Futebol/Copa 2014 - ( )

Elogiado após empate, Brasil se fortaleceu para buscar 1º e 2º títulos

Yan Resende, especial para a GE.Net São Paulo (SP)

Antes mesmo do início da Copa do Mundo deste ano, Luiz Felipe Scolari apareceu em um vídeo pedindo o apoio da torcida verde e amarela. O treinador tentava usar a empolgação com o título da Copa das Confederações para receber incondicional apoio das arquibancadas ao longo do Mundial em seu país. Nesta terça-feira, porém, a relação entre torcida e Seleção parece ter se estremecido.

No Castelão, em Fortaleza, o hino foi mais uma vez cantado à capela, o entusiasmo tomou conta do público presente, mas o empate, em 0 a 0, com o México colocou sob questionamento a capacidade do time de Felipão para levar o hexacampeonato. A igualdade no segundo jogo da trajetória brasileira, no entanto, pode ser visto de forma positiva, se for levado em conta o histórico das campanhas da Seleção em seus dois primeiros títulos.

Em outras duas oportunidades, o Brasil começou a Copa do Mundo com uma vitória, mas não passou de um empate sem gols no jogo seguinte. O resultado destas campanhas foram os dois primeiros títulos mundiais, em 58 e 62. A diferença com 2014 porém, implica no fato de o resultado contra o México ter revelado os pontos fracos do time de Scolari, enquanto que a atuação da Seleção nos outros dois ‘0 a 0’ rendeu elogios fundamentais para a arrancada até a taça.

Acervo/Gazeta Press
O empate com a Inglaterra na 2ª rodada de 58 serviu para transformar Pelé e Garrincha em titulares
Futebol digno de nossa tradição

Na primeira conquista brasileira, em 1958, após as mudanças promovidas por Paulo Machado de Carvalho, a delegação verde e amarela tinha como missão espantar a desconfiança que pairava sobre a equipe. A estreia foi boa: 3 a 0 sobre a Áustria. No compromisso seguinte, um indício de que poderíamos ficar no quase mais uma vez..

O Brasil foi melhor do que a Inglaterra, teve o domínio do jogo, mas não conseguiu balançar as redes. O empate sem gols poderia endossar o discurso daqueles que não acreditavam na Seleção, mas as análises após o jogo serviram para incentivar aquele grupo. Thomaz Mazzoni, por exemplo, jornalista de A Gazeta Esportiva, relatou que foi uma exibição “digna das melhores tradições do futebol brasileiro”. A imprensa internacional, por sua vez, preferiu valorizar a capacidade dos ingleses de pararem os “malabaristas” comandados por Vicente Feola.

Mesmo com os elogios após o empate, o time brasileiro precisaria derrotar a União Soviética no último jogo da fase de grupos para não colocar ponto final no bom relacionamento entre os jogadores e os veículos de imprensa. Desta forma, antes da decisão, os jornais do país relembraram o “fantasma da desclassificação”, defendendo que era impossível indicar um favorito para o jogo. A única certeza dos repórteres era a de que o menino Pelé precisava estar em campo.

Acervo/Gazeta Press
Aymoré Moreira perdeu Pelé no segundo jogo, mas contou com Amarildo para levar o bi no Chile
Feola aceitou a opinião dos críticos - há quem acredite que foi convencido por Didi, Bellini e Nilton Santos. Pelé e Garrincha enfrentaram a União Soviética, mudaram a cara da equipe brasileira, que após a vitória por 2 a 0, com dois gols de Vavá, ganhou força para buscar o primeiro título mundial. Nas quartas, com 17 anos, o Rei do Futebol garantiu a vitória sobre País de Gales e se tornou o mais jovem a marcar em jogos de Copa do Mundo. França e Suécia foram derrotadas posteriormente.

Empate de um valente time sem Pelé

Ciente de que a história poderia se repetir na Copa do Mundo de 1962, Solange Bibas, jornalista de A Gazeta e A Gazeta Esportiva, responsável pela cobertura do Chile, tratou a Tchecoslováquia como um “acadêmico e difícil adversário”. Dentro de campo, o cenário foi ainda mais complicado do que o previsto. Machucado, Pelé se arrastou em campo na maior parte do tempo e o empate sem gols saiu como lucro para os brasileiros.

O time de Aymoré Moreira, portanto, passou a ser chamado de “bravo” e “lutador”, enquanto que a igualdade no estádio Sausalito, em Viña del Mar, teve como manchete: “Checoslováquia resistiu à pressão de um valente Brasil (dez homens)”. Solange Bibas, para que o torcedor brasileiro tivesse mais clareza sobre o que aconteceu naquele jogo, escreveu que foi “mais dramático do que contra a Inglaterra”. A maior preocupação, contudo, não era o resultado.

Um empate sem gols do atual campeão mundial poderia ser visto como um placar ruim, mas o cenário da partida contra os ingleses indicava que o resultado deveria ser comemorado. Em um jogo faltoso, Pelé saiu de campo para não voltar mais naquela Copa, o que abriu espaço para o surgimento de um atacante fundamental para a conquista. Sem o garoto do Santos, que se tornaria o “Rei do Futebol”, Amarildo foi acionado para ocupar a ponta esquerda e ajudar a conquistar o bi.

Acervo/Gazeta Press
Após o tropeço no início, o Brasil superou os problemas e conseguiu embalar para conquistar o bicampeonato