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Abafado pela CBF, tratamento para coluna alivia dores de Júlio César

Tossiro Neto Teresópolis (RJ)

Divulgada no site da CBF, a presença de uma quiropraxista na Granja Comary, no início da semana passada, não se deu à toa. Foi um pedido dos jogadores, como a própria entidade informou. À exceção de Dante, porém, os demais atletas que receberam cuidados da profissional tiveram seus nomes omitidos de propósito. Um deles, se não o principal, foi Júlio César.

O goleiro de 34 anos sofre de lombalgia crônica, disputou a Copa do Mundo de 2010 com uma cinta e deixou duas vezes o campo antes do final dos trabalhos na preparação para a edição atual, em Teresópolis. A reportagem apurou que nem todos os jogadores o seguiram. Muitos não quiseram passar pelas sessões (de cerca de 20 minutos) de alinhamento da coluna, ainda que apenas para relaxamento e bem-estar.

"A maioria das pessoas nos procura para aliviar a dor, por sintomas de lombalgia, mas, no caso dos jogadores, foi prevenção", diz Elisa Dallegrave, quiropraxista que foi convidada por José Luiz Runco (chefe do departamento médico) com a estranha premissa de não revelar de quem cuidou. "Só posso dizer o Dante, que foi fotografado", justificou. A CBF divulgou imagens do zagueiro do Bayern de Munique para desviar o foco, informando que ele "conhece o tratamento há mais de seis anos" e "foi um dos jogadores" que pediram a presença de um quiropraxista.

Júlio César dispunha de especialista da área em seus dois últimos clubes e encabeçou a lista de pedidos. Depois de Tom Greenway no inglês Queens Park Rangers, ele recebeu cuidados de Shameer Ali no Toronto FC, o qual defendeu ao longo do primeiro semestre, no Canadá - um dos primeiros países a licenciar a profissão, que não é regulamentada no Brasil, apesar da existência de duas faculdades. "Ele nunca perdeu uma sessão de treinamento aqui. Ele se cuida muito bem e é um modelo de profissional, um grande modelo para os nossos jovens", contou o preparador de goleiros da equipe canadense, Stewart Kerr, à Gazeta Esportiva.

O cuidado extra é necessário porque seu problema na coluna é "incurável", comum a quem é submetido a exercícios físicos pesados, conforme explicou Runco, ao ser questionado no início do período de treinos se o goleiro não tinha mais dores lombares. "Ele não curou, porque o problema que ele tem na coluna, 99% dos goleiros têm", disse o médico, que se irrita sempre que o assunto é trazido à tona. "Ele faz um trabalho bem elaborado, aprendeu a fazer, está se cuidando e desenvolve seu trabalho normalmente. É um problema que ele não traz de agora, mas há 11 anos, e que nunca fez com que ele deixasse de ser o goleiro que é".

Arte GE.Net
Goleiro brasileiro acusou dores durante a preparação; em 2010, ele usou uma cinta lombar durante a Copa do Mundo da África do Sul (Crédito: Montagem sobre fotos de Fernando Dantas/Gazeta Press e AFP)
Quatro anos atrás, na África do Sul, Júlio César vestiu uma cinta lombar que gerou muita polêmica, pois só deixou de ser segredo seu e dos médicos após ele levar um pisão em partida contra Portugal. Enquanto recebia atendimento, o material ficou exposto, a contragosto de Runco. O ocorrido chamou ainda mais atenção porque, no penúltimo amistoso antes daquela Copa, frente ao Zimbábue, o jogador já havia machucado as costas, fato que, além de forçá-lo a sair, o fez perder vários treinamentos e a última partida preparatória para o torneio.

A função do colete, chamado de cinta lombo-sacra, é imobilizar a região lombar, evitando entorses geralmente resultantes de movimentos bruscos (mecânica corporal exigida em especial aos goleiros). Ele não é proibido pela Fifa porque não há nenhuma lâmina exposta que possa ferir o adversário. Até o momento, ao que se sabe, Júlio César não voltou a usá-lo. Usou em 2010, segundo os médicos, porque as dores aumentaram muito em função de ele ter dormido em um colchão ruim em Harare, onde a Seleção se hospedou antes do duelo com Zimbabué.

Na quinta-feira passada, na estreia da Copa, o goleiro levou uma nova pancada nas costas, em jogada na qual soltou a bola e foi salvo pela marcação de falta - para reclamação da Croácia, que teria feito o gol de empate na sequência. O choque com o atacante Ivica Olic não chegou a tirá-lo de campo, mas o grito de dor com que Júlio César reagiu ao tranco gerou preocupação, tendo em conta seu antigo histórico. Motivadas por uma protrusão discal (deslocamento nos discos que formam a coluna vertebral), as dores começaram em 2003, ainda no Flamengo.

O veterano de 34 anos e três Copas do Mundo é homem de confiança de Luiz Felipe Scolari. Foi o primeiro a ter convocação antecipadamente garantida pelo treinador, que minimizou sua dificuldade em encontrar um time no qual pudesse atuar, no final do ano passado. Também é protegido de Carlos Alberto Parreira, atual coordenador técnico da Seleção e o primeiro a chamá-lo para uma Copa, em 2006, na ocasião como terceiro goleiro. Com esse respaldo, só perderá a posição para os reservas Jefferson e Victor se sofrer alguma lesão grave, o que não é o caso, de acordo com o chefe do departamento médico.

"Fiquem tranquilos, ele vai desenvolver seu trabalho normalmente e, se em algum momento precisar, vai usar de novo a cinta lombar", avisou Runco, três semanas atrás.