Futebol/Reportagem Especial - ( - Atualizado )

Oberdan Cattani, o goleiro dos novos tempos

São Paulo (SP)

Quando deixou a sua Sorocaba no lombo de um caminhão naquela tarde de 1941, Oberdan Cattani não chegou a imaginar que cumpriria, pouco mais tarde, o sonho de uma italianíssima família de imigrantes que via nas cores do velho Palestra Itália as honrarias presentes à bandeira da Velha Bota.

Com a cara e coragem de seus 22 anos de idade, o menino alinhado, de cabelos sempre penteados, jogados para o lado, no mais cuidadoso estilo Clark Gable, chegou ao Palestra para um teste, indicado por seu irmão Athos e pelo ex-jogador Miguel, e por lá ficaria até os dias de hoje. O maior goleiro que os torcedores palmeirenses já viram em ação com a camisa 1 alviverde viveu depois na Pompéia, bairro próximo do estádio do clube, que visitava quase todos os dias e do qual se tornou conselheiro.

Oberdan Cattani viu morrer em 1942 o velho Palestra Itália e, no dia seguinte, nascer a Sociedade Esportiva Palmeiras. "Foi um tempo doloroso para todos nós. O clube foi obrigado a mudar de nome por uma imposição, obrigaram a tirar não só a palavra 'Itália' do nome, como também o 'Palestra'", relembrava o ex-jogador.

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A imposição visava uma medida simbólica: nenhuma agremiação poderia levar no nome ou nas cores qualquer apologia à Itália, país alinhado ao Eixo na Segunda Guerra Mundial - logo, nação inimiga do Brasil, que lutou ao lado dos Aliados -, berço do fascismo desenhado por Benito Mussolini. "Mas foi bom que o time mudasse de nome. Assim, quebrou-se o estigma de time de italianos e o clube ficou aberto a novos torcedores, de outras raças e nacionalidades. O Palmeiras democratizou o futebol", defendeu Oberdan.

No dia seguinte à mudança do nome, ele viveria sua maior alegria no clube: a vitória sobre o São Paulo por 3 a 1 - naquele dia, o Palmeiras entraria em campo carregando a bandeira do Brasil. Sessenta e dois anos depois, Oberdan morreu, encerrando a linha de atletas que defenderam o clube original fundado em 1942.

Fotomontagem Gazeta Press
Oberdan Cattani liderou a Arrancada Heróica em 1942 (Fotos: Acervo/Gazeta Press e Fernando Dantas)

Ainda que sem expressar total convicção, Oberdan não escondia a mágoa pela falta de vontade política das demais equipes de São Paulo para defender a manutenção do nome Palestra Itália. "Tinha diretores do São Paulo que exigiram a mudança. Demos o troco neles com aquela vitória, que jamais vou esquecer". A mágoa, transformada em arquirrivalidade a partir dali, rendeu a Oberdan a autoria da frase segundo a qual "os corintianos são rivais dos palmeirenses; os são-paulinos, inimigos". O goleiro, no entanto, negava a afirmação. "Sei que existe essa lenda, mas jamais desrespeitei rival algum".

Respeito que foi deixado de lado antes de a equipe faturar o título do Campeonato Paulista de 1942 em cima do Tricolor. Era o primeiro passo antes de ele se tornar um dos goleiros mais vitoriosos do Verdão.

Até encerrar a carreira, ele faturaria ainda outros três Estaduais (1944, 47 e 50), três Taças Cidade de São Paulo (1946, 50 e 51), uma Taça Rio-São Paulo em 1951 e, naquele mesmo ano, a Taça Rio - para muitos, o verdadeiro Mundial Interclubes.

Gigante do Palestra - Alguns adversários costumavam dizer que, quando Oberdan Cattani se instalava debaixo das traves do Palestra Itália, ele se agigantava, deixando a tarefa de deslocá-lo no lance para marcar um golzinho sequer uma tarefa dada somente aos especialistas. O jeito sério e as mãos enormes davam, em contrapartida, à torcida alviverde a confortável sensação de que, com ele em campo, a segurança da pátria estava salvaguardada. Alguns episódios na vida do ex-goleiro são provas irrefutáveis de que, quando a tarefa era defender as metas de sua equipe, Oberdan não andava para brincadeiras.

Certa feita, ao sair de casa para comprar pão às vésperas de um clássico contra o Corinthians, foi apresentado a um corintiano desses capazes de vencer os anéis superiores das arquibancadas do Morumbi de joelhos só para ver uma vitória sobre o Alviverde. O torcedor rival empolgou-se no segundo minuto de conversa, quando teve a má idéia de tentar subornar o arqueiro alviverde para que permitisse a vitória alvinegra.

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Oberdan Cattani era considerado um gigante defendendo as traves do Palmeiras

Recebeu um soco no rosto em resposta e o bafafá teve início. Foi então que o agredido teve seu segundo surto de má idéia num intervalo curto de segundos e pediu a um policial para que o acudisse. A autoridade, palmeirense até os ossos, só fez coro à bronca do ídolo alviverde e mandou que o "contraventor" tomasse rumo - como ele o fez de imediato.

A concentração de Oberdan Cattani em sua missão de defender as metas alviverdes era tamanha que fazia com que o arqueiro passasse as horas de descanso treinando. Sendo assim, as tardes de folga do camisa 1 alviverde eram preenchidas por uma forma peculiar de se testar os reflexos que consistia em arremessar uma bolinha de tênis a três metros da parede da varanda para poder acompanhar a trajetória da esfera antes de saltar para a defesa.

Glórias restritas ao clube - Apesar de ser aclamado como um dos maiores goleiros de sua geração, as passagens de Oberdan Cattani pela Seleção Brasileira foram quase sempre povoadas por polêmicas que acabaram prejudicando a carreira do goleiro com a camisa canarinho. A maior delas aconteceu em 1945, quando ele criticou abertamente a escalação do lesionado meia Jaime de Almeida numa partida contra a Argentina pelo Campeonato Sul-americano daquele ano e que acabou se tornando o principal motivo da derrota brasileira para os vizinhos por 3 a 1 (em três lances em que as jogadas foram forçadas nas costas do atleta do Flamengo).

Oberdan ficou em maus lençóis com a CBD e comissão técnica da Seleção e poucas vezes teve a oportunidade de voltar a vestir a camisa 1 do Brasil - algo que culminou, anos mais tarde, na sua ausência na lista de convocados para a Copa de 1950, quando foram chamados Barbosa e Castilho. Em 46, quando poderia ter sido o titular da Seleção Brasileira, a Copa do Mundo foi cancelada devido à Segunda Guerra Mundial.

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Com a Seleção, não conseguiu repetir as glórias do clube
Além da Seleção Brasileira, Oberdan acumularia ainda experiências com a camisa da seleção paulista, que vestiu de 1941 a 1952. Mas, diferentemente de outros grandes goleiros como Taffarel e Marcos, que se acostumaram a colecionar glórias tanto no clube, quanto na Seleção, Oberdan não conseguiu jamais com a amarelinha chegar sequer perto dos feitos conquistados no Palestra.

Durante os 13 anos que defendeu as cores do Verdão, ele entrou em campo nada menos que 351 vezes (incluída aí uma seqüência de nove apresentações sem tomar um gol sequer), inspirou gerações e, sobretudo, ajudou a solidificar o nome da Sociedade Esportiva Palmeiras - no fundo, com a mesma gana dos tempos de Palestra. Por essas e outras, ele sonhava ainda obter o reconhecimento em vida para poder testemunhar um busto seu na área social do Palestra Itália.

A construção da estátua em sua homenagem foi aprovada apenas na gestão de Paulo Nobre. A data da inauguração do sonhado busto ainda não foi definida pelo clube, mas deve ser feita ainda em 2014. A Sociedade Esportiva Palmeiras teve 60 anos para homenagear Oberdan Cattani da forma como ele mais desejava. Quando resolveu fazê-lo, foi tarde demais.

Raio-X
Nome:
Oberdan Cattani
Data de nascimento: 12/6/1919
Local: Sorocaba (SP)
Clubes: Palmeiras (1941 a 1954), Juventus (1954)
Títulos: Copa Rio (1951), Rio-São Paulo (1951), Paulista (42, 44, 47 e 50)
Obs: Ele atuou 351 vezes com a camisa do Palmeiras, vencendo 207, empatando 76 e perdendo apenas 68. Em toda a carreira, sofreu 409 gols.