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Beverly Hills carioca, retiro do Brasil em 50 já recebeu Marquezine

Tossiro Neto, enviado especial Rio de Janeiro (RJ)

Ao avistar o veículo da reportagem se aproximando da calçada, no domingo à tarde, um segurança sugeriu: "Se vão ao festão da Manuela, podem estacionar ali, tem vaga reservada para a imprensa". Do outro lado da rua, por volta de duas da tarde, celebridades deixavam o carro com o manobrista antes de entrar na bela casa do diretor Wolf Maya, pai da promoter Manu e da atriz Maria Maya, que comemoravam aniversário juntas. Mas o propósito no Joá, minúsculo e nobre bairro do Rio de Janeiro, era conhecer outra casa, logo em frente, onde a Seleção Brasileira ficou concentrada na preparação e em parte da Copa do Mundo de 1950.

Anfitrião de 1950 recebeu astronauta e conspiração do Golpe de 64

O local foi encontrado graças a uma fotografia publicada na época pela Gazeta Esportiva, na qual os jogadores aparecem em cima do muro, com a Pedra da Gávea ao fundo. Antes destacada em um terreno praticamente isolado, a “Casa dos Arcos”, como era chamada, agora faz parte de um condomínio que cerca outras 54 residências de luxo – o preço do aluguel pode chegar a R$ 10 mil por noite –, no começo da estrada de mesmo nome do bairro. A portaria não autorizou a entrada, sob a justificativa de que, atordoado por um drama familiar, o atual proprietário da casa ("um alemão") já tinha recusado outro pedido recente.

De fora, é impossível se ter visão do interior, encoberta por árvores que beiram o muro. Mas, nas imagens de satélite do Google, descobre-se que, além de piscina, a casa possui diferentes níveis de telhado e, portanto, provavelmente mais de um andar. O certo é que a estrutura é diferente daquela que o já falecido ex-senador Drault Ernanny de Mello e Silva, antigo proprietário, emprestou à Confederação Brasileira de Desportos (CBD), há 64 anos. "A casa precisou ser reconstruída. Tinha um entulho grande, o barranco correu um pouco, e ela foi derrubada", conta o advogado Drault Ernanny Filho. Segundo ele, o imóvel deixou de ser de seu pai em 1962, cinco anos antes da demolição, e dispunha inicialmente de 16 quartos, salão com sinuca e uma piscina metade rasa, metade funda, ideal para os atletas que não sabiam nadar.

Seja na configuração antiga ou atual, trata-se de uma mansão. Uma das diversas do isolado bairro, que, delimitado por São Conrado e a Barra da Tijuca, é um dos mais "exclusivos" da cidade. De acordo com a prefeitura, são 380 domicílios (sendo 276 sobrados) para uma população de 818 pessoas, em uma área territorial total de 169 hectares. Área que inclui os 500 metros da Joatinga, uma pequena, mas muito bonita praia, à qual só se chega através de uma trilha de pedras, dentro de um condomínio privado. O acesso é permitido a qualquer um, mas ela é frequentada principalmente pelos moradores de classe alta da região, dentre eles diversos famosos, que encontram ali a privacidade inexistente em outras praias do Rio de Janeiro.

A lista de celebridades que costumam dar as caras é longa, razão pela qual o Joá é comparado com a californiana Beverly Hills, conhecida igualmente por abrigar celebridades em mansões luxuosas. A versão carioca não tem atores estrangeiros de Hollywood – embora Sylvester Stallone já tenha cogitado morar no local –, mas é abrigo ou recebe visitas de muitos artistas das principais emissoras de TV brasileiras, e não apenas nos eventos da festeira família Maya. O casal de apresentadores Luciano Huck e Angélica construiu uma casa gigantesca. Os galãs de cinema Cauã Reymond e Rodrigo Santoro gostam de surfar nas boas ondas da Joatinga. E quem mais atraiu fãs nos últimos tempos foi o cantor canadense Justin Bieber. Em 2013, o astro pop teen alugou uma das mansões do condomínio que, hoje em dia, engloba o terreno da casa que abrigou a Seleção no primeiro Mundial no Brasil.

Divulgação
Namorada de Neymar posou para uma coleção "inspirada no glamour de Beverly Hills", em uma locação no Joá, no ano passado, logo após acompanhar o atacante no Barcelona (Crédito: André Nicolau)
Sem o mesmo alarde, Bruna Marquezine, a namorada de Neymar – principal esperança para que a Seleção, novamente em casa, possa agora se redimir do vice-campeonato de 1950 para o Uruguai –, também já passou pelo Joá. Foi em 6 de junho de 2013. Três dias depois de acompanhar a apresentação do atacante no Barcelona, a atriz passou pelo Hotel La Suite, onde fez um ensaio para uma grife de moda jovem chamada Deliz. A coleção era "inspirada no glamour de Beverly Hills", segundo divulgou a marca, em setembro, no lançamento da campanha de verão. Intencional ou não, a escolha da locação não poderia ter sido mais apropriada.

Quase um ano mais tarde, no último 1º de junho, Marquezine reapareceu em outro grande momento da carreira do namorado, no local de concentração da equipe nacional. Que não é mais na capital do Rio de Janeiro, mas sim na serra fluminense, em Teresópolis. Com chapéu e óculos escuros, a jovem protagonista de novela manteve discrição durante a atividade dos jogadores em campo, porém logo foi reconhecida na arquibancada da Granja Comary, tendo que conceder autógrafos e tirar fotografias com parentes dos demais convocados pelo técnico Luiz Felipe Scolari. Depois do treino, almoçou com o namorado e curtiu ao seu lado a janela de quatro horas de folga do elenco.

Passado um mês, o time liderado por Neymar tem apenas mais três jogos na busca por apagar o fantasma de 1950. Na sexta-feira, a partir de 17 horas (de Brasília), enfrenta a Colômbia, em Fortaleza, pelas quartas de final. Diferentemente do que houve na primeira Copa disputada no País, caso avance, o selecionado brasileiro não mudará o local de concentração para a semifinal. Sessenta e quatro anos atrás, o pacato Joá foi substituído por São Januário no último jogo da primeira fase e no primeiro do quadrangular final. O técnico Flávio Costa levou o time novamente à Casa dos Arcos em seguida, mas, após uma noite e um dia, a concentração voltou ao estádio vascaíno tanto para a penúltima partida como para a decisão contra o Uruguai.

Montagem sobre fotos de Fernando Dantas/Gazeta Press e Reprodução
Local foi encontrado pela reportagem com ajuda de fotografias publicadas pela Gazeta Esportiva, em 1950
A mudança facilitou o entre e sai de pessoas, principalmente políticos, que tentavam explorar o prestígio da Seleção em ano eleitoral. Depois da derrota de virada no Maracanã, na final, o técnico Flávio Costa precisou se justificar. Disse que havia muito barulho à noite no Joá, mas foi rebatido pelos atletas. "Existiam apenas umas ciganas, que ficavam ali embaixo do muro, pedindo para ler a mão dos jogadores, mas o Flávio Costa não deixava. Era restrito. E elas gritavam: 'Não saiam da casa nenhum dia', em uma espécie de vaticínio. Não acreditando nas ciganas, mas já acreditando, o que atrapalhou foi a mudança de local", lembra Drault Ernanny Filho, que tinha oito anos na ocasião e conviveu com os atletas na casa do pai. Conselheiro benemérito do Flamengo, ele estará no Maracanã na final da edição atual. Talvez esbarre em Marquezine.