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Pickles achou taça em 1966 e foi celebridade até morrer caçando gato

André Sender São Paulo (SP)

Três meses antes da Copa do Mundo de 1966 um crime colocou em xeque a capacidade de organização dos ingleses e a credibilidade da famosa Scotland Yard. A Taça Jules Rimet foi levada de uma exposição em Londres e passou sete dias desaparecida. Até ser encontrada pelo cachorro Pickles no jardim de uma casa no subúrbio da cidade.

A taça, com seguro estimado em 30 mil libras, desapareceu no dia 20 de março, em meio a uma coleção de selos com valor estimado em 3 milhões de libras. Foi achada uma semana depois pelo animal, premiado com um ano de ração grátis e transformado em celebridade nacional.

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Após encontrar a Jules Rimet no jardim de um vizinho, o cão passou a aparecer constantemente em programas de televisão, além de participar do filme O Espião de Nariz Frio. Para gerenciar a ‘carreira’ do animal de estimação, seu dono David Corbett até contratou um empresário. Pouco mais de quatro meses depois de farejar a Jules Rimet, Pickles foi convidado para o banquete da conquista do Mundial de 66 pela Inglaterra. Saudado com festa por atletas como Bobby Charlton e Nobby Stiles quando chegou ao hotel em que a celebração ocorria, jantou no andar de baixo ao lado de David Corbett e das esposas dos atletas, que não puderam participar da comemoração oficial.

AFP
Pickles achou a taça Jules Rimet embrulhada em folhas de jornal no quintal do vizinho de Corbett
Os dias de glória de Pickles foram poucos. O mesmo instinto que em março de 1966 o levou a farejar o jardim do vizinho e achar acidentalmente a Jules Rimet fez com que ele corresse atrás de um gato durante um passeio em que era conduzido pelo filho de David Corbett, de seis anos de idade. O cachorro conseguiu se livrar do menino e passou a perseguir o gato. Uma hora depois foi encontrado morto, enforcado pela coleira presa em um galho. Aproveitou a fama por apenas um ano.

O roubo da Jules Rimet, que ficou em posse do Brasil por sete anos e meio por conta dos títulos das Copas da Suécia-1958 e Chile-1962, rapidamente repercutiu pelo mundo em março de 1966. No Brasil, Bellini, que a ergueu após a conquista do Mundial de 1958, especulou como seria a reação mundial se o crime tivesse ocorrido no País. Já Paulo Machado de Carvalho, falando à Gazeta Esportiva, descartou esta hipótese: "Aqui tenho plena convicção que não irão roubá-la. Um ladrão brasileiro nunca faria isso”.

As buscas pelo troféu em Londres duraram sete dias, período em que a Fifa mandou fazer uma nova Jules Rimet e a Scotland Yard prendeu um acusado pelo roubo: Edward Betchley. Ele foi capturado no ponto de encontro estabelecido para o pagamento do resgate, mas afirmou ser apenas um intermediário do verdadeiro ladrão e desconhecer seu paradeiro, assim como o do troféu.

O mistério só foi desfeito em 27 de março quando David Corbett saiu de sua casa no bairro de Beulah Hill para utilizar a cabine telefônica do outro lado da rua. Levou junto Pickles, um Collie com pelagem preta e branca que ganhou de seu irmão John depois que o cão roeu os móveis da casa. Durante a curta caminhada, o cachorro começou a farejar um volume embrulhado em folhas de jornal no jardim do vizinho. Era a Jules Rimet.

AFP
Taça ficou na Inglaterra por aproximadamente quatro anos até ser entregue definitivamente ao Brasil

Quando levou o troféu à Scotland Yard, David Corbett foi tratado como suspeito. Interrogado até a madrugada, acabou liberado pela polícia e ainda recebeu recompensa de 6 mil libras esterlinas. O britânico utilizou o dinheiro para comprar uma casa, em cujo jardim Pickles foi enterrado quando morreu um ano depois.

O Brasil garantiu a posse definitiva da Jules Rimet em 1970 com a conquista de seu terceiro Mundial, no México, mas a taça permaneceu apenas 13 anos na sede da CBF no Rio de Janeiro. Contradizendo as palavras de Paulo Machado de Carvalho, o troféu foi roubado em 1983.

A polícia brasileira chegou a quatro acusados pelo roubo, com a ajuda de um quinto integrante do bando que desistiu de participar da ação. Mas sem Pickles à disposição não conseguiu achar a taça, derretida para os ladrões lucrarem com os 3,8kg de ouro maciço e a base de mármore.  

COLEIRA VIROU PEÇA DE MUSEU
Foto: Divulgação

O cachorro Pickles morreu apenas um ano depois de encontrar a taça Jules Rimet, mas sua lenda permanece viva no futebol inglês. Para quem não a conhece, o Museu Nacional do Futebol, em Manchester, tem em seu acervo alguns itens relacionados ao cão-herói do Mundial de 1966.

O destaque é a coleira de Pickles, comprada diretamente do dono David Corbett. Em couro vermelho e com o nome do cão em uma placa prateada, ela é adornada com duas medalhas dadas ao animal por ter encontrado a Jules Rimet. Uma foi oferecida pela Liga Nacional de Defesa Canina. Outra, pelo Clube de Colecionadores da Copa do Mundo.

“Não consigo pensar em outro animal mais importante na história do futebol. O que poderia ser mais importante do que achar a Jules Rimet?”, diz o diretor do Museu Nacional do Futebol, com sede em Manchester, Kevin Moore.

Os itens de Pickles fazem parte da coleção da Copa de 1966, a única vencida pela Inglaterra, do museu. A coleira de Pickles ficou em exibição na sede anterior do órgão, na cidade de Preston, entre 2002 e 2010, e desde 2012 pode ser vista em Manchester, para onde o Museu Nacional de Futebol foi transferido.

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