Futebol/Copa 2014 - ( - Atualizado )

Neymar persegue primeiro gol de bicicleta no centenário da "chilena"

Helder Júnior e William Correia Belo Horizonte (MG)

Na véspera das oitavas de final desta Copa do Mundo, Neymar tentou fazer um gol de bicicleta no rachão e errou, sem esconder a sua frustração. O atacante, um dos artilheiros do Mundial, já protagonizou lances que concorreram três vezes ao prêmio da Fifa de gol mais bonito do ano e ganhou um deles em 2011. Mas ainda não conseguiu fazer de bicicleta, como sempre sonhou. E enfrentará neste sábado, no Mineirão, um rival que conhece a jogada desde a sua origem.

Em 1914, há exatamente 100 anos, Ramón Unzaga, que nasceu na Espanha e viveu no Chile desde os 12 anos de idade, era o primeiro a ter uma bicicleta documentada, atuando pelo Club Atlético de Talcahuano e sendo aplaudido até por adversários, segundo os chilenos. Na Copa América de 1920, Ramón Unzaga, pela seleção do Chile, praticou a acrobacia contra a Argentina e, desde então, todos os países de língua espanhola chamam a jogada de “chilena”.

“Ramón Unzaga é um símbolo do Chile. Pode não ter sido um grande jogador por suas virtudes técnicas, mas levou o nome do país para o mundo ao inventar a chilena. Em muitos lugares do planeta, o movimento é chamado dessa forma por sua causa. Ele representa muito para a nossa nação. As pessoas têm muito orgulho dele em meu país”, contou Sergio Pinto, repórter da TV Nacional do Chile.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Neymar erra tentativa de fazer gol de bicicleta até em rachão e sofre com piadas dos colegas na Seleção
Neymar já desperta admiração semelhante nos brasileiros, mas, pessoalmente, ainda busca o primeiro gol de bicicleta. Tentou até mesmo em partidas beneficentes, sem sucesso. Na Seleção, é alvo de brincadeiras por não conseguir ser eficiente buscando realizar seu sonho. Recentemente, na Granja Comary, durante jogo de futevôlei, viu sua bicicleta parar nas redes erradas, de vôlei, sendo vaiado por todos os colegas, já que deu ponto ao adversário.

Os companheiros não ‘perdoam’ Neymar. André, centroavante que atuou com ele desde as categorias de base do Santos, acertou uma bicicleta pelo Atlético-MG em 2012 e sugeriu ao amigo que olhasse o lance para aprender. Fred, seu colega no ataque da Seleção, que tem vários gols dessa forma e até decidiu Fla-Flu assim, já publicou no Twitter uma foto na qual aparece sentado em uma bicicleta infantil com a mensagem: “Taí o segredo pra fazer gol de bicicleta, Neymar”.

Contra o Chile, um dos artilheiros da Copa terá a chance de aplicar a “chilena”. Mas não deve ter Ramón Unzaga como inspiração. O atleta que virou modelo da bicicleta no Brasil é outro e já teve sucesso usando a jogada até para marcar gol dessa forma em Copa do Mundo: Leônidas da Silva, o primeiro jogador do País a ser conhecido internacionalmente.

Acervo/Gazeta Press
Roberto Carlos quase pôs tudo a perder
BRASIL JÁ VIBROU E SE ASSUSTOU COM BICICLETAS EM COPAS

Mesmo que, enfim, acerte uma bicicleta nas redes, Neymar não será nem o primeiro brasileiro a fazer gol dessa forma em uma Copa do Mundo. Em época com raras imagens em vídeo, Leônidas da Silva contou com o Paris Match como registro da acrobacia que executou na vitória sobre a Tchecoslováquia nas quartas de final do Mundial de 1938, na França.

“Cabelos esticados, pele escura como um grão de café torrado, pequeno de corpo. Mas sua vivacidade é verdadeiramente desconcertante, sua velocidade, insuperável... Vi Leônidas executar uma série de tesouras com as pernas aproveitando um centro e golpeando a bola de costas para o gol”, dizia o texto da publicação francesa.

Vinte e quatro anos depois, mesmo um erro nessa jogada deu alegria ao Brasil. Pela semifinal da Copa de 1962, o primeiro gol do triunfo por 4 a 2 sobre o anfitrião Chile ocorreu após o centroavante Vavá falhar na tentativa de aplicar uma bicicleta, mas a bola sobrou para Garrincha abrir o placar.

Na mesma França em que Leônidas da Silva fez os brasileiros sorrirem com sua acrobacia, Roberto Carlos gerou susto. Pelas quartas de final do Mundial de 1998, o lateral esquerdo abusou de sua confiança ao tentar afastar um cruzamento de bicicleta. Caiu sentado no chão enquanto o dinamarquês Brian Laudrup, completamente livre, empatava o jogo em 2 a 2 – pouco depois, Rivaldo garantiu a vitória e a paz momentânea ao colega.

No Mundial de 1938, no qual foi artilheiro com sete gols, Leônidas da Silva aplicou a acrobacia para balançar as redes da Tchecoslováquia, segundo a publicação francesa Paris Match. Virou Homem-Borracha para os europeus. Mas os torcedores brasileiros já o veneravam tanto pela jogada que muitos atribuíam ao centroavante a invenção da bicicleta, feito que ele relutava a negar a autoria.

Existem registros de que Petronilho de Brito (irmão de Valdemar de Brito, o descobridor de Pelé), pelo Minas Gerais, de São Paulo, em 1920, e José Augusto Brandão, no Juventus, nos anos 1930, também saltavam e esticavam uma das pernas para, de costas para o gol, chutar a bola. Mas Leônidas da Silva sempre garantiu que nunca viu nenhum outro executar a bicicleta e, por isso, nunca tentou imitar ninguém – como ocorre hoje com Neymar.

“Pode ter acontecido tudo isso e até os argentinos serem os verdadeiros criadores, como se diz. Também não lembro quando fiz um gol desses pela primeira vez. Só sei que foi nas peladas dos tempos de criança, sem ter visto nada parecido antes”, disse Leônidas em declaração publicada no jornal A Gazeta Esportiva em 1994. “Fiz a jogada só pensando em aproveitar uma bola quase perdida”, seguiu explicando o ex-jogador, que morreu em 2004, vítima de Mal de Alzheimer, pneumonia e diabetes, já sem lembrar o que fazia em campo. Completaria 100 anos de idade em 2013.

Publicações antigas afirmam que Leônidas fez seu primeiro gol de bicicleta em 1932, pelo Carioca, seu clube na época. Pelo Flamengo, o lance gerou festa contra o Independiente, da Argentina, em 1939. Mas a jogada ficou marcada, inclusive com fotos, pelo São Paulo. Aplicou-a contra o Palmeiras, em 1942, e a tornou eternizada em goleada sobre o Juventus, em 1948, quando foi tirada a fotografia sempre usada como exemplo de sua habilidade no quesito.

“Foi quando ninguém imaginava mais que surgisse outra novidade que Leônidas trouxe a bicicleta, embora qualquer outro jogador já tivesse, despercebidamente, conjurado perigosos lances com uma puxeta, uma espécie de prima-pobre e distante da bicicleta. A bicicleta, que marcava gols, que consagrou Leônidas e enlouqueceu torcedores, era diferente, pela coreografia, pela plasticidade, pelo inusitado que produzia, principalmente porque fazia tentos, decidia jogos e lembrava um lance de capoeira, de passista na avenida”, descreveu texto de A Gazeta Esportiva em 1983.

A fama da bicicleta de Leônidas só não parece ter atingido o Chile, já que o repórter Sergio Pinto, da TV Nacional do país, alegou desconhecer o centroavante. Mas sabe bem que o anseio de Neymar em marcar gols dessa forma pode, perfeitamente, transformar os inventores da “chilena” em vítimas do que Ramón Unzaga criou há 100 anos.

“O Neymar é um grande jogador, um dos maiores, capaz de fazer qualquer coisa. É claro que ele conseguiria dar uma chilena em uma Copa do Mundo. Antes de enfrentar o Chile, vimos que treinou bastante a jogada. Errou algumas vezes, não? Só espero mesmo que ele não acerte contra o Chile. Que seja em qualquer outra ocasião, homenageando Ramón Unzaga, mas não contra o Chile”, sorriu Sergio Pinto.

Acervo/Gazeta Press
Leônidas eternizou bicicleta "mais plástica que anteriores" na goleada são-paulina sobre o Juventus em 1948