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Protestando contra árbitros, balcânicos se despedem da Copa na 1ª fase

Marcos Vieira, especial para a GEnet São Paulo (SP)

Até o início dos anos 90, Bósnia e Herzegovina e Croácia faziam parte da Iugoslávia, território multiétnico formado após a Segunda Guerra Mundial (1945) e configurado sob o regime comunista. Ao longo da Guerra Fria, a federação constituída pela união de seis repúblicas mostrou-se instável e foi palco de sangrentas revoltas, com caráter nacionalista e separatista.

Após a morte do Marechal Josip Broz Tito, militar estadista e líder dos guerrilheiros da resistência iugoslava, a efervescência por autonomia se fez presente na região balcânica. Com exceção da Macedônia, que teve sua independência cedida tranquilamente, por causa da fraca política econômica, todas as repúblicas protagonizaram conflitos belicosos. O principal deles ocorreu na Bósnia e Herzegovina, que apenas foi cessado com o Acordo de Dayton (1995). O confronto genocida teve o índice de mortes superior a 200 mil.

No ano em que faz sua estreia na Copa do Mundo, a Bósnia aparece como uma pequena amostra do que foi a Iugoslávia nos tempos de Tito. O último censo realizado no país aponta a presença de 48% bosníacos, 37,1% sérvios e 14,3% croatas. Além do caráter étnico, a diversidade se faz presente no segmento religioso da federação balcânica, que expõe 46% adeptos islâmicos, 35% cristãos ortodoxos e 15% católicos.

Ídolo no Brasil, Petkovic analisa campanha de Bósnia e Croácia na Copa

Em solo brasileiro, a confraternização entre bósnios e croatas foi comum nas arquibancadas do Mundial. Na estreia da equipe de Dzeko e Ibisevic, diante da favorita Argentina, os tradicionais uniformes quadriculados em vermelho e branco se misturavam com o azul e amarelo no Maracanã. Atualmente, há quem diga que as rusgas balcânicas estão resolvidas. Porém, um recente duelo entre Sérvia e Croácia, válido pelas Eliminatórias Europeias para a Copa-2014, necessitou de torcida única em Zagreb-CRO e foi controlado à risca pela Uefa, que ameaçou sanções internacionais aos países em caso de confusão.

Mesmo com o apoio conjunto apresentado na América do Sul, Bósnia e Croácia tiveram o mesmo destino: a eliminação na fase de grupos. E as coincidências entre os ex-iugoslavos, que chegaram com certo favoritismo ao Mundial, não se encerram neste fator. Ambos voltarão para a Europa com reclamações contra a arbitragem na bagagem. Na estreia da principal competição do futebol internacional, a Croácia mediu forças com o Brasil, na Arena Corinthians, e acabou superada por 3 a 1. Os comandados de Niko Kovac saíram na frente, mas acabaram o compromisso disparando contra a arbitragem do japonês Yuichi Nishimura. O nipônico foi contestado por marcar um pênalti polêmico no centroavante Fred (convertido por Neymar) e punir uma cotovelada desferida pelo camisa 10 brasileiro no meia Modric com o cartão amarelo

Marcelo Ferrelli/Gazeta Press
A Croácia saiu na frente do Brasil, com gol contra de Marcelo, mas terminou o jogo reclamando no Itaquerão

Claramente insatisfeito, o técnico croata adotou tom enfático quando chegou na sala de entrevistas do Itaquerão e pôs em xeque a organização do evento: “Foi ridículo. O slogan da Fifa é respeito, mas os ‘bilhões’ de pessoas que assistiram ao jogo viram que não foi pênalti. As regras do futebol servem para os dois times. Se a Copa continuar desta forma, vai virar um circo”.

No duelo seguinte, a equipe quadriculada goleou Camarões, em Manaus-AM, pelo placar de 4 a 0. O resultado expressivo realçou as esperanças de classificação da seleção europeia, que deixou uma boa impressão quando atuou contra a Seleção de Luiz Felipe Scolari. Porém, no duelo da terceira rodada, o México pôs fim à meta de figurar nas oitavas de final, aplicando o placar de 3 a 1 na Arena Pernambuco.

Por sua vez, a Bósnia encara como vilão o auxiliar neo-zelandês Mark Rule. O bandeirinha ergueu seu instrumento de forma equivocada e anulou um gol legítimo marcado por Dzeko no primeiro tempo do jogo contra a Nigéria, válido pela segunda rodada do Grupo F, quando o placar ainda estava 0 a 0. Os leões bem que tentaram apagar o erro criando boas chances, mas acabaram derrotados por 1 a 0, com gol de Emenike, e tiveram sua oportunidade de fazer história encerrada em Cuiabá-MT.

Após a partida, o centroavante bósnio do Manchester City-ING repetiu a insatisfação croata e não poupou críticas contra a arbitragem. “Estamos tristes pela circunstância da derrota. Foi muito injusta. A minha seleção está voltando para a casa e o mesmo deveria acontecer com o auxiliar, pois ele mudou o resultado do jogo”, disparou.

Em sua despedida, a Bósnia e Herzegovina encerrou o sonho iraniano de figurar nas oitavas de final, aplicando o placar de 3 a 1. O resultado positivo confirmou o ideal azul e amarelo antes do embate, exposto com emoção pelo meia Haris Medunjanin na Arena Castelão: voltar para os bálcãs de cabeça erguida.

AFP
O capitão Spahic comemora o triunfo da Bósnia sobre o Irã, em Salvador-BA: despedida de cabeça erguida