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Seleção tenta resgatar alegria de cambalhotas de Vampeta em Brasília

Helder Júnior, enviado especial Brasília (DF)

A Praça dos Três Poderes foi tomada por turistas com uniformes das seleções que disputam a Copa do Mundo do Brasil. Suas máquinas fotográficas geralmente estão voltadas para rampa do Palácio do Planalto, sede do Poder Executivo Federal, onde o ex-jogador Vampeta deu cambalhotas para comemorar a conquista do Mundial de 2002 e deixar aquela cena registrada na história. Ou não. “Quem é Vampeta mesmo?”, perguntou um vendedor ambulante, depois de arriscar algumas palavras em espanhol para oferecer “a melhor cerveja da região”.

Vampeta é o volante reserva que o técnico Luiz Felipe Scolari escolheu para animar o ambiente da Seleção Brasileira na campanha de 12 anos atrás. Ele continuou a desempenhar a função mesmo depois da vitória por 2 a 0 sobre a Alemanha na final da Copa do Mundo do Japão e da Coreia do Sul, na recepção presidencial aos campeões no Distrito Federal. Não precisou nem sequer encontrar um vendedor de cervejas que falasse espanhol para, vestido com o uniforme número dois do Corinthians, tomar coragem de rolar rampa do Palácio do Planalto abaixo diante de Fernando Henrique Cardoso, então presidente da República.

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“Eu estava bêbado. Muito bêbado. Mas é uma imagem que vai ficar para os grandes momentos da bola. Até o presidente deu risada”, recordou Vampeta, em uma entrevista concedida à Gazeta Esportiva em 2010. “Aquilo foi coisa de momento. Um torcedor jogou a camisa do Corinthians para mim, e eu dei a minha da Seleção. Depois, deu no que deu”, continuou, às gargalhadas.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Hoje protegida, rampa do Palácio do Planalto teve quebra de protocolo de Vampeta na festa de 2002
Às vésperas de a Seleção Brasileira retornar a Brasília, em época de feriado de Corpus Christi e de fim de semana, Vampeta não foi novamente localizado pela reportagem para comentar as suas expectativas para mais uma Copa do Mundo com Felipão como líder. Também não chegou a ser lembrado no Palácio do Planalto a poucos dias da partida contra Camarões, na segunda-feira, que vale ao Brasil uma vaga nas oitavas de final da competição.

No período de visitação pública ao local, que passou a ser diário para atender a demanda da Copa do Mundo, não há menção alguma ao feito de Vampeta – ainda que a guia classifique a rampa vista do alto como o ponto alto do passeio. “Geralmente, ninguém pode subir ou descer isso aqui. Só houve duas exceções na história, nos funerais do Oscar Niemeyer e do ex-vice-presidente José Alencar. Para facilitar a entrada e a saída dos visitantes, a rampa foi liberada para que as pessoas se despedissem. Foi só uma questão de logística”, ela explicou ao grupo que a acompanhava.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Na inauguração do estádio que abriu a Copa do Mundo, Vampeta repetiu a famosa cambalhota de Brasília
Mais tarde, a guia identificou quem tem curiosidade em relação a Vampeta. “Ah, alguns até me lembram disso, perguntam... Mas, na verdade, são só os mais velhos”, sorriu, deixando em um passado remoto a consequência da bebedeira do volante há 12 anos. “Também falam de um ônibus que teria entrado aqui, no Palácio do Planalto. São coisas que só gente mais velha acaba lembrando”, completou a profissional de Relações Públicas, que contabilizou 400 visitas ao prédio na sexta-feira – pelo menos 90 delas feitas por turistas estrangeiros.

De fato, gestos de irreverência como os de Vampeta parecem ter caído no esquecimento na Praça dos Três Poderes. Ao contrário do Carnaval em que se transformaram muitas das sedes da Copa do Mundo do Brasil, os principais pontos turísticos de Brasília têm visitação ordeira e silenciosa. A Fan Fest da região foi instalada em uma cidade-satélite, Taguatinga, a serenos quilômetros de distância do Palácio do Planato.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
Membro do Batalhão da Guarda Presidencial deve permanecer imóvel diante da rampa do Poder Executivo
Ainda assim, os seguranças do governo estão atentos para conter eventuais abusos de turistas. Um deles se irritou, por exemplo quando uma garota se enrolou em uma bandeira de um dos salões do Palácio Planalto. “Não toque!”, advertiu. A reação seria ainda mais austera caso alguém seguisse os passos de Vampeta na rampa. Dois integrantes do Batalhão da Guarda Presidencial protegem o setor, quase sempre imóveis, das 8 às 18 horas (eles se dividem em turnos de duas horas). Só podem se movimentar em sincronia. Quando acusam cansaço ou sentem câimbra, o militar da esquerda dá o comando para iniciarem uma marcha ou uma evolução com a arma que carregam.

À noite, já com o período de visitações encerrado, o Palácio do Planalto ganha uma imagem mais alegre com a iluminação verde e amarela que os principais prédios de Brasília receberam por ocasião da Copa do Mundo. É essa luz que a Seleção Brasileira espera ter para resolver os problemas do empate sem gols com o México, na última terça-feira – um deles é a queda de rendimento de Paulinho, um volante consagrado no Corinthians como Vampeta.

Sergio Barzaghi/Gazeta Press
À noite, o Palácio do Planalto ganha o verde e o amarelo da Seleção, que enfrentará Camarões na segunda
Ao menos entre os jogadores da Seleção Brasileira, no entanto, ainda prevalece a alegria e o otimismo com as chances de conquistar um novo título mundial sob o comando de Felipão. Todos seguem o discurso do treinador, que se diz seguro da vitória e certamente aderiria a uma promessa feita pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Copa do Mundo de 2010. “Até eu vou dar cambalhota. Não vai ser uma grande cambalhota. Vai ser uma pirueta pequenininha”, definiu o ilustre torcedor corintiano, na época em que a acrobacia de Vampeta ainda não estava ameaçada de cair no esquecimento.