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Novo fracasso inglês no Brasil amplia lista que tem até derrota de 007

Marcos Guedes* São Paulo (SP)

A desastrosa campanha dos ingleses na Copa do Mundo de 2014 só fez ampliar sua lista de fracassos em terras brasileiras. A experiência no Mundial de 1950 já havia sido das piores, com uma histórica derrota para os Estados Unidos – quase tão histórica quanto a impotência de James Bond diante de Kid Morengueira, em Santos, em uma insana tentativa de sequestro de Pelé na imaginação do sambista Moreira da Silva.

Neste ano, a seleção inglesa deixou o Brasil com apenas um ponto conquistado – em empate sem gols com a Costa Rica –, desempenho que lhe dará algo entre a 24ª e a 28ª colocação na principal competição de futebol do planeta. Em 1950, em sua primeira participação em uma Copa, os inventores do esporte caíram diante dos norte-americanos, que haviam acabado de aprendê-lo.

Acervo/Gazeta Press
Um gol de cabeça de Joe Gaetjens definiu uma das grandes zebras da história das Copas
“Uma das maiores surpresas do futebol mundial!”, noticiou A Gazeta Esportiva em 30 de junho, dia seguinte à zebra em Belo Horizonte. Os comandados de Walter Winterbottom haviam estreado com vitória por 2 a 0 sobre o Chile, mas se complicaram ao perder pelo placar mínimo no estádio Independência e foram eliminados ao levar 1 a 0 também da Espanha.

Os ingleses não foram além das quartas de final em 1954, 1958 e 1962 e, quando se preparavam para receber o Mundial de 1966, ainda buscavam seu primeiro título. A proximidade com a competição levou Miguel Gustavo a compor um samba de breque para Moreira da Silva, no qual o personagem James Bond se hospedava na concentração do Santos ao lado da bela atriz Claudia Cardinale – que jamais participou de um filme de 007. A ideia do agente secreto britânico era, com a ajuda da musa, sequestrar Pelé e impedir sua participação na Copa.

A preocupação fazia sentido, pois o Brasil era o bicampeão mundial e havia eliminado a Inglaterra da edição anterior. Então, na bem-humorada e cinematográfica música de Moreira, com “sexo e violência no mais espetacular filme de espionagem do famoso diretor americano Abelardo Chacrinha Barbosa”, Bond viaja ao Brasil na tentativa de facilitar as coisas para o English Team. A missão começa a falhar com o charme do craque brasileiro.

Montagem/Gazeta Press
No quadrado amoroso de "Morengueira Contra 007", a bela Claudia Cardinale é um dos gols de Pelé e prefere comer pizza no Brás com o malandro Moreira da Silva a servir martínis a James Bond
“A bonitinha não percebe a tabelinha que ele faz, Pelé controla a Cardinale, dá-lhe um beijo e avança mais”, canta Morengueira, antes do breque: “Gol do Brasil, o temperamento latino é fogo!”. O agente secreto do MI6 “dá o flagrante” e “vai abater o jogador com um soco-inglês”, momento em que Moreira aparece para salvar a maior esperança do tri verde-amarelo.

A sequência da trama tem 007 levado para o Dops (Departamento de Ordem Política e Social, órgão repressor do governo brasileiro) e Claudia Cardinale, entre outros programas, para “um pif-paf em Guarujá”, onde surge seu amor pelo herói malandro Moreira. “E vem o time brasileiro se sagrando campeão, termina o filme com o Moreira dando um drible no espião, o James Bond é derrotado e acabou sua missão” é o desfecho de “Morengueira Contra 007”.

O desfecho foi diferente na vida real. Kid Morengueira, possivelmente entretido com Claudia Cardinale, não apareceu para salvar Pelé das botinadas que ele levou no Mundial de 1966, e o Brasil foi eliminado na primeira fase. Os ingleses, se não contaram com Bond, James Bond, para roubar Pelé, tiveram enorme ajuda da arbitragem naquele que até hoje é seu único título de Copa do Mundo – desde então, não conseguiram nada maior do que as semifinais em 1990.

Foi como campeã mundial que a equipe da Inglaterra apareceu para um amistoso no Maracanã, em 1969. Na amaldiçoada terra brasileira, saiu na frente, mas levou a virada da Seleção. “A Inglaterra foi um Bonsucesso. Dirão que estou fazendo um exagero caricatural. Mas, se o Bonsucesso tivesse assassinado a pauladas Maria Stuart, se jogasse à sombra de lord Nelson, lady Hamilton e Dunquerque, e se morasse no palácio de Buckinham – o Bonsucesso faria mais que os ingleses”, exagerou o cronista Nelson Rodrigues.

AFP
Ingleses se despediram ainda com só duas vitórias no Brasil na história - uma delas, inútil, na péssima campanha de 1950
Àquela altura, o time verde-amarelo não tinha grande confiança da torcida e especialmente da imprensa, impressionada com “a saúde de vaca premiada” dos donos provisórios da Jules Rimet. Mas Tostão, caído no chão, começou a restabelecer a ordem. “Foi um assombro. Em pé, Tostão já é pequeno, pequeno e cabeçudo como um anão de Velasquez. Imaginem agora deitado. Os ingleses ficaram indignados e explico: – um gol como o de Tostão desafia toda uma complexa e astuta experiência imperial”, escreveu Nelson.

O Brasil venceu por 2 a 1, definindo a virada com Jairzinho, e acabou conquistando o tricampeonato no ano seguinte. Ganhou outras duas Copas e, em 2014, está vivo na tentativa de apagar as memórias assombrosas que tem de 1950. A Inglaterra não conseguiu apagar as suas.

*Colaborou Bruno Ceccon