, ainda em 2007, quando a escolha da sede para 2014 animava a população brasileira. De acordo com a Matriz de Responsabilidades, o orçamento que era de R$ 23,6 bilhões saltou para R$ 25,8 bilhões, e ainda deve aumentar nos próximos dias.

Mesmo com os atrasos nas obras, o ministro Aldo Rebelo, na última quinta-feira, saiu em defesa do Mundial com um discurso historicamente adotado no país. De acordo com o responsável pela pasta do Esporte no Governo Federal, se não fosse a Copa do Mundo, o VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) de Cuiabá seria construído apenas nos próximos 20 ou 30 anos.

A questão é que o VLT, entre as obras mais caras da Matriz, com um custo de aproximadamente R$ 1,5 bilhão, não ficará pronto antes da Copa do Mundo, como era prometido. A população de Cuiabá poderá usufruir da novidade apenas no início de 2015. A cidade mato-grossense, aliás, não preocupa apenas por causa das obras de mobilidade, já que a Arena Pantanal também teve atrasos.

Marcelo Ferrelli/Gazeta Press
Palco da abertura da Copa nesta quinta, a Arena Corinthians ainda não teve um setor de arquibancada testado
A Copa do Mundo começa nessa quinta-feira em um palco que exemplifica o que foi vivenciado nos últimos sete anos. A escolha da Arena Corinthians para a abertura tinha a intenção de levar o progresso à zona leste de São Paulo, mas pouco foi visto pela população da região até o momento. O estádio sofreu com acidentes fatais e receberá Brasil x Croácia sem que parte da arquibancada tenha sido testada.

Ainda que as transformações na área sejam evidentes, os próprios responsáveis pela construção admitem que muitas coisas ainda devem ser feitas na zona leste de São Paulo. Enquanto isso, para receber os turistas estrangeiros e passar uma boa impressão, é preciso acionar o ‘jeitinho brasileiro’, tampando os problemas do País com um puxadinho aqui ou acolá.

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