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Autor critica torcida do Brasil e sugere adoção de organizados

Bruno Ceccon São Paulo (SP)

Ofuscados por argentinos, uruguaios, chilenos e colombianos, os brasileiros perceberam que não são de nada em plena Copa do Mundo. Cláudio Norrland, autor do livro Insuficiências, da Pontes Editores, estudou profundamente as torcidas sul-americanas. Especialista, ele critica os fãs da Seleção e propõe a adoção dos chamados "torcedores organizados".

Durante cinco anos, o funcionário público formado em cinema, frustrado com a postura do público palmeirense no Palestra Itália, investigou 121 torcidas de cinco países sul-americanos. De maneira criteriosa, Norrland catalogou o comportamento dos fãs e montou um ranking com 102 posições.

Na lista do autor, liderada pelo modesto Almirante Brown, os 10 primeiros lugares são ocupados por torcidas argentinas – os corintianos aparecem na 11ª posição. A vocação dos compatriotas de Lionel Messi para torcer vem sendo comprovada na Copa do Mundo. Os uruguaios, em menor número, também se fazem notar.

“Na comparação com as torcidas das seleções uruguaia e argentina, a torcida do Brasil é bem menos incentivadora. Canta menos vezes durante a partida e seu incentivo é de pior qualidade. As canções são escassas, pobres, de letras curtinhas e até infantilizadas”, disse Norrland, citando o clássico “leleô, leleô, leleô, Brasil!”.

Um dos parâmetros utilizados pelo autor para montar seu ranking é o grau de paciência dos torcedores diante de momentos negativos de seus respectivos times. A tolerância dos fãs da Seleção Brasileira, de acordo com Cláudio Norrland, é uma das menores.

“Para hostilizar a Seleção de seu país, a torcida brasileira é bem mais participativa que as demais. Os torcedores do Sul e do Sudeste são incrivelmente impacientes quando a Seleção joga mal ou está em má fase”, disse o autor, para quem a criatividade dos locais se resume aos coros de deboche a árbitros e jogadores.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
A torcida do Brasil vem sendo ofuscada pelos vizinhos sul-americanos durante a disputa da Copa do Mundo
Na última edição da Copa das Confederações, vencida pelo Brasil com gols marcados no começo das partidas, a torcida local foi aclamada por cantar o hino nacional do começo ao fim, quebrando o protocolo oficial. No decorrer dos jogos, no entanto, a animação caía, como de costume.

“Os elogios foram merecidos, mas faltou aos elogiadores a sinceridade de dizer que a conduta dos torcedores durante as partidas foi tacanha. Confesso que sempre imagino que aquele cara que canta forte o hino vai, duas horas e meia depois, dar fechada em ciclista, dirigir alcoolizado e hostilizar um motorista inábil. É um patriotismo extravagante, este dos brasileiros”, disse Norrland.

A configuração das arenas, com confortáveis cadeirinhas para cada espectador, contribui para inibir os torcedores, mais propensos a empurrar o time quando veem as partidas de pé. A proibição de instrumentos e os altos preços dos ingressos também influenciam, já que os fãs mais incentivadores costumam ficar nos setores baratos, segundo o autor.

A despeito das condições desfavoráveis, os vizinhos sul-americanos vêm dando vida às insossas arenas brasileiras, especialmente os argentinos, com canções de incentivo adaptadas do repertório dos clubes e algumas criadas especialmente para a ocasião. Na visão de Cláudio Norrland, a presença dos integrantes das chamadas barras dos clubes é decisiva.

AUTOR APROVA MODELO ARGENTINO
Foto: Divulgação

Na Copa do Mundo, o público brasileiro vem tendo a chance de ver de perto o modelo de torcida argentino, cada vez mais copiado por fãs de clubes do País. O autor Cláudio Norrland, autor do livro Insuficiências, da Pontes Editores, aprova a iniciativa.

“A performance das barras fascina. E é natural querer incrementar sua torcida com canções reconhecidamente mais elaboradas. Sou a favor dessa tendência. Mas o ideal é criar, fazer a primeira versão de determinada canção bacana”, disse.

Mais do que imitar o estilo dos vizinhos, muitos brasileiros dizem torcer pela seleção argentina na Copa do Mundo, embora muitos não tenham qualquer tipo de ligação concreta com o país.

“Acho normal. Há craques lá também. Patriotada, bairrismo e xenofobia são comportamentos de idiotas. Quem é lúcido tem a cabeça aberta para reconhecer qualidades de outras nações”, declarou Norrland.

“Sei que membros das barras argentinas frequentam estádios para incentivar a seleção. É notório que a Hinchadas Unidas Argentinas (HUA) é financiada por autoridades”, disse Norrland. A HUA, criada antes da Copa de 2010 com apoio kirchnerista, teria sido dissolvida recentemente, mas há antigos integrantes no Brasil – as autoridades do País demonstram preocupação com a fama de violência dos chamados barra bravas.

Diante da pasmaceira dos anfitriões na Copa do Mundo, marcada pelo batido “Eu sou brasileiro”, surgiram tentativas de reinventar a torcida brasileira, capitaneadas pela Rede Globo e por patrocinadores do torneio. As letras, politicamente corretas, lembram peças publicitárias.

“Tenho simpatia pela iniciativa. Mesmo que os corinhos novos possuam características de um bom-mocismo ridículo - a ausência de palavrões, por exemplo - e também sejam 'infantilóides', qualquer tipo de incentivo é preferível ao silêncio”, observou Norrland.

Conhecedor das arquibancadas sul-americanas, o autor sente um “patriotismo mais legítimo” entre uruguaios e argentinos e vê um “patriotismo de oportunidade” dos brasileiros, altamente influenciáveis pelo placar do jogo. Neste cenário, ele sugere a adoção dos chamados organizados, “já que os torcedores comuns brasileiros não têm vocação para assumir liderança em arquibancada”.

“O ideal seria estimular os líderes de organizadas a liderar a torcida da Seleção. O problema é que esse tipo de torcedor é estigmatizado e indesejado. Alguém terá coragem de enfrentar o moralismo vigente e financiar, com subsídios para a compra de ingressos, por exemplo, esses torcedores, comumente associados à violência no futebol?”, questiona.

Por uma vaga nas quartas de final da Copa do Mundo, a Seleção Brasileira enfrenta o Chile às 13 horas (de Brasília) deste sábado, no Mineirão. Cantar o hino do começo ao final não bastará, já que os chilenos, em grande número no País, costumam fazer o mesmo.

Conheça a classificação final das torcidas segundo Cláudio Norrland:

POSIÇÃOCLUBE E ESTÁDIO
ALMIRANTE BROWN no Fragata Sarmiento
BOCA JUNIORS na Bombonera
ROSARIO CENTRAL no Gigante de Arroyito
TALLERES em La Boutique
ALL BOYS no Islas Malvinas
ATLÉTICO TUCUMÁN no Monumental
SAN MARTÍN de Tucumán em La Ciudadela
NEWELL'S OLD BOYS no Parque Independencia
UNIÓN de Santa Fe em La Avenida
10ªVÉLEZ SARSFIELD em El Fortín
11ªCORINTHIANS no Pacaembu
12ªRIVER PLATE no Monumental
13ªCORITIBA no Couto Pereira
14ªOLIMPIA em Para Uno
15ªBELGRANO no Gigante de Alberdi
NACIONAL no Gran Parque Central
RACING de Avellaneda no Cilindro
18ªATLÉTICO MINEIRO no Independência
COLO-COLO no Monumental
20ªOLIMPO no Roberto Carminatti
21ªINDEPENDIENTE no Libertadores de América
22ªHURACÁN em El Palacio
QUILMES no Centenario
SAN LORENZO no Nuevo Gasómetro
25ªATLÉTICO PARANAENSE na Arena da Baixada
GIMNASIA LA PLATA em El Bosque
MORÓN no Francisco Urbano
UNIVERSIDAD CATÓLICA em San Carlos de Apoquindo
29ªCOLÓN no Cementerio de los Elefantes
30ªSÃO PAULO no Morumbi
31ªGODOY CRUZ no Mundialista
32ªPALMEIRAS no Parque Antarctica
PENÃROL no Centenario
TIGRE no Coliseo de Victoria
35ªINSTITUTO no Monumental
36ªCRUZEIRO no Mineirão
FLUMINENSE no Maracanã
PARANÁ na Vila Capanema
39ªESTUDIANTES DE LA PLATA no Ciudad de La Plata
FLAMENGO no Maracanã
41ªNUEVA CHICAGO no República de Mataderos
42ªALVARADO no Mundialista
LANÚS em La Fortaleza
SAN MARTÍN de San Juan no Hilario Sánchez
SANTOS na Vila Belmiro
VILLA MITRE em El Fortín
47ªAVAÍ na Ressacada
GRÊMIO na Arena do Grêmio
INTERNACIONAL no Beira-Rio
O'HIGGINS em El Teniente
51ªBANFIELD no Florencio Sola
CERRO PORTEÑO em La Olla Monumental
CHACARITA em Villa Maipú
COLEGIALES no Libertarios Unidos
55ªDEFENSORES DE BELGRANO no Juan Pasquale
56ªINDEPENDIENTE RIVADAVIA em La Catedral
PLATENSE no Ciudad de Vicente López
58ªCENTRAL NORTE no Martearena
JUVENTUDE no Alfredo Jaconi
SANTIAGO WANDERERS em Playa Ancha
61ªFERRO CARRIL no Etcheverri
62ªALDOSIVI no Mundialista
63ªESTUDIANTES de Caseros no Ciudad de Caseros
64ªBOTAFOGO no Engenhão
65ªALMAGRO no Tres de Febrero
66ª*UNIVERSIDAD DE CHILE no Nacional
67ªDESAMPARADOS no Bicentenario
EVERTON no Sausalito
GUARANÍ em Dos Bocas
LIBERTAD no Nicolás Leoz
PONTE PRETA no Moisés Lucarelli
72ªCERRO no Luis Tróccoli
73ªCRICIÚMA no Heriberto Hülse
74ªJUVENTUD ANTONIANA no Martearena
75ªEXCURSIONISTAS no Coliseo