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Antecessor de Pelé e Maradona, Di Stéfano se consagrou sem Copas

Demetrius Larocca Lima, especial para a GE.Net Madri (Espanha)

Falecido nesta segunda-feira, em Madri, na Espanha, aos 88 anos, em meio à disputa da Copa do Mundo no Brasil, o ex-atacante argentino naturalizado espanhol Alfredo Di Stéfano, tido como um dos maiores nomes da história do esporte, jamais jogou em um Mundial. Mesmo assim, se consolidou no seleto patamar de astros como Pelé e Diego Maradona, por meio de sua intensa trajetória em clubes, mais especificamente no Real Madrid.

Nascido e criado na Argentina, Di Stéfano teve a primeira oportunidade no profissional atuando pelo River Plate, em 1945. Diferenciado dos demais, logo chamou a atenção da comissão técnica argentina e, dois anos mais tarde, debutou pela albiceleste.

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Alfredo Di Stéfano defendeu a Argentina em 1947
Na seleção, reencontrou o técnico Guillermo Stábile, que o havia treinado no ano anterior, durante um curto empréstimo ao Huracán. Ajudou a equipe a conquistar o Campeonato Sul-Americano (atual Copa América), mas teve poucas oportunidades entre os titulares, para sua frustração.

Em 1949, se mudou para o Millonarios, da Colômbia. No mesmo ano, conseguiu a naturalização e passou a defender a seleção local em busca de maior espaço. Entretanto, os cafeteros estavam suspensos e impedidos de disputar partidas oficiais. Seus poucos jogos pela Colômbia foram em amistosos.

Na Copa de 1950, uma série de fatores, como atritos entre federações e questões políticas, contribuiu para que, além da Colômbia, a Argentina sequer participasse das eliminatórias. A proibição partiu do então presidente Juan Domingo Perón e acabou se mantendo para o Mundial de 1954.

Em meio à falta de sorte na carreira internacional, Di Stéfano brilhou no futebol colombiano. A fama da “Flecha Loira” chegou à Espanha, onde praticamente inaugurou a rivalidade entre Real Madrid e Barcelona. As duas equipes espanholas, ainda longe de serem as mesmas potências da atualidade, tentaram a contratação do jogador. Um entrou em contato com o Millonarios, e o outro, com o River. Cada equipe ficou com um percentual sobre o atleta.

O craque chegou a vestir a camisa do Barcelona em 1953. No entanto, com o interesse merengue, a federação local interviu no negócio, e, para evitar brigas judiciais, propôs que o atacante alternasse entre os clubes. Em um ano, defenderia um, no seguinte, defenderia o outro, e assim sucessivamente. O tema, contudo, é motivo de discórdia até os dias de hoje.

Incomodado, o Barcelona desistiu da negociação, e Di Stéfano foi para o Real Madrid, onde explodiu de vez. Liderou o clube em uma impressionante hegemonia europeia, com cinco Ligas dos Campeões e oito títulos do Espanhol conquistados. Ainda teve uma passagem de dois anos pelo Espanyol, sem o mesmo destaque, antes de se aposentar, em 1966.

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Di Stéfano (dir.) é considerado o maior jogador da história do Real Madrid, onde conquistou cinco Ligas dos Campeões

Sem sucesso na Argentina e na Colômbia, o atacante decidiu se naturalizar pela Espanha, em 1957, para tentar se firmar em sua terceira oportunidade no futebol de seleções. Foi onde se sobressaiu e tornou-se ídolo, mas nem de longe repetiu o sucesso coletivo do Real Madrid. Atuou pela "Fúria" até 1961, registrando 31 jogos e 23 gols.

Nas eliminatórias da Copa do Mundo de 1958, mesmo com um ataque respeitável, formado por Di Stéfano e László Kubala, húngaro naturalizado, e o espanhol Luis Suárez, a Espanha ficou atrás da Escócia em seu grupo e perdeu a chance de disputar a competição na Suécia.

Já na classificatória para o Mundial de 1962 a equipe teve dificuldades, mas desta vez conseguiu uma vaga na competição. Com alguns poucos craques em meio a jogadores esforçados, a seleção espanhola foi apenas coadjuvante.

Para piorar, uma lesão às vésperas da viagem para o Chile tirou qualquer chance do craque jogar na primeira fase da competição. O atacante só poderia voltar na segunda fase. Mas Di Stéfano entrando em campo na Copa do Chile ficou apenas no imaginário. A Espanha se despediu ainda na fase de grupos, ao ser derrotada pela Seleção Brasileira, futura campeã daquela edição, por 2 a 1.

Após a Copa de 1962, o argentino foi forçado a parar de defender a seleção espanhola e consequentemente a se aposentar internacionalmente. A partir das competições seguintes, a Fifa determinou que não iria mais tolerar atletas defendendo seleções diferentes da qual jogou pela primeira vez.

Apesar disso, Di Stéfano não precisou brilhar em uma Copa do Mundo para ser tido como uns dos primeiros grandes craques do futebol mundial. Sua domitante carreira na espanha o elevou a um patamar distante de qualquer outro jogador, até mesmo de Ferenc Puskas, estrela húngara da Copa de 1954 e companheiro de Real Madrid.

Só veria seu reinado ser ameaçado anos mais tarde, com o surgimento de Pelé, e décadas depois, com a chegada de Diego Maradona. Ainda abriu precedente para outro craque: Lionel Messi, que, já no século seguinte, repetiu o caminho do pioneiro "Flecha Loira", ao deixar a Argentina rumo à Espanha e ao domínio europeu.

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Após a aposentadoria como técnico, Di Stéfano se tornou presidente honorário da Uefa e do Real Madrid