Futebol/Copa 2014 - ( - Atualizado )

Em 10ª Copa, Parreira dá ideias e até palpite tático para Felipão

Tossiro Neto, enviado especial Teresópolis (RJ)

Contratado para coordenar a comissão técnica da Seleção, Carlos Alberto Parreira tem feito bem mais do que isso nesta Copa do Mundo, a sua décima na carreira. Na prática, ele atua muitas vezes como assistente direto de Luiz Felipe Scolari, treinador que, assim como ele, também já comandou o time brasileiro em um título mundial, mas participa do torneio apenas pela terceira vez e, ao que parece, não se importa em receber seus conselhos.

Na segunda-feira à tarde, Parreira desceu ao centro de mídia da Granja Comary, acompanhado de Felipão e de Flávio Murtosa, o oficialmente auxiliar do treinador. O trio convocou seis jornalistas conhecidos para uma conversa reservada, no fundo da sala, a fim de trocar impressões sobre o desempenho da equipe e a cobertura da imprensa. Foi uma sugestão de Parreira, repetindo o que havia feito em Weggis, durante a preparação para a Copa de 2006, quando dirigiu a seleção pela última vez.

Oito anos atrás, em vez de um bate-papo no próprio local em que a imprensa trabalha, Parreira convidou (coincidentemente também seis) articulistas para um jantar no hotel da concentração: Alberto Helena Júnior, Armando Nogueira, Fernando Calazans, Renato Maurício Prado, Ruy Carlos Ostermann e Tostão participaram do encontro. Desta vez, os escolhidos foram outros, mais conhecidos de Felipão: Carlos Eduardo Mansur, Fernando Fernandes, Juca Kfouri, Luiz Antônio Prósperi, Osvaldo Pascoal e Paulo Vinícius Coelho. Na conversa de aproximadamente uma hora, todos falaram, até mesmo Murtosa.

Fernando Dantas/Gazeta Press
Coordenador técnico tem sido uma espécie de segundo treinador da Seleção Brasileira neste Mundial
Parreira tem estilo bem diferente de Felipão. Sempre muito educado, não faz caretas nem gesticula tanto, e fala em baixo tom de voz. O gaúcho é explosivo, dentro e fora de campo, e costuma atacar a imprensa e adversários com frequência. Juntos, porém, se dão muito bem. O treinador não sofre interferência alguma nos trabalhos durante a semana, mas já permitiu que o coordenador desse palpites em sua prancheta tática à beira do campo neste Mundial.

O grupo respeita essa autonomia e liderança de Felipão, mas grande parte dos 23 convocados também considera Parreira uma espécie de segundo treinador. O goleiro Júlio César, que foi seu jogador na Copa de 2006, dificilmente fala de um sem citar o outro. "Estamos falando de uma comissão técnica que já participou de diversas Copas do Mundo e tem experiência de sobra para passar o melhor para a gente", disse, outro dia, o camisa 12, para defender a programação reduzida de treinamentos na Granja Comary.

O respeito que os atletas e a comissão têm por ele se deve ao fato de ele já ter estado em outras nove edições de Copa. Nas duas primeiras (1970, sendo campeão, e 1974), como preparador físico do Brasil. Em 1982 (Kuwait), 1990 (Emirados Árabes), 1994 (campeão com o Brasil), 1998 (Arábia Saudita), 2006 (Brasil) e 2010 (África do Sul), como treinador. Já em 2002, ano em que Felipão ganhou o título, ele era observador técnico da Fifa. Uma vasta experiência com a qual Felipão busca aprender, ainda que, na teoria, a missão de Parreira seja outra.

Como coordenador, ele deveria basicamente supervisionar e integrar o trabalho dos profissionais de diferentes especialidades da comissão (preparadores físicos, médicos, fisiologistas, entre diversos outros), a fim de facilitar a Felipão a busca pelo melhor rendimento. Ele, porém, não tem se restringido a isso, ao contrário de alguns de seus antecessores no cargo. Zagallo, seu coordenador em 1994 e 2006, talvez tenha chegado mais perto do que ele faz hoje em dia. Já Antônio Lopes, em 2002, e Zico, em 1998, tiveram atuações discretas na função.