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Anfitrião de 1950 abrigou astronauta e conspiração do Golpe de 64

São Paulo (SP)

Dono da Casa dos Arcos, onde a Seleção Brasileira ficou concentrada durante boa parte da Copa do Mundo de 50, o empresário Drault Ernanny possuía também outro importante imóvel: a Casa das Pedras. O local, construído com inspiração no filme E o Vento Levou, foi palco da vida social e política do Rio de Janeiro no século 20, e recebeu importantes hóspedes, como o astronauta russo Yuri Gagarin, além de festas e reuniões, uma delas considerada, por seu organizador, importante para o Golpe Militar de 1964.

Ernanny adquiriu a mansão em 1942 da norte-americana Alice Beauregard, que mandou construí-la com base na casa em que a personagem Scarlett O'Hara, interpretada por Vivien Leigh, vivia no clássico filme O Vento Levou. Com espaço amplo e boa localização, logo passou a receber importantes visitantes.

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O hóspede mais célebre da Casa das Pedras, no entanto, demorou mais 19 anos para ocupar um quarto na mansão de estilo virginiano, no Alto da Boa Vista, e construída em um terreno de 15 mil metros quadrados. E só chegou depois de deixar a Terra. Foi o astronauta russo Yuri Gagarin, primeiro homem a viajar pelo espaço, em abril de 1961 a bordo da nave Vostok I.

O homem que informou que a “Terra é azul” chegou ao Brasil em julho daquele mesmo ano e foi instalado na Casa das Pedras a pedido do Itamaraty, como conta Drault Ernnany em sua autobiografia Meninos, eu vi... e agora posso contar. Lá, acabou fotografado acariciando uma das integrantes da comitiva, então tratada como aeromoça, o que quase gerou um incidente diplomático entre o País e a União Soviética, que tentavam retomar relações.

“Tudo se resolveu, porém, do nosso jeito. Ofereci um almoço de quatrocentas pessoas em homenagem a Gagarin, convidei jornalistas, políticos, militares, cientistas interessados no projeto espacial, diplomatas e socialites. O astronauta soviético divertiu-se muito”, conta o empresário em suas memórias.

AFP
Primeiro homem a viajar ao espaço, Yuri Gagarin visitou o Brasil em 1961 e ficou na Casa das Pedras

As habilidades de anfitrião de Drault Ernanny já eram célebres à época, tanto que ele calcula ter recebido na Casa das Pedras “14 presidentes da República”, entre as décadas de 1940 e 1980. Na lista, estão Carlos Luz, Nereu Ramos e Ranieri Mazzilli (interinos), Lyra Tavares (integrante da Junta Governativa Provisória de 1969), Aureliano Chaves (na realidade vice de João Baptista Figueiredo) e Tancredo Neves (que morreu antes de tomar posse). “Recebi-os antes e depois de serem presidentes”, orgulha-se.

A boa relação entre políticos fez com que o paraibano, médico de formação, recebesse em sua Casa das Pedras também heróis da Segunda Guerra Mundial, Soong Mei-ling, mulher do então primeiro-ministro da China, Chiang Kai-shek, e Fiorello La Guardia, prefeito de Nova York.

Drault Ernanny entrou para a vida política de forma oficial como senador na década de 1950 e também foi deputado. Deixou o congresso de forma definitiva em 1963, mas continuou envolvido na definição dos rumos do País. Em janeiro do ano seguinte, a pedido de Humberto Castello Branco, organizou um almoço na Casa das Pedras com lista de cerca de 100 convidados pré-determinados pelo general, que em abril assumiria como presidente após o Golpe Militar que depôs João Goulart (que nunca foi recebido no local). Estiveram presentes militares, empresários, políticos e jornalistas.

“Dois meses depois desse almoço histórico, o movimento militar de 1964 eclodiu. Ouso dizer que a Casa das Pedras foi o cenário onde teve início uma etapa dessa revolução”, afirma em sua autobiografia.

A Casa das Pedras, onde Ernanny passou “as quatro décadas mais intensas” de sua vida, foi colocada à venda pelo paraibano em 1983, depois de ter recebido importantes nomes como o pintor Cândido Portinari e também uma festa em homenagem aos artistas que participaram do primeiro Festival Internacional da Canção Popular, em que até o marechal Artur da Costa e Silva, presidente do País, esteve presente.