Copa do Mundo 2014/ França x Alemanha - ( - Atualizado )

França enfrenta "fantasma" Alemanha para vingar geração de Platini

José Victor Ligero, especial para GE.net Rio de Janeiro (RJ)

Se o Uruguai é o fantasma dos brasileiros por vencer uma Copa do Mundo em cima da Seleção Brasileira, em pleno Maracanã, em 1950, o mesmo pode ser dito da Alemanha em relação à França. Isso porque os alemães mandaram duas vezes de volta para a casa uma geração francesa fortíssima, protagonizada por jogadores como Michel Platini (atual presidente da Uefa), Giresse, Tigana e Bats. Uma safra de talentos que era a esperança de um povo para levar a França ao topo do futebol.

O retrospecto geral dos confrontos entre os dois países europeus mostra outra situação: a superioridade francesa. Foram 25 duelos, com 11 vitórias para os “Bleus”, seis empates e oito triunfos bávaros. No entanto, a Copa do Mundo é responsável pelas partidas mais importantes e memoráveis e quando se fala de França e Alemanha no plano futebol, as imagens resgatadas pelos apaixonados pelo esporte são as das derrotas para o alemães nas semifinais de 1982, na Espanha, e 1986, no México.

Aquela geração francesa dos anos 80 representava o único futebol arte jogado na Europa e era considerada por muitos, inclusive por Pelé, como a favorita a chegar na final do Mundial na Espanha: “Seria uma bela final contra o Brasil”, disse o Rei do Futebol. A imprensa que cobria aquela Copa também rasgava elogios à equipe de Platini e companhia. “O Brasil europeu”, “O melhor futebol do mundo” e “França e Brasil, a final sonhada”, noticiou o jornal A Gazeta Esportiva, na edição de sete de julho de 1982, um dia antes do jogo da semifinal entre França e Alemanha.

Espanha, 1982

Nas imediações do hotel onde os franceses estavam hospedados, em Navacerrada (Espanha), os jornalistas estavam de acordo quando o assunto era favoritismo francês. Os “Bleus” eram vistos como donos de uma técnica mais refinada, enquanto os alemães eram pragmáticos e mais fortes fisicamente. A Gazeta Esportiva sintetizou bem o quadro daquele embate no dia da decisão: “França x Alemanha, a técnica contra a força”.

No entanto, o que se viu naquele oito de julho de 1982 não foi o esperado. No tempo normal, a Alemanha foi aplicada taticamente e segurou o empate por 1 a 1, com Littbarski abrindo o placar para os bávaros e Platini empatando em cobrança de pênalti. Trèsor e Giresse fizeram 3 a 1 e a França esteve com a vaga na final nas mãos. Só que Rummenigge foi infernal nos contra-ataques naquela tarde e ele e Fischer empataram um jogo quase perdido na prorrogação. 

Outro destaque foi o goleiro alemão Schumacher, que antes de defender os chutes de Six e Bossis nas cobranças de pênaltis, fez importante defesa ao sair desesperadamente quando viu Battiston chegar livre em sua meta.

AFP
Battiston ficou cara a cara com Schumacher, que não deixou o defensor francês passar nas semifinais de 1982

O resultado do encontro entre Battiston e Schumacher foi a perda de dois dentes do francês. Sem o pênalti dado, os franceses reclamam da arbitragem até hoje, já que um gol naquelas alturas - o jogo estava empatado em 1 a 1 - poderia decidir o confronto para os "Bleus".  A Alemanha foi à final, mas acabou derrotada, por 3 a 1, pela Itália de Rossi.

AFP
O desfecho do lance foi violento e Battiston precisou sair do campo, de maca, no Estádio Ramón Sánchez Pizjuán, em Sevilha

Leia mais sobre o assunto no Blog do Werneck: “Um clássico europeu”
 
 

México, 1986

Quatro anos depois, no México, o contexto não era tão diferente. Os “Bleus”, com um futebol mais vistoso, eram favoritos para fazer a final com a Argentina embalada por Maradona. Platini x Rummenigge era um duelo visto com “ar de vingança” para os franceses. Os dois possíveis protagonistas desse novo duelo não foram as estrelas do jogo, que foi protagonizado por Brehme e Voeller. Os dois primeiros foram os autores dos gols da vitória bávara por 2 a 0.

Joel Bats, o goleiro francês que foi um paredão contra o Brasil nas quartas de final, foi o “Bode expiatório” daquela derrota, já que falhou grotescamente no gol de Brehme, logo aos dez minutos da primeira etapa. O lance não saiu da cabeça do autor daquele gol até hoje, que descreve bem o ocorrido: “Ainda me lembro bem disso. Foi uma cobrança de falta à direita da área. Felix Magath ajeitou a bola para mim e o meu chute foi no ângulo direito. O goleiro francês (Bats) não pareceu muito contente naquele momento”, disse Brehme, em entrevista ao site da Fifa.

Foi mais um triunfo da rigidez tática alemã sobre o talento técnico francês, como noticiou A Gazeta Esportiva do dia 26 de junho de 1986: “E a escola do futebol-arte está fora da Copa”. Os bávaros cairiam em mais uma decisão de Copa do Mundo, desta vez, para a Argentina de Maradona.

Djalma Vassão/Gazeta Press
O jornal A Gazeta Esportiva sintetizou bem o sentimento dos fãs do futebol arte após a derrota da França para a Alemanha, em 1986, no México

Em 1958, na Suécia, único e solitário episódio feliz para a França sobre alemães em Copas do Mundo. Naquela ocasião as duas seleções disputaram o terceiro lugar e o craque francês Fontaine foi o heroi do confronto, com quatro, dos seis gols dos “Bleus” na partida, que terminou com o placar de 6 a 3.

Brasil, 2014

Rio de Janeiro, Estádio do Maracanã. Esse será o local de mais um episódio dessa enorme rivalidade em uma Copa do Mundo. A um dia do duelo válido pelas quartas de final, dois importantes nomes da seleção francesa atual falaram sobre o confronto. Tanto o volante Matuidi, quanto o zagueiro Sakho, não eram vivos quando aquelas duas “guerras” aconteceram nos anos 80 e, por isso, preferem viver o presente.

“Em 82 e 86 eu nem era nascido. Já me falaram desses jogos, conhecemos a história, mas não posso falar muita coisa. É outro jogo”, disse Sakho, de 24 anos e que joga pelo Liverpool, da Inglaterra. Matuidi também ignora as derrotas passadas para a Alemanha e gosta de recordar as campanhas vitoriosas de 1998, com o título, e de 2006, com o vicecampeonato.

“Tenho boas lembranças das nossas participações. Lembro de 98, quando fomos campeões, e de 2006. Estou falando de um passado recente. Claro que teve 82 e 86, mas eu não tinha nascido. Para mim, vestir essa camisa é motivo de orgulho. Quero defendê-la e não preciso invejar qualquer outra nação”, esbravejou o volante que joga no Paris Saint-Germain, em entrevista coletiva na váspera do jogo decisivo no Maracanã.

Uma vitória da França, além de dar a vaga a uma das semifinais da Copa, exorciza um fantasma que assombra uma nação há mais de três décadas. Em caso de triunfo alemão, será mais uma vitória que revelará, de vez, a supremacia do futebol bávaro em momentos históricos sobre o rival continental.

AFP
Um dos destaques da França, o volante Matuidi prefere relembrar os bons momentos da seleção em 1998 e 2006