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Pai do Circo Voador condena rigidez na Seleção: “Não somos monges”

Bruno Ceccon São Paulo (SP)

O Circo Voador levantou voo para torcer pela Seleção na Copa do Mundo do México-1986. A empreitada foi idealizada por Perfeito Fortuna, um dos criadores do movimento que revolucionou a cena cultural brasileira no começo dos anos 1980. Com a autoridade de quem dançou ao lado de Casagrande e Alemão ao som de Alceu Valença em Guadalajara, ele condena a rigidez imposta aos jogadores que atualmente se preparam na Granja Comary.

Até os protagonistas do Circo Voador costumam ter dificuldades para definir o movimento, classificado frequentemente como uma “usina de sonhos”. O ecletismo do espaço é prova de sua abrangência. O grupo de teatro Asdrúbal Trouxe o Trombone, os roqueiros do Barão Vermelho, o sambista Martinho da Vila, o poeta Chacal, o cantor Gilberto Gil, a coreógrafa Deborah Colker, a atriz Dercy Gonçalves, a Orquestra Tabajara... Todos passaram pela lona armada no Rio de Janeiro a partir de 1982.

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“Na verdade, o que eu queria mesmo era ver a Copa do Mundo. Estava totalmente sem dinheiro, mas queria tanto viajar para o México, que armei um projeto para levar o Circo Voador a Guadalajara”, explicou Perfeito Fortuna à Gazeta Esportiva. De maneira surpreendente, ele costurou acordos com o governo brasileiro e a Coca-Cola mexicana para viabilizar a excursão de aproximadamente 200 artistas, batizada oficialmente de “missão cultural”.

Em função de problemas logísticos, a empreitada não saiu exatamente como os artistas esperavam, mas o Circo Volador (voador, em espanhol) aproveitou a receptividade dos mexicanos de Guadalajara, cidade que abrigou a lendária Seleção de 1970, e se fez notar. Nos momentos de folga, jogadores como Casagrande, Alemão, Sócrates e Júnior, titulares do técnico Telê Santana na Copa do Mundo, conviviam com a trupe. O zagueiro Júlio César teria até participado de um bate-bola com os circenses.

Trailer - A Farra do Circo from TvZERO on Vimeo.

“A gente jogava pelada, fazia churrasco. Nas folgas, a galera da Seleção costumava nos encontrar. Podem até entender isso como desconcentração, mas se o jogador vence uma partida de Copa, ele tem que extravasar de alguma forma. Eu acho estranho o cara ser obrigado a voltar direto para a concentração, com um monte de homem sentado. Hoje ficou complicado, porque tem muita grana no meio. Mas na época era mais artesanal. Eles ganhavam e depois iam pular, cantar e tomar uma cerveja conosco”, lembrou Fortuna.

O documentário A Farra do Circo, atualmente em cartaz em São Paulo e no Rio de Janeiro, conta parte da história do movimento cultural. A produção tem imagens preciosas captadas de 1982 a 1986 por Roberto Berliner, que dirige o filme em parceria com Pedro Bronz. A obra narra o nascimento do grupo com a lona armada no Arpoador e termina na atribulada missão cultural ao México para torcer pela Seleção Brasileira.

Estrategicamente, o Circo Voador mandou representantes para uma entrevista coletiva de Telê Santana em Guadalajara. Assim, os artistas anunciaram a presença na cidade diante da imprensa e até indagaram o treinador. “Fiquei sabendo que vocês viriam ainda no Brasil. Estamos satisfeitos e temos certeza que contribuirão muito para que nós consigamos ganhar esse quarto título”, respondeu o técnico, de forma diplomática, em diálogo reproduzido no documentário.

Alceu Valença e o Trio Elétrico de Armandinho, Dodô e Osmar foram as principais atrações levadas pelo grupo ao México. O filme mostra Casagrande, de camiseta amarrada na cabeça, dançando desvairadamente e até entrevista o volante Alemão. “Para mim, (o Circo Voador) foi a melhor coisa que aconteceu em Guadalajara. Tenho certeza que vocês estão representando o Brasil maravilhosamente. A vinda do Circo foi uma grande coisa para o País”, disse.

Divulgação
Perfeito Fortuna, idealizador da viagem do Circo Voador ao México, condena a rigidez na preparação do Brasil
O clima de descontração entre jogadores e artistas na Copa do México contrasta com a rigidez da preparação do elenco para o Mundial-2014. Na luxuosa Granja Comary, reformada recentemente por José Maria Marin, presidente da CBF, as únicas distrações dos comandados do disciplinador Luiz Felipe Scolari são jogar sinuca, pebolim e vídeo game ou trocar mensagens por um aplicativo de celular. O simples costume de posar para fotos fazendo caretas foi suficiente para dar ao bom moço David Luiz a fama de irreverente.

“O clima de descontração é saudável. A gente é brasileiro, a gente é desse jeito. Podem tentar nos transformar em monges, mas na verdade não somos. Podemos até fingir, mas não somos como os tailandeses, habituados com aquela coisa ascética. A gente é fodedor. Hoje em dia, a galera se contenta muito com o dinheiro. A coisa é tão poderosa em termos de grana, que o cara faz um sacrifício e o dinheiro meio que compensa essa contenção. Não sei se isso funciona. Tomara que sim”, disse Fortuna.

Em tom de brincadeira, ele ofereceu seus serviços à CBF para mudar o ambiente sisudo da neblinosa e fria Granja Comary. “Se quiserem, podem contratar a gente. Nosso cachê é um pouquinho menor que o do Cristiano Ronaldo. É 10% mais barato que o dele”, disse o artista, rindo. “Na verdade, não estamos tão caros assim, não. Mas a gente sabe como fazer uma festa”, acrescentou Fortuna que, hoje afastado do Circo Voador, preside a Fundição Progresso, outro centro cultural e casa de shows do Rio de Janeiro.

Coincidentemente, alguns artistas se valeram da condição de celebridade para ter acesso à concentração do Brasil, localizada dentro de um condomínio fechado, como o apresentador Luciano Huck, acompanhado pelos dois filhos, e o cantor Mumuzinho, ambos contratados da Rede Globo. O único treinamento aberto aos torcedores comuns, realizado em Goiânia na tarde de segunda-feira, é uma exigência da Fifa a todas as seleções.

Fernando Dantas/Gazeta Press
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A própria criação do Circo Voador tem relação com o futebol, já que algumas das primeiras conversas em torno da fundação do grupo aconteceram no tradicional campo de peladas do Caxinguelê, no Rio de Janeiro. “A gente é jogador de futebol-artista. Não somos bailarinos!”, esclarece Perfeito Fortuna, torcedor do Vasco. Ele se diz a favor da realização da Copa do Mundo no Brasil, mas acha que o País perdeu uma grande chance de promoção no exterior.

“Eu esperava fazer uma festa do car...! Queria que os gringos chegassem e dissessem: ‘Put... lugar legal que eu fui!’. E falassem para todos os amigos: ‘Vai para o Brasil, porque lá é fod...!’. A gente poderia virar um lugar de festa, paz e alegria. É disso que o mundo mais precisa. As pessoas só pensam em guerra, segurança e doença. O dinheiro vai todo para essas merd..., e não vem nada para a felicidade. Alguém começa a roubar, o outro fica put... porque foi roubado, mas não tem proposta nenhuma e vira uma confusão do car.... Se investe um dinheiro enorme, e ninguém aproveita nada”, teorizou.

A pouco mais de uma semana do início da Copa do Mundo, Perfeito Fortuna já faz planos para não desperdiçar uma nova chance de promoção nos Jogos-2016. “As pessoas aqui no Rio de Janeiro não gostam muito de trabalhar. Nesses grandes eventos esportivos, com gringos do mundo inteiro, a diversão pode virar um meio de vida. Era essa a oportunidade que a gente tinha com a Copa. Se não der certo nas Olimpíadas, acho que vou me mudar para Guadalajara”, disse o artista, sarcástico.

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