Futebol/Copa 2014 - ( )

Em 1950, São Paulo viu técnico ser agredido e virou "campo neutro"

Helder Júnior São Paulo (SP)

O Brasil tentará ser o primeiro time mandante a ganhar um jogo na recém-construída arena de Itaquera, na Zona Leste de São Paulo, após uma derrota e um empate do Corinthians no local. Para esquecer as vaias escutadas no Morumbi e vencer a Croácia nesta quinta-feira, na abertura da Copa do Mundo, a Seleção precisará superar ainda um estigma que tem origens no Mundial de 1950, quando disputou apenas um jogo na capital paulista e viu o técnico Flávio Costa ser agredido por torcedores.

Há 64 anos, a sede paulista para a Copa no Brasil também era considerada a casa do Corinthians. O Pacaembu, palco do único jogo da Seleção fora do Maracanã na Copa de 1950, havia sido preparado para receber o aguardado confronto com a Suíça e outras quatro partidas. Para agradar ao público local, Flávio Costa decidiu até abrir mão da base da sua equipe titular, composta por jogadores do Vasco (então dirigido pelo treinador), e escalar vários dos seus reservas vindos de São Paulo naquela segunda rodada do grupo 1 do Mundial.

Iugoslávia não pagou hotel e teve “craque de saias”

Mesmo com as mudanças na formação, ninguém esperava que o Brasil tivesse dificuldades para derrotar a Suíça após a estreia com goleada por 4 a 0 sobre o México. Até mesmo Rudolf Stadler, chefe da delegação do time adversário, reconhecia a inferioridade de sua equipe antes do jogo de estreia contra a Iugoslávia: “Somos mais fracos”. De fato, os suíços acabaram derrotados com facilidade pelos iugoslavos, por 3 a 0, no Estádio Independência, em Belo Horizonte.

Reprodução/A Gazeta Esportiva
O jornal A Gazeta Esportiva destacou a incompreensível culpa atribuída ao Pacaembu por empate em 1950
No Pacaembu, a história foi diferente. A mística negativa de São Paulo para a Seleção Brasileira estava a favor da Suíça, pelo menos segundo a narração de um locutor de rádio (carioca) da época: “Não se compreende que o Brasil, promovendo o Campeonato Mundial, atue em um campo neutro como o Pacaembu!”. A declaração repercutiu mal na imprensa paulista, porém o time de Flávio Costa justificou a crítica em campo. Chegou a abrir o placar com um gol de Alfredo logo no princípio do jogo contra os suíços. Jacques Fatton igualou 15 minutos mais tarde. Baltazar ainda recolocou o time da casa em vantagem antes do intervalo, e o mesmo atacante adversário decretou o 2 a 2 a dois minutos do final.

O resultado foi encarado como uma tragédia. “Provocou revolta entre a grande massa torcedora que compareceu ao Pacaembu, produzindo um milhão e meio de cruzeiros, muito embora se tratasse de um dia comum de trabalho”, noticiou o jornal A Gazeta Esportiva, que não deixou passar despercebida uma confusão com o treinador do Brasil no estádio paulistano. “Não controlando os seus nervos, dois torcedores aguardaram a saída de Flávio Costa, agredindo o técnico do selecionado brasileiro. Houve pronta intervenção da polícia, protegendo o orientador. Os dois agressores foram recolhidos à polícia, enquanto Flávio Costa foi medicado. Lamentável tudo isso.”

Acervo/Gazeta Press
Em 1983, Flávio Costa posou ao lado de Paulo Machado de Carvalho, que dá nome ao Pacaembu
As reações obviamente foram completamente opostas na Suíça. O Courrier de Geneve enalteceu: “Sensacional resultado do quadro da Suíça: os 8 a 0 previstos pelos jornais brasileiros se transformaram num difícil 2 a 2. Trata-se, na verdade, de algo sensacional, que suscitará amplos comentários da imprensa internacional, porquanto o Brasil figura entre os grandes favoritos do torneio”. A Gazzette de Lausanne também comemorou a igualdade com os anfitriões: “Cada torcedor se rejubilará da Suíça com esse resultado absolutamente sensacional obtido pelos craques patrícios contra os mestres da bola”.

Enquanto os jornalistas suíços vibravam, as imprensas paulista e carioca levavam a rivalidade regional para as páginas de seus jornais. A Gazeta Esportiva publicou uma série de editoriais para combater a recém-criada hostilidade de São Paulo com a Seleção Brasileira. Em um deles, chamou os críticos do Rio de Janeiro de “irresponsáveis” por “caluniar seus irmãos de São Paulo, porque só eles – coitados – se julgam brasileiros!” e até lembrou a vitória da Seleção Paulista sobre a Seleção Carioca, por 3 a 1, por ocasião da inauguração do Maracanã.

Em outro texto, A Gazeta Esportiva continuou a combater “os inimigos do futebol paulista”: “Já é tempo de se acabar com esse complexo de que o Estádio do Pacaembu é azarento para os brasileiros, de que os jogadores têm pavor da torcida paulista quando defendem o pavilhão nacional. Isso de atuar mal e culpar a torcida bandeirante não se compreende. No Campeonato Sul-americano, o quadro brasileiro marcou expressivas vitórias e a única derrota sofrida verificou-se justamente no Rio, no Estádio de São Januário, frente ao Paraguai, pelo score de 2 x 1. Ninguém culpou São Januário por causa desse revés. Os jogadores brasileiros não ficaram apavorados com a torcida carioca, que naquele jogo não cansou de vaiar vários elementos, com especialidade o centroavante Otávio. Por que, agora, toda essa onda de terror contra o Estádio do Pacaembu e a torcida paulista?”.

Reprodução
Reprodução
Gritos de "timinho" e arremesso de bandeiras à Seleção no Morumbi

Escolhida para receber o jogo de abertura da Copa do Mundo, a cidade de São Paulo tem um histórico de rusgas com a Seleção. O exigente público paulistano já chamou o Brasil de “timinho” e atirou bandeiras ao gramado como protesto, em um dos casos mais emblemáticos da revolta paulista.

A Seleção sofreu nas mãos do público de São Paulo em jogo válido pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2002. Diante da Colômbia, os 56.000 torcedores que compareceram ao Morumbi demonstraram sua irritação de distintas maneiras.

As vaias, inicialmente direcionadas a Rivaldo, então melhor do mundo, começaram aos 15 minutos do segundo tempo. Suspenso, o técnico Leão acompanhou o jogo das tribunas e já ouviu gritos de “burro” logo na estreia.

Aos 35, os torcedores passaram a chamar a Seleção de “timinho” e, no auge do descontentamento, atiraram pequenas bandeiras no gramado. Para completar, gritaram “olé” a cada passe do rival e pediram Romário, cortado por lesão.

Aos 48 minutos do segundo tempo, o zagueiro Roque Júnior fez o único gol da partida após cobrança de escanteio. Catorze anos depois, no mesmo Morumbi, a Seleção ouviu vaias no último amistoso antes da Copa do Mundo, contra a Sérvia, também vencido por 1 a 0.

Para acalmar os ânimos, a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) precisou se pronunciar para negar que afastaria definitivamente a Seleção Brasileira de São Paulo. Mario Polo, então presidente em exercício da entidade e ex-dirigente do Fluminense, avisou ainda que os torcedores paulistas não estavam impedidos de ir ao Maracanã para acompanhar o restante da campanha do Brasil em 1950.

Com um bom mineiro, Flávio Costa foi mais um a se colocar entre São Paulo e o Rio naquela disputa. Deixou para trás a agressão sofrida no Pacaembu e discursou: “Considero um absurdo atribuir-se à torcida paulista o funesto resultado da peleja com os suíços. É criminoso atirarem-se brasileiros contra brasileiros, criando-se tão monstruoso clima de hostilidade. Perdemos por fatalidade! Futebol é assim mesmo. Os nossos rapazes jogaram heroicamente. Mas, se alguns espíritos mesquinhos têm a volúpia da dissidia, culpem a mim! Prefiro sofrer essa injustiça do que deixar que a mesma recaia sobre os meus pupilos ou sobre os paulistas, nossos irmãos brasileiros”.

Quando Flávio Costa se pronunciou, os seus jogadores já queriam evitar a polêmica e concentrar-se na sequência da Copa do Mundo. Com o pé contundido, o corintiano Baltazar era um dos poucos que ainda se esforçavam para defender São Paulo na tentativa de virar o que chamou de “página negra do futebol brasileiro”. “Não posso concordar que culpem o torcedor paulista pelo insucesso, como tenho ouvido. Em qualquer parte, o público não ficaria satisfeito com o que aconteceu. Em São Januário, quando o Brasil perdeu para o Paraguai por 2 a 1, as mesmas manifestações de desagrado se verificaram, só não se concretizando por interferências de terceiros, inclusive da polícia”, comparou.

Apesar de tanta controvérsia, o que houve no Pacaembu não ficou na história como um “Pacaembuzaço”. Ao contrário. Foi no Rio de Janeiro que todo o Brasil, e não apenas os cariocas, encontraram um goleiro paulista (Barbosa, nascido em Campinas) para culpar pela derrota por 2 a 1 na final contra o Uruguai. A desolação com o time de Flávio Costa era tamanha que ocorreu até a simulação de um enterro da CBD na Zona Norte carioca, mais de seis décadas antes de a Seleção Brasileira iniciar uma nova Copa do Mundo em um estádio corintiano e encerrar, se tudo der certo, no Maracanã.

*Colaboraram Bruno Ceccon e William Correia.

Publicidade

Publicidade


PublicidadePublicidade


Publicidade


Publicidade