Futebol/Copa 2014 - ( )

Copa do Circo Voador teve sexo, drogas, rock'n'roll e futebol

Bruno Ceccon São Paulo (SP)

A cidade de Guadalajara conheceu a arte do futebol brasileiro ao receber os jogos da Seleção na Copa de 1970. Na edição de 1986 do Mundial, os mexicanos tiveram contato com os artistas do Circo Voador, que levaram uma “missão cultural” ao país para torcer pelo time de Telê Santana. O projeto acabou abortado no meio do caminho e a equipe parou nas quartas de final, mas a empreitada ainda é lembrada com carinho.

Parte dos cerca de 200 artistas do grupo viajou em um avião Hércules cedido pela Força Aérea Brasileira (FAB). Com a grande quantidade de equipamentos levados pela trupe, sobrou um espaço de aproximadamente 60 centímetros até o teto da aeronave. Desta forma, os passageiros viajaram praticamente deitados e precisavam se locomover rastejando.

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Perfeito Fortuna, um dos criadores do Circo Voador, idealizou a viagem do grupo a Guadalajara. Ele viabilizou a empreitada a partir de acordos com o governo brasileiro e a Coca-Cola mexicana, que se comprometeu a desembolsar US$ 500 mil. Pelo projeto, cada artista, com direito a passagem, hospedagem, alimentação e ingressos para as partidas, ganharia um cachê de US$ 500.

Os mais de 200 brasileiros, entre eles o cantor Alceu Valença, o ator Chico Diaz e o designer Gringo Cardia, partiram empolgados para o México, mas o projeto não correu conforme o planejado. O ginásio cedido ao grupo, localizado longe do centro de Guadalajara, prejudicou a empreitada. O golpe fatal foi dado pela Coca-Cola, que desistiu do acordo e retirou o patrocínio prometido anteriormente.

O documentário A Farra do Circo, atualmente em cartaz em São Paulo e no Rio de Janeiro, conta parte da história do movimento que revolucionou a cena cultural brasileira. A produção tem imagens preciosas captadas de 1982 a 1986 por Roberto Berliner, que dirige o filme em parceria com Pedro Bronz. A obra narra o nascimento do grupo no Arpoador e termina na atribulada missão cultural ao México.

Divulgação
Casagrande, titular do Brasil no começo da Copa, se divertiu em show de Alceu Valença com os artistas do Circo
Durante a Copa do Mundo, os organizadores reuniram o grupo e comunicaram o final prematuro do projeto. A cena, melancólica, é retratada no documentário dirigido por Roberto Berliner. Apesar das dificuldades enfrentadas em Guadalajara e da decepção com o final precoce da empreitada, o cineasta assegura que o saldo foi amplamente positivo.

“Lá aconteceu de tudo mesmo. Foram momentos sensacionais, incríveis, de diversão total. Sexo, drogas, rock’n’roll e futebol. Por outro lado, o final acabou sendo muito melancólico, porque afinal de contas artisticamente o projeto não deu certo. Não conseguimos apresentar tudo aquilo que queríamos. Foi frustrante nesse sentido, mas muito interessante em vários outros”, explicou Berliner à Gazeta Esportiva.

A Coca-Cola alegou falta de organização do Circo Voador para retirar o patrocínio. Já Enrique Alvarez del Castillo, então governador do Estado de Jalisco, citou uma suposta promessa de trazer astros como João Gilberto e Roberto Carlos, o que causa risos durante o documentário. Os artistas desmentem a versão, mas admitem a desorganização.

“Não estávamos tão comprometidos com nenhum patrocinador. Na verdade, a gente era um pouco isso. Hoje em dia, existe um compromisso muito maior em dar um resultado a quem financia. Então, todos os trabalhos, tanto na forma quanto no conteúdo, estão mais comprometidos com o apoiador do que antigamente. A gente vivia em um mundo menos profissional, menos formatado”, disse Berliner.

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O Circo Voador levou aproximadamente 200 artistas em uma missão cultural para apoiar a Seleção no México
Enquanto permaneceram no México, os artistas tiveram a chance de conhecer jogadores como Sócrates, Casagrande, Júnior, Alemão, Josimar e Júlio César, além de Mozer, que fora cortado. A convivência intensa entre os integrantes do Circo Voador em Guadalajara, conta Roberto Berliner, ainda serviu para engatilhar novos projetos culturais, como o grupo Intrépida Trupe.

“Estávamos todos no mesmo hotel. Cerca de 200 artistas diferentes convivendo 24 horas por dia em um projeto que aparentemente não deu certo, mas acabou juntando um monte de pessoas em novas empreitadas. Nesse momento começou também uma outra etapa do próprio Circo, em que todos se profissionalizaram mais. A coisa coletiva chegou ao fim ali”, atestou o cineasta.

A Farra do Circo estreou nos cinemas na semana passada no Rio de Janeiro em São Paulo. Futuramente, deve passar por outras capitais, como Brasília, Belo Horizonte, Recife e Porto Alegre. Além das imagens captadas por Berliner, a obra, orçada em R$ 300 mil, tem vasto material fotográfico. O documentário, co-produzido pelo Canal Brasil, também será exibido pela emissora de televisão por assinatura.

Ao longo dos 94 minutos do filme, cantores já consagrados, a exemplo de Gilberto Gil e Caetano Veloso, dividem espaço com então iniciantes, como Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso e Blitz. O grupo de teatro Asdrúbal Trouxe o Trombone, com Regina Casé, Luiz Fernando Guimarães, Evandro Mesquita e Perfeito Fortuna, e a mudança da “usina de sonhos” do Arpoador para a Lapa estão no documentário.

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Artistas brasileiros desfilam em Guadalajara
“O que posso falar sem modéstia é que filme é muito legal e fala de um momento do Brasil parecido com o de agora. Estávamos no final da Ditadura. As pessoas ficaram mais de 20 anos só reclamando, reclamando e reclamando, quando de repente uma galera se junta para efetivamente fazer, propor e tentar. O Circo Voador passou a ser um espaço de criação total, de um comportamento diferente, sem limites”, explicou Berliner.

Torcedor do Flamengo, o cineasta atualmente tenta se recuperar de problemas nos meniscos para retomar a carreira de peladeiro – os integrantes do Circo Voador costumavam jogar futebol fantasiados de palhaços. Embora seja contrário ao protocolo da Fifa, principalmente à padronização dos estádios, ele aprova a Copa do Mundo no Brasil e espera que as prováveis manifestações durante o torneio sejam construtivas.

“Hoje em dia, nas transmissões, todos os estádios parecem iguais. Eu sou a favor da Copa, mas não da roubalheira. É uma vergonha o que aconteceu na construção das arenas. O problema é o mau uso do dinheiro público, e não o torneio em si, apesar de a Fifa ser uma espécie de máfia. Não sei o que vai acontecer. O único que espero é que os protestos não sejam destrutivos. Há formas criativas de se manifestar”, declarou, com conhecimento de causa.

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